A crise que não veio do céu

Foto: Pedro França / Agência Senado

Diante de crises, costuma-se dizer por aqui que “Deus é brasileiro”, mantendo a massa iludida, conformada e esperançosa em meio às nossas mazelas. Convenhamos, a crise que nos atravessa não veio do céu. Ela foi construída, normalizada e aprofundada por decisões humanas concretas, por atos deliberados e, sobretudo, por omissões coletivas.

O que chamamos de “sistema” não é uma abstração conspiratória nem um ente metafísico. Trata-se de uma arquitetura integrada de poder, formada ao longo de décadas, que conecta setores do Estado, do mercado, da comunicação e de organizações nacionais e internacionais. Cada parte mantém sua aparência de autonomia, mas funciona de modo interdependente quando seus interesses centrais são ameaçados.

Negar isso não é ceticismo saudável. É ingenuidade política.

O sistema político brasileiro contemporâneo não se sustenta apenas por leis, partidos ou eleições. Ele se sustenta por mecanismos informais de coerção, muito mais eficientes do que qualquer imposição explícita. Dizer “não” tem um custo. E o custo não é simbólico. O sistema não exige concordância, exige adesão.

Autoridades políticas, agentes públicos, empresários ou personalidades que se recusam a aderir cegamente à lógica dominante aprendem, rapidamente, que a dissidência não é tratada como divergência legítima, mas como anomalia a ser corrigida.

Os instrumentos são conhecidos: destruição de reputações por narrativas seletivas; investigações assimétricas; isolamento político; asfixia econômica; exposição midiática permanente e judicialização estratégica da vida pública.

Nada disso exige uma sala secreta com pessoas encapuzadas. Funciona porque interesses convergem, incentivos se alinham e o medo faz o resto. Isso não é teoria da conspiração, é engenharia de poder.

A imprensa, em tese fiscalizadora, frequentemente se transforma em linha de transmissão de consensos previamente definidos. Não por maldade abstrata, mas por dependência estrutural: acesso, financiamento, prestígio e sobrevivência institucional. A imprensa não cria o sistema, mas o ajuda a operar e é bem recompensada por isso.

O resultado é um espaço público onde certos temas se tornam intocáveis, outros são classificados como politicamente incorretos e certos personagens são condenados antes de qualquer debate real.

E quando a sociedade perde a capacidade de imaginar alternativas, o sistema não precisa mais se justificar, apenas se perpetuar. Não se trata de censura direta, trata-se de limitação do imaginável.

Uma das maiores ilusões políticas contemporâneas é a crença de que é possível permanecer neutro. Não é. A neutralidade está se tornado um mito e o preço da recusa a adesão é invariavelmente cobrado. No Brasil, a independência intelectual é interpretada como ameaça. A recusa em se alinhar é lida como hostilidade. Quem não repete os mantras corretos, quem não aceita as soluções prontas, quem não se curva ao consenso fabricado, passa a ser tratado como risco institucional, mesmo quando age dentro da lei.

A mensagem é simples e brutal: Não importa se você está certo. Importa se você está integrado.

Diante desse cenário, muitas vezes recorremos a explicações confortáveis: destino, fatalidade, “vontade superior”, forças invisíveis, ideologias ou dogmas. É uma forma aconchegante de escapar da responsabilidade. Elas figuram no rol de responsabilidades que preferimos terceirizar, daí sobra culpa até pra Deus.

A verdade é menos reconfortante. Esse ambiente foi criado por nós, como sociedade: quando toleramos abusos em nome de conveniência, quando aceitamos atalhos em nome da estabilidade, quando normalizamos a troca de princípios por resultados imediatos, quando confundimos governabilidade com submissão.

Não fomos vítimas passivas. Fomos agentes ativos, ainda que silenciosos. Se a crise não veio do firmamento, a solução também não virá. Ela exigirá algo muito mais raro do que discursos inflamados ou salvadores da pátria: maturidade cívica. A crise que não veio do céu requer coragem terrena.

Exigirá aceitar que o poder não gosta de ser confrontado, a liberdade tem custo real, dizer “não” cobra um preço alto e que nenhuma estrutura injusta cai sozinha.

Enquanto continuarmos tratando consequências humanas como se fossem fatalidades cósmicas e idolatrando politicos populistas, o sistema seguirá intacto, não porque é invencível, mas porque aprendeu que não será enfrentado.

A crise não veio do céu. Ela nasceu aqui embaixo. E é aqui, com lucidez e responsabilidade, que terá de ser resolvida. E sim, precisamos de muitas orações e fé, pois a crise brasileira é muito grave e de solução profundamente complexa e de longo prazo. A crise é de caráter!

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