Nesse segundo ano do seu segundo governo, o governador Romeu Zema a todos surpreendeu ao anunciar e fixar como meta sua personalíssima decisão de imediatamente transformar 730 escolas estaduais de ensino médio, de um total de 1450 unidades, em escolas cívico-militares. Declarou que o sentido e propósito desse tipo de escola é submeter os adolescentes e jovens de 15 a 17 anos de idade a um regime organizacional escolar pautado por “disciplina”, por ele distinguida como um valor (ou virtude) superior e decisivo, como tal, acima de Verdade e Justiça, as virtudes morais primeiras, democracia e liberdade, Direitos Humanos, autonomia moral e intelectual do indivíduo e consciência de si no mundo, capacidade de fazer escolhas com responsabilidade individual e social, cidadania plena, direitos individuais, coesão social resultante de uma sociabilidade democrática. Como quer o governador, uma vez estabelecida a Escola Cívico-Militar como o padrão institucional desejado, nela, a atribuição da competência de, mais que disciplinar, educar segundo a disciplina como valor superior da organização escolar incumbirá a um terceiro e militar, externo à escola. Esse terceiro e militar deverá agir dentro da escola com o poder de garantir o cumprimento das regras funcionais e organizacionais da instituição escolar. Para que assim se faça, ele passa a compor o quadro funcional da escola tipicamente investido da prerrogativa de exercer controle hierárquico, impositivo, e, no limite, punitivo, sobre os alunos, de modo semelhante à forma hierarquizante e impositiva de um comando. Portanto, o modelo institui e assegura ao militar uma autoridade de tipo coercitivo, disciplinador, exercida em paralelo, entretanto, sem concorrência, face à autoridade do diretor escolar. Sem concorrência, porquanto em paralelo, vez que a função disciplinadora e a autoridade conferida ao agente disciplinador são subtraídas à autoridade originária do diretor escolar, ainda que ele detenha o poder da “palavra final”, contudo, após os fatos ou atos!
Singularmente, como quer o governador Romeu Zema, o agente militar disciplinador irromperá na escola autorizado a exercer seu típico poder disciplinador diretamente em cada sala de aula e a qualquer tempo. Nesse caso, em clara duplicidade e em situação de permanente ambivalência face à autoridade do professor e, originariamente, também um educador. Essa ambivalência ou ambiguidade, carregada do potencial de transbordar tensões em conflitos de competências e de autoridade, tenderá a delimitar ao professor o papel de docente “auleiro”, vez que pelo menos em parte destituído de sua antes inalienável função social e profissional de educador pleno. O agente disciplinador precisará obter dos alunos obediência e o comportamento desejado segundo um modelo padronizado de conduta, e, assim, justificar sua existência funcional e garantir sua permanência na escola. Esse agente militar e externo, uma vez internalizado funcionalmente como um componente do quadro de escola, e, dentro dela, uma vez empoderado ao exercer seu estranho papel ou função, sua presença em ação irá, primeiro, fragilizar a autoridade do professor em sala de aula, e, em acumulação, senão desautorizar, provavelmente irá desacreditar a autoridade do docente em presença dos seus alunos. O resultado irrevogável será o de fragilizar a autoridade moral e funcional da direção e da equipe de coordenação pedagógica da escola, e, objetiva e concretamente, o de fragilizar e desautorizar o professor como educador, em sentido pleno.
Pois essa “terceirização” de papéis, na forma de um comando militar em atos e em continuidade, irá comunicar aos alunos que os agentes policiais-militares, ainda que educados e cuidadosos, ali estão porque, patentemente, os professores e os gestores são institucionalmente vistos pelo Estado e pelo governo como incapazes de liderar e servirem de exemplo ou de modelo de orientação cultural geral e de condutas aos alunos. Portanto, dada a implícita fragilidade de liderança e o déficit de exemplaridade dos professores, doravante, a sala de aula, a cada aula, deverá dispor de, e exibir, de fato, duas referências: a ação docente do professor e a ação disciplinadora e concorrente do militar. Essa cisão de “competências”, em paralelo e em concorrência, cinde a missão educativa global da escola, cinde no professor a unidade do docente e do educador em uma só pessoa, isso estabelecido em aberta contradição com a filosofia pedagógica e ético-política da Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2017), vez que, nos próprios termos, significa uma aberta e completa contradição e negação da ideia-conceito filosófico-pedagógica de Educação Integral.
