A década da toga

Foto: Euler Júnior/TJMG

No último domingo, o Brasil celebrou mais um 7 de Setembro. A data, que deveria juntar o país, tornou a expor um traço incômodo do nosso tempo: vivemos uma década da toga, na qual decisões centrais da vida pública vem migrando do ambiente político para o foro judicial, enquanto os extremos, alimentados por essa transferência de protagonismo, ocupam o centro do palco. Entre a efeméride cívica e a lembrança do aniversário de Juscelino Kubitschek nesta semana, vale perguntar: quando a política terceiriza seus impasses ao Judiciário e as torcidas ideológicas passam a pautar o debate, o que fazemos com a ideia de independência?

A história ajuda a iluminar. A independência brasileira não nasceu inteira às margens do Ipiranga. Em janeiro de 1822, em Ouro Preto, da sacada do Palácio dos Governadores, Dom Pedro anunciou a necessidade de ruptura com Lisboa — gesto que dialogava com a Inconfidência Mineira (1789) e com uma longa fermentação de ideias nas vilas e câmaras de Minas. Ali se percebe que independência é processo: começa como convicção, amadurece como negociação e se conclui como decisão política. Quando essa arquitetura falha, outras esferas ocupam vazios.

Um século depois, em 1922, Minas voltou a antecipar um movimento decisivo — agora no campo da arte. A passagem de Mário de Andrade por Mariana, em 1919, e a descoberta de Ouro Preto ofereceram ao modernismo a chave para uma independência estética: tradição como matéria de invenção, não como peso. Do púlpito barroco à Semana de Arte Moderna, uma mesma lição: a liberdade não é um ato isolado; é uma construção de linguagem, instituições e confiança.

Chegamos ao presente sob dupla pressão. De um lado, a judicialização: o tribunal, que deveria ser árbitro último, virou ator frequente, porque a política vem perdendo capacidade de mediação, planejamento e pacto. De outro, os extremos: denunciam a intervenção quando lhes convém e a celebram quando os favorece. O resultado é uma democracia tensionada, com energias desviadas para batalhas processuais, enquanto ficam para depois as tarefas que definem um projeto de país: educação que emancipa, economia que inova, cultura que integra.

É nesse contraste que JK reaparece, não como nostalgia, mas como paradigma de método. O “50 anos em 5” não foi apenas velocidade; foi direção. Brasília, a interiorização, as cadeias produtivas supunham coordenação, pactos federativos e uma ideia de futuro compartilhada. JK conheceu crises e perseguições, mas insistiu em política com horizonte, capaz de converter dissenso em obra. A década da toga e a lógica do extremismo fazem o oposto: convertem a divergência em processo e o processo em paralisia.

O 7 de Setembro, lido à luz de 1822 e 1922, sugere um diagnóstico simples e difícil. Depois da independência política e da independência estética, falta-nos completar a independência social — não como plano quinquenal, mas como critério de leitura do presente: reduzir desigualdades, qualificar a escola, diversificar a base produtiva, proteger e difundir o patrimônio cultural, fortalecer instituições que não balancem ao sabor de climas de ocasião. Isso exige devolver à política sua função própria: deliberar, compor, responder. E devolver ao Judiciário o que é seu: garantir regras e direitos, sem substituir o debate público.

Minas, que antecipou gestos decisivos da nossa história, lembra que independência é obra contínua, não feriado. Como ensinou Guimarães Rosa, “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. A travessia brasileira de hoje pede menos espetáculo e mais responsabilidade; menos idolatria de polos e mais compromisso com instituições; menos grito e mais escuta.

Se quisermos honrar a data cívica e a memória de JK, vale repetir, com simplicidade, a síntese do que nos falta praticar: culturas e respeito mútuo, as diferenças que, juntas, são liberdade.

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