A cor da mobilidade: como o transporte revela desigualdades raciais no Brasil e no mundo

Foto retrata a superlotação em estações de transporte público, ocasionando sobrecarga nas redes. Crédito: Tomaz Silva / Agência Brasil.

Nos grandes centros urbanos, mover-se não é apenas uma questão de deslocamento. É também um marcador de desigualdade, um reflexo das distâncias sociais que se expressam nas ruas, nas calçadas e nos ônibus lotados. No Brasil, o direito de ir e vir tem cor, classe e endereço, e essa realidade expõe um racismo estrutural que se repete, em diferentes nuances, em cidades ao redor do mundo.

Periferias distantes, pontos de ônibus sem abrigo e calçadas quebradas não são apenas descuido urbano: são expressões de um modelo de cidade que empurra para as margens aqueles que mais dependem do transporte coletivo. No caso da população negra, essa lógica é ainda mais perversa. Pesquisas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que pretos e pardos estão mais expostos a deslocamentos longos, a tarifas mais pesadas em relação à renda e a riscos maiores no trânsito. Entre 2011 e 2021, os registros de mortes de pedestres e ciclistas, sobretudo em áreas periféricas, permaneceram elevados, atingindo de forma desproporcional homens e mulheres negros.

Essa desigualdade não é casual. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revela que os bairros com maioria negra carecem de infraestrutura básica: iluminação pública, saneamento, calçadas contínuas e oferta regular de ônibus. O resultado são jornadas casa–trabalho mais longas, ambientes mais inseguros para caminhar e uma sensação cotidiana de exclusão. Cada hora a mais dentro de um ônibus lotado significa uma hora a menos de convivência familiar, de descanso ou de estudo. É uma violência silenciosa, que mina as oportunidades e encurta horizontes.

As mulheres negras sentem de forma ainda mais dura esse fardo. Acumulando funções domésticas e cuidados familiares, elas realizam o que especialistas chamam de “viagens em cadeia” — deslocamentos que incluem levar os filhos à escola, passar no posto de saúde, ir ao trabalho e parar no mercado. Dependentes de transportes que funcionem fora dos horários de pico, enfrentam justamente a precariedade nesse período. Esse desenho da mobilidade reforça desigualdades de gênero e raça, limitando ainda mais o acesso ao emprego e à renda.

A realidade brasileira ecoa em outras partes do mundo. Nos Estados Unidos, um relatório da Associação Governadores pela Segurança nas Estradas (GHSA) mostrou que mais de 7 mil pedestres morreram em 2023, com maior incidência entre pessoas não brancas. Pesquisas federais apontam que bairros habitados majoritariamente por negros e latinos são os mais perigosos para pedestres, em razão da ausência de calçadas adequadas, da má iluminação e da negligência nos investimentos públicos. O mesmo ocorre em países africanos, onde a expansão urbana desordenada empurra trabalhadores para periferias distantes, sem transporte público eficiente, e em cidades europeias, onde imigrantes e refugiados vivem em áreas menos atendidas por serviços de mobilidade.

O que se desenha, em escala global, é a geografia do privilégio. Enquanto alguns se deslocam em minutos por linhas de metrô modernas, outros enfrentam jornadas de horas em ônibus velhos e irregulares. Quem mora longe paga duas vezes: no bolso, com tarifas pesadas, e no tempo de vida, desperdiçado em trajetos intermináveis. No Brasil, a tarifa é proporcionalmente mais cara para os mais pobres, e a oferta de transporte se reduz exatamente onde está a maioria negra. A cidade, nesse contexto, não é espaço de encontro, mas de exclusão.

Os caminhos para enfrentar essa desigualdade são conhecidos e já foram defendidos por especialistas em mobilidade e direitos urbanos. Entre eles estão a criação de metas claras de acesso a empregos e serviços em até 60 minutos de transporte público; investimentos prioritários em infraestrutura nos bairros periféricos; ampliação das redes integradas de ônibus, trens e metrôs; tarifas sociais; e políticas de segurança viária que reduzam velocidades em áreas de maior circulação de pedestres. Além disso, é fundamental inverter a lógica dos investimentos que privilegiam obras viárias para automóveis enquanto milhões dependem de transportes coletivos precários.

Discutir mobilidade é também discutir justiça social e racial. É reconhecer que o tempo gasto em deslocamento é um indicador de cidadania. Mobilidade é política de reparação quando corrige desigualdades históricas, é política econômica quando aproxima trabalhadores das oportunidades e é política de saúde quando reduz mortes no trânsito e a exposição à poluição. O direito de ir e vir precisa deixar de ser privilégio e se consolidar como política pública universal.

O debate não pode ser neutro. Se a rua é espaço de convivência, ela também revela quem tem direito de circular nela. Democratizar a mobilidade exige que governos reconheçam o peso do racismo estrutural e adotem ações afirmativas no planejamento urbano, garantindo participação social nas decisões e monitorando, com dados públicos, os impactos das políticas implementadas.

As cidades só serão justas quando o tempo de deslocamento não depender da cor da pele ou do CEP. Não se trata apenas de ônibus e metrôs, mas de futuro. A forma como nos movemos revela a forma como escolhemos conviver.

Assino este artigo como ex-Secretário Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, convicto de que ruas mais justas salvam vidas, aproximam oportunidades e ampliam horizontes. O caminho está posto; cabe às políticas públicas escolher que cidade queremos construir.

Juvenal Araújo - Administrador, Gestor Público e Palestrante. Atual Subsecretário de Direitos Humanos e Igualdade Racial do Distrito Federal, Foi Ministro Interino de Direitos Humanos, Secretário Nacional de Promoção da Igualdade Racial, Secretário Nacional de Políticas para Comunidades Tradicionais, Secretário Nacional de Políticas de Ações Afirmativas, Presidente da Presidência Pro Tempore do Brasil, na IV Reunião de Altas Autoridades sobre os Direitos dos Afrodescendentes (RAFRO).

Juvenal Araújo - Administrador, Gestor Público e Palestrante. Atual Subsecretário de Direitos Humanos e Igualdade Racial do Distrito Federal, Foi Ministro Interino de Direitos Humanos, Secretário Nacional de Promoção da Igualdade Racial, Secretário Nacional de Políticas para Comunidades Tradicionais, Secretário Nacional de Políticas de Ações Afirmativas, Presidente da Presidência Pro Tempore do Brasil, na IV Reunião de Altas Autoridades sobre os Direitos dos Afrodescendentes (RAFRO).

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