A Educação Integral, diz o nome, integra as dimensões cognitiva, emocional, a educação de sentimentos, a formação de valores, a educação para a vida em democracia e para o exercício da cidadania, a vivência e a experiência pensada e amadurecida sobre a sociabilidade como convivência na diversidade e na diferença, tão típicas da condição humana, acrescida da educação estético-artística, de práticas esportivas, de educação tecnológica, e do aprendizado para o exercício da cidadania. Não há na proposta de escola cívico-militar uma filosofia, uma concepção pedagógico-educativa. A ela atribuir propósito de educar para a cidadania seria o mesmo que declarar erro originário na Constituição de 1988, na BNCC (2017) e na própria ideia e na prática da vida em democracia, porque estariam vazias de significado ao se atribuir à forma cívico-militar o propósito e a competência de educar para a cidadania. Que fique claro: na expressão cívico-militar, o termo militar é o substantivo e conceito; o termo cívico, o adorno, o predicado empalidecido e sem vida, despersonalizado, o adereço. Civismo, ou é civismo democrático, logo, educar para a vida em democracia, em pluralidade, na diversidade, a vida pautada por tensões e resoluções construídas mediante debate, diálogo, argumentação, eventual conflito e sua resolução pacífica, aprendizado como vivência e, pela reflexão, experiência pensada e apropriada ética e intelectualmente, a cargo e encargo de educadores em relação direta e sem mediações com os educandos, ou é farsa para edulcorar o propósito real e finalístico condensado na expressão militar.
Na Escola Cívico-Militar a ação do militar é executada de fora para dentro do ambiente físico da sala de aula, uma vez que o disciplinador policial-militar também, e principalmente, fiscaliza, observando da janela, uma a uma, do lado de fora, o que se passa em cada sala de aula. Como o vigilante não dispõe de um panóptico, de onde tudo se vê a partir de um único ponto de observação, ele precisa fazer a ronda das salas de aula, continuamente. Se a escola dispõe de andar superior, nesse caso, provavelmente o vigilante do andar superior aguardará o chamado do professor para intervir, assim ocupando, no ato de comandar para disciplinar, o lugar da exemplaridade ética e profissional do educador, doravante, ausente na figura desse novo tipo empalidecido e fragmentado de professor, o professor-metade.
Isso estabelecido, o professor desqualifica-se, em ato, exibindo-se em sua fragilidade moral. Nele, professor, ocorrerá psiquicamente uma cisão de ordem cognitiva e moral. Vez que o instituído terceirizado disciplinador o irá despojar do dever e da ação de liderar e servir de exemplo aos seus alunos, eis que, de modo semelhante à água que adquire a forma do recipiente que a contém, o docente irá moldar-se, acomodar-se, até rebaixar suas próprias expectativas morais e intelectuais. Irá rebaixar suas expectativas em relação aos seus alunos, com os quais, doravante, deverá demarcar uma relação de copresença física em sala de aula, contudo, em situação de um irrevogável estranhamento psicológico e emocional entre eles. Portanto, objetiva e subjetivamente, ficará estabelecida uma desconexão afetivo-emocional e de sentidos, um estranhamento nas relações entre professor e aluno. O docente transformar-se-á em um técnico provedor de aulas, um “auleiro”. Será percebido pelos alunos como um abdicante de seu essencial papel de educador pleno.
