Tem uma frase que resumiu bem o sentimento de muita gente em 2025: “trabalhei mais, ganhei mais… e mesmo assim sobrou menos”.
O Brasil melhorou em indicadores importantes, mas a vida real mostrou um aperto persistente. E, do lado de fora, o país continuou sob uma exigência cada vez maior: previsibilidade, confiança e segurança nas regras do jogo.
Fechando o ano, vale juntar tudo em um balanço simples: o que aconteceu no bolso, o que pesou na confiança e o que isso sinaliza para 2026.
1) Por que o dinheiro não rendeu
O mercado de trabalho terminou 2025 muito forte. O desemprego caiu para 5,4% no trimestre encerrado em outubro, o menor nível desde 2012. A renda média real chegou a R$ 3.528 e a massa de renda bateu R$ 357,3 bilhões, ambos em recorde.
Mas a pergunta que importa é outra: por que tanta gente ainda sentiu que não melhorou?
Na prática, a conta ficou assim:
- Custo fixo apertando
Moradia, alimentação, transporte, escola, saúde. Quando esses itens “comem” a maior parte do orçamento, a renda até cresce, mas a sobra não aparece. - Crédito caro e parcelamento virando armadilha
Com juros altos, a compra do dia a dia vira parcela. E parcela acumulada vira ansiedade financeira. - Qualidade do trabalho ainda desigual
A informalidade seguiu elevada, com 37,8% dos ocupados. E a subutilização (gente que queria trabalhar mais e não consegue) ficou em 13,9%.
Resultado: a economia melhorou no agregado, mas, no cotidiano, a sensação foi de esforço maior para manter o mesmo padrão.
2) Como o mundo nos enxerga: instabilidade vira custo
Investidor e empresa estrangeira olham o Brasil por filtros simples: regra estável, ambiente previsível, segurança jurídica e disciplina fiscal.
Quando isso parece frágil, não é só “opinião”: vira custo.
Em 2025, o país viveu episódios que, do lado de fora, foram lidos como aumento de tensão institucional e judicialização de decisões econômicas. A mensagem que chega ao mercado global é direta: se a regra pode mudar por disputa política ou por decisões imprevisíveis, o risco aumenta.
E quando o risco aumenta, acontece uma coisa bem concreta: o capital fica mais seletivo e exige retorno maior. Ele não desaparece, mas passa a pedir “garantias extras” antes de apostar.
3) O que andou e o que travou na economia
2025 foi um ano de desaceleração sem colapso. Uma espécie de “freio com controle”.
O PIB do 3º trimestre variou 0,1% contra o trimestre anterior e cresceu 1,8% na comparação anual. A inflação também deu sinais melhores no fim do ano: em novembro, o IPCA foi 0,18% e, em 12 meses, ficou em 4,46%.
Só que o pano de fundo foi pesado: juros altos. A Selic terminou o ano em 15%.
Em termos simples, isso significa:
• crédito caro
• investimento mais lento
• PMEs com menos fôlego
• consumo mais cauteloso
A economia não “quebrou”, mas andou com peso.
4) O que esperar de 2026 (sem ilusão)
O consenso de mercado entra em 2026 com uma leitura pragmática: crescimento menor, possível alívio gradual nos juros e um ambiente potencialmente mais volátil por causa do cenário político e fiscal.
As projeções mais citadas apontam para:
• PIB em torno de 1,8%
• Selic no fim do ano perto de 12,25%
• Câmbio na casa de R$ 5,50
O que isso sugere para famílias e empresas:
- Se vier alívio, tende a vir pelos juros, não pelo crescimento
Ou seja: a melhora pode acontecer, mas sem “mágica” e sem virada de chave. - 2026 pode ter mais ruído e mais oscilação
E oscilação afeta confiança, dólar, juros longos e decisões de investimento. - Produtividade volta a ser o centro da conversa
Emprego ajuda, mas prosperidade sustentável vem quando se produz mais valor por hora — e isso passa por gestão, qualificação e eficiência.
Conclusão: número bom não basta, tem que virar vida melhor
2025 mostrou que indicador positivo é importante, mas não resolve sozinho.
O Brasil terminou o ano com trabalho forte e inflação menos pressionada. Mas a sensação do bolso foi de aperto, e o país seguiu sob uma lupa externa que cobra previsibilidade.
Se 2025 foi o ano em que “os números melhoraram, mas o bolso reclamou”, 2026 precisa ser o ano em que o Brasil troca ruído por execução.
E, para quem empreende e para quem administra a vida financeira, a recomendação é simples e prática:
• reduzir dívidas caras
• ganhar produtividade
• planejar cenários com disciplina
• tomar decisões sem depender de “otimismo”, mas de estratégia
Porque, no fim das contas, economia boa é aquela que cabe no bolso e permite planejar o amanhã com menos incerteza.