Subverte-se, portanto, essencialmente, o sentido humanizador do ato de educar. A disciplina estabelecida de fora para dentro da sala de aula, mediante coerção, seja psicológica (expectativa de intervenção de um terceiro), seja na forma de pública admoestação, e, no limite, de alguma punição, irá testemunhar ao aluno a ambivalência entre a fragilidade do professor e da direção, e a força do agente militar externo. Nesse formato, o aluno, por definição, a priori, será e se perceberá, subjetivamente, como o desejado-indesejado na escola, o ambivalente amigo e suspeito face ao professor cindido em suas competências, o portador de direitos e, ao mesmo tempo, o inconveniente face a um diretor acomodatício e pragmático. Na percepção e na sensibilidade do educando, o modelo dispersa, senão dissolve, a formação de referências que deveriam resultar da construção pelo professor e os alunos de laços emocionais e afetivos de confiança mútua, reciprocidade e cooperação. Pois o modelo adotado tem como premissa que o aluno, por definição “indisciplinado”, não é propriamente confiável, vez que o valor maior é a “disciplina”. Em sua sensibilidade, o aluno percebe-se e passa a ser percebido como que uma “folha em branco” a ser “escrita” ou preenchida pela disciplina inculcada de fora de sua consciência e autonomia moral, por condicionamento coercitivo, até que seja obtida a conduta desejada em molde de hábitos mecanicamente adquiridos.
Não é assim que se forma o caráter. Não obstante, como quer Romeu Zema, é a disciplina que molda o caráter. Como ele quer, é a padronização comportamental que molda o caráter, ao invés da educação sentimentos implícito e explicitado nas práticas de uma sociabilidade democrática, a disciplina ao invés da educação intelectual dialógica e argumentativa sobre valores e ética, também assimilados pelos alunos a partir da exemplaridade e de referências éticas dos seus educadores. A formação do caráter, o desenvolvimento sociopsicológico e a capacidade de exercer controle moral sobre as próprias emoções, pulsões e paixões transcorrem na escola por meio de aquisição e construção cultural, nas práticas de diálogos, de debates e de interações, por meio da formação literária e científica, da formação estética e artística, de incentivos às práticas de cooperação e solidariedade, de experimentos de ação cidadã e de interações com a comunidade do entorno, no debate crítico sobre temas fundamentais como Justiça, Direitos e Deveres, indivíduo e seus direitos, indivíduo e sociedade, desigualdade e justiça, no desenvolvimento da capacidade cultural e social de ouvir e de conviver com o Outro e diferente, e no aprendizado de formar consensos razoáveis e verdadeiros.
Eis porque a Escola Cívico-Militar é a declaração de ruína do sentido filosófico-pedagógico da ideia de Educação Integral, a essência da BNCC, aliás, disposta em lei federal vinculatória. A educação multidimensional, integral, humanista e humanizadora para a vida em democracia, para a formação de cidadãos democratas com autonomia moral e intelectual para fazerem escolhas com responsabilidade individual e social, portanto, com consciência ética, deixaria de ser a essência do processo educativo entre sujeitos, para figurar como extravagância, uma vez que a “disciplina”, por si e em si, ocuparia o lugar soberano de bem público maior. A escola da disciplina, pela disciplina e para a disciplina, como valor em si, é incompatível com a condição humana da pluralidade, da diversidade, da incerteza, e das humanas propensões à solidariedade, à curiosidade, à transgressão criativa e à afirmação da individualidade, da dignidade e da consciência de SER no mundo.
A Escola Cívico-Militar é o sepulcro da autonomia da razão. Admiti-la ou silenciar diante dessa ameaça à liberdade de consciência, equivaleria a uma declaração de renúncia ao legado do Iluminismo e seu fundamento moral: a autonomia da razão e da ética face ao mito, ao mistério, à autoridade, aos autoritarismos (do rei e dos déspotas de todo tipo), ao tradicionalismo, aos preconceitos, às paixões e aos interesses dominantes, e face à moralidade imposta.
Finalizo: a Escola Cívico-Militar é, em intenção (oculta) e de fato, a realização autoritária da Escola Com Partido Único, a escola regida pela disciplina militar para moldar convergentes, ao invés de formar cidadãos democratas.
Afinal, como chegamos a esse extremo aqui em Minas Gerais?
Contexto e escolhas
Estabelecido que o ex-presidente Jair Bolsonaro iria, cedo ou tarde, passar à condição de réu, e que, nessa condição, adiante, o acusado e processado decerto iria a julgamento, já não havia possibilidade de dúvida razoável sobre a culpabilidade criminal do réu. Portanto, sentenciado, passaria à prisão; inelegível, cumpriria a pena. Nesse contexto, a extrema-direita brasileira exibiu abundância de pré-candidaturas à presidência da República. Somente entre os atuais governadores, as ambições reuniram, em competição, Tarcísio de Freitas (SP), Romeu Zema (MG), Ronaldo Caiado (GO) e, mais discreto, Ratinho Jr. (PR). Na família Bolsonaro, o inelegível ex-presidente sonhava com a anistia e a candidatura em 2026, ao preço da chantagem de Trump e do clã dos Bolsonaro contra o Brasil, na forma de: ou o Brasil sofre a taxação neoimperial de 50% sobre as suas exportações para os Estados Unidos, ou, face à fortíssima possibilidade de Jair Bolsonaro vir a ser condenado a até 43 anos de prisão, o presidente Lula anistia o ex-presidente, além de torná-lo elegível para a disputa eleitoral de 2026. Esse era e é o propósito da trama Trump-família Bolsonaro.
Patentemente, a armadilha do “tudo ou nada” ou o dilema do tipo “ou … ou”, a trama por meio da qual o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro, seu pai e o presidente Trump imaginaram envolver politicamente, para sufocar, o presidente Lula, e, em adição, desmoralizar o Supremo Tribunal Federal. A trama exibiu a chantagem, e e disso resultou um prodígio às avessas: o feitiço virou-se contra os feiticeiros! Como se vê, a família Bolsonaro jogou o seu tudo ou nada em um “combate nas trevas” da chantagem contra o Brasil e as instituições do estado Democrático de Direito, contra a soberania nacional, contra o povo e os empresários brasileiros, contra o senso de dignidade nacional. Propósito: proteger interesses familistas catapultados pela família Bolsonaro acima dos interesses da própria Nação e sua dignidade e soberania, e acima do país e sua economia e seus interesses comerciais. O fato que fica é que os Bolsonaro desvelaram aos brasileiros os significados verdadeiros dos lemas de campanha e de governo do ex-presidente. Um, “Brasil acima de todos; Deus acima de tudo”, afinal, escancara o seu real significado originário: “Jair Bolsonaro e família acima de todos; Trump, e os Estados Unidos acima de tudo.” Outro: “Deus, pátria, família e liberdade”. Ou seja: “Trump, Estados Unidos, os Bolsonaro e liberdade” para impor os seus interesses. Então, como em cena de um Apocalipse, o céu começou a desabar sobre a extrema direita brasileira, as cabeças de governadores bolsonaristas e da família Bolsonaro.
À maneira do “quanto pior, melhor”, de modo semelhante e, ao mesmo tempo mais radicalizado que o extremismo de Tarcísio de Freitas e de Ronaldo Caiado, Romeu Zema enxergou na desejada e tramada crise a sua “oportunidade” de saltar à frente para ocupar a candidatura da extrema direita à presidência em 2026. Enxergou no réu e indefensável Jair Bolsonaro, um cadáver político insepulto. Disposto a canibalizar os restos políticos mortais do ex-presidente, traçou seu script eleitoral e apostou em suas expectativas de poder: fazer do ex-presidente um herói de ocasião, santificá-lo como vítima da intolerância de Lula e do Supremo, e louvá-lo para ocupar o seu lugar político de poder. Os governadores bolsonaristas Zema, Tarcísio e Caiado imaginaram que a taxação seria suficiente para estrangular o governo Lula e projetá-lo na impopularidade em ano eleitoral e decisivo. Todos apostaram e louvaram o “quanto pior, melhor”. Em política e na vida de uma nação, essa é a mais destrutiva dentre as paixões destrutivas. Eis o “nacionalismo” do governador Romeu Zema, o mais assanhado e reacionário dentre todos esses apologistas da catástrofe.
A prontidão com que os governadores bolsonaristas Tarcísio de Freitas, Romeu Zema e Ronaldo Caiado apoiaram Trump e a família Bolsonaro, em aposta contra a soberania e a dignidade nacionais, fez com que, também prontamente, perdessem capital simbólico, reputação, credibilidade. As consequências não esperaram. Desde então, as pesquisas seriadas da Quaest demonstram que Jair Bolsonaro, os três governadores bolsonaristas presidenciáveis e Eduardo Bolsonaro haviam embarcado na nau dos insensatos. Para sempre carregarão sobre os ombros o manto de chumbo da servidão voluntária a Trump e aos Bolsonaro em troca da soberania do Brasil e dos interesses nacionais. É o preço das ambições descomedidas e da má fé. Pois uma coisa é a fragilidade moral; outra, é a má fé, que os aquece e embala.
Embora as direitas, como as esquerdas, detenham nas pesquisas, cada lado, 33% garantidos da preferência nacional de voto, o fato que também fica é o de que o presidente Lula se reposicionou como o candidato mais competitivo e com chances de vitória em 2026, à frente de Jair Bolsonaro e de todos os demais nomes da extrema direita. Em resumo, Lula e seu governo saíram das cordas, do cerco contra eles há seis meses empreendido pelas direitas aqui no País, sob a liderança proeminente do Centrão, anexado à extrema direita. Quiseram internacionalizar a operação de cerco estratégico, e deu no que deu: percebidos como vendilhões da soberania nacional! Com as ações golpistas, haviam perdido a bandeira da legalidade. Agora ficaram despojados da bandeira do nacionalismo.
Programa de ação das direitas e de Romeu Zema: “Quanto pior, melhor”
Ninguém mais apto que o banqueiro, rico empresário João Amoêdo, um liberal sincero, coerente em política e em economia, fundador e primeiro presidente nacional do Partido Novo, do qual se afastou por desencanto, para avaliar a atitude de Romeu Zema nesses sombrios e recentes acontecimentos de ameaça à nossa soberania nacional. Ele assim se manifestou: “Nesse episódio da taxação, todos deveriam ter condenado a intervenção externa em questões soberanas do Brasil. O governador de Minas, Romeu Zema, veio com a história de que o Brasil tinha que atender as demandas do cliente, colocando os EUA como cliente. Não existe isso, porque o Brasil compra muito mais do que vende. Os EUA não são os clientes. São as empresas e pessoas físicas que são clientes de um ou outro” (FSP, A16, 15/07/2025). Como se vê, o herdeiro “lojista e varejista” Romeu Zema enxerga a Nação como um “cliente” e a vê naturalmente curvada ao “cliente” EUA. Portanto, sustenta que o presidente do Brasil precisaria ceder e anistiar o criminoso Jair Bolsonaro para se livrar da taxação. Romeu Zema vislumbrou e desejou chegada a hora e a vez de sair na frente. Apostou na divisão do Brasil, desejando-o uma vez mais radicalizado, polarizado entre o “Nós contra Eles”. Essa subserviência não denota apenas fragilidade moral. Denota escassez de um senso de moralidade, abundância de covardia moral. É intencionalidade, gesto de má fé.
Como imaginaram e desejaram os Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Romeu Zema, estabelecida a taxação de 50%, até as eleições de 2026, emparedado por relações comerciais assimétricas o Brasil permaneceria irremediavelmente tomado por uma crise consequente à irreversível queda nas exportações, disso resultando desemprego, ora em queda histórica, desinvestimento estrangeiro, alta do dólar e queda da Bolsa, baixa confiança do empresariado e estagnação, desorientação do governo, pressões do empresariado contra o governo, a inflação em queda voltando a subir e queda acentuada da aprovação do governo. Algozes da soberania nacional, projetaram uma duradoura aliança entre o Centrão e a extrema direita garroteando o governo Lula com vetos e pautas-bomba de aniquilação do orçamento. A primeira delas, saiu da Câmara dos Deputados na noite de 15/07/2025, na última sessão legislativa antes do recesso de julho: as direitas aprovaram a transferência de R$ 30 bilhões do Fundo Social (recursos provenientes do pré-sal) destinados à educação e à saúde, para que, na forma de empréstimos subsidiados, empresários ricos do agronegócio quitem suas dívidas bancárias anteriores. Com a chantagem de Trump, imaginaram e desejaram inviável ou colapsando a eventual recandidatura do presidente Lula. Ao perceberem que o tiro dos Bolsonaro em Lula saíra pela culatra, então, por conta própria, produziram o seu bombardeio fiscal contra o orçamento público. Querem inviabilizar o governo.
O desejado colapso do governo Lula e, sem a anistia, o real colapso da candidatura de Jair Bolsonaro a presidente, são os componentes da paisagem de desejos do governador Romeu Zema. Ele se enxerga competitivo e com chances no horizonte de 2026, desde que se estabeleça como o candidato e herdeiro do bolsonarismo e obtenha o apoio do próprio Bolsonaro. Observe-se que nada tem de acaso no fato de Romeu Zema, há dois anos, desde o segundo semestre de 2023, surpreendentemente irromper em grosserias, provocações, ataques pessoais e vulgaridades, e em guerra política e ideológica aberta contra Lula: deixou de receber o presidente quando de suas visitas a Minas Gerais, deixou de atender os convites do presidente para comparecer a reuniões em Brasília, passou a ofender pública e moralmente o presidente, como governador e como pessoa, investiu contra o governo em aberta campanha de agressões e de mentiras grosseiras sobre o PROPAG, mentiu pública e ostensivamente sobre a situação da dívida financeira de Minas Gerais, em vã tentativa de transferir a responsabilidade por um eventual colapso financeiro de Minas Gerais ao presidente Lula. Em resumo, escancarou-se em hostilidades ao governo federal e ao presidente da República. O que estava acontecendo?
Romeu Zema havia mudado, muito, e para muito pior: nele irrompera o extremista, seu psiquismo passara a pulsar e fermentar ódio político. Entretanto, a maioria dos mineiros ainda não percebera que o país do desejo de Romeu Zema é o “Nós Sem Eles” ou o ódio ideológico no poder, até alcançar a exclusão do Outro. Romeu Zema é, hoje, o político mais extremista do campo da extrema direita político-militar-religiosa brasileira. O que se enxergava em Jair Bolsonaro no poder, se observa em Romeu Zema no poder e pretendente a candidato a presidente. Ao invés de nele florescer sabedoria política a partir das vivências transformadas em experiência pensada, e, daí, à sabedoria política e à disposição ao diálogo, o governador faz do adversário político e competidor ocasional, o inimigo permanente, figadal e odioso a ser destruído. O antes comedido, afável, educado, e sempre em seu tom de voz ameno, há dois anos fez sair do armário um outro, um Romeu Zema decidido ao combate no “coração das trevas” do tudo ou nada contra o presidente da República e contra o Supremo Tribunal Federal. Isso feito, após quatro anos contínuos (2019 a 2022) de beligerância contra a Assembleia Legislativa de Minas Gerais, em seu psiquismo irromperam, para prevalecerem, as mais destrutivas paixões e cobiçosas ambições que conduzem à perda do bom senso, da capacidade de discernimento, da razoabilidade e da civilidade. Desde então, o bolsonarismo beligerante passou a ser o seu molde atitudinal. O propósito só agora declarado de vestir farda e impor ordem unida militar em 730 escolas públicas estaduais de ensino médio, expõe quem verdadeiramente é Romeu Zema, desvela o seu extremismo, sua inclinação antidemocrática ao autoritarismo.
A ditadura militar, Jair Bolsonaro no poder, Romeu Zema e a “Escola Cívico-Militar”
Sobre o projeto de implantação de 730 escolas públicas estaduais “cívico-militares” de ensino médio em Minas Gerais, observe e compare, leitor, até onde alcança o extremismo manifesto do governador Romeu Zema, exibido em voluptuosa e irrevogável escalada a partir do segundo semestre de 2023. Desde então, ele passou a seguir os passos percorridos por Jair Messias Bolsonaro quando exercia a presidência da República. A diferença singular reside no fato de que Bolsonaro foi, desde a juventude, sempre um sanguíneo e virulento extremista. Ao contrário, na maturidade e a após exercer os primeiros quatro anos de poder, Romeu Zema se fez extremista. Primeiro, por assimilação comportamental e por gradual impregnação psíquica; e, cumulativamente, por preferência e escolha deliberada. Tomou gosto pela “ferocia”. O político declaradamente antipolítico e antipolítica está conduzindo a antipolítica à descida ao inferno, o “coração das trevas” do ódio, como propulsor da ação. Veremos que o Romeu Zema extremista é significativamente diferente daquele governador ainda em primeiro mandato, de 2019 a 2022. Comecemos por algumas esclarecedoras comparações.
A ditadura militar: Escola Cívico-Militar?
A ditadura militar de 1964 a 1985 (para Romeu Zema, se a ditadura existiu ou não, é uma “questão de interpretação”, conforme declarou em entrevista à FSP, aos 04/06/2025), jamais propôs ou incentivou, no país, o experimento de escola cívico-militar. Em seu léxico ideológico, jamais utilizou essa expressão. Tanto que não implantou nenhuma durante os seus sombrios 21 anos de poder e dominação. Propagandeou o “Brasil: ame-o ou deixe-o”, de exclusão autoritária do Outro e intolerância e perseguição contra o divergente; exaltou o lema “Brasil, Grande Potência”, exagero emocional que, não obstante, era um propósito geopolítico sincero. Com sinceridade e coerência, a soberania nacional sobressaiu como um valor inegociável; moldou a fracassada proposta de “Educação Moral e Cívica”, com efeito, sem empenhar-se em aplicá-la. Limitou-se a manter os poucos e discretos colégios militares mantidos pelas Forças Armadas, destinados a alunos vocacionados e para a reposição de futuros quadros de oficiais, como em todo o mundo. Da mesma forma discreta e razoável assim agiram as polícias-militares estaduais. Portanto, nesse âmbito, nenhum excesso. Antes, notável moderação. A ditadura militar não foi um autoritarismo de mobilização e de militarização da sociedade. Essa, a militarização, é uma marca e intencionalidade típicas do fascismo, e uma predileção do bolsonarismo. A ditadura militar caracterizou-se como uma forma de autoritarismo tecnocrático-militar. Jamais insinuou qualquer propósito de estabelecer uma autocracia (o poder concentrado em uma pessoa e núcleo de dominação) e impediu o personalismo militar (impôs a regra do revezamento do presidente-militar a cada quatro anos). Tanto assim se deu que, quando a chamada “linha-dura”, controladora do Sistema DOI-CODI de sequestros, torturas e assassinatos de presos políticos, quis tomar o poder e impor ao presidente Ernesto Geisel um golpe de Estado por dentro da própria ditadura, Geisel compreendeu que a ditadura ingressara em processo de corrosão interna das Forças Armadas e que as Forças Armadas poderiam degenerar em um bando de facínoras no controle do poder. Contra-atacou, debelou o golpe, depôs generais de seus comandos, e pôs em marcha acelerada a “distensão lenta, gradual e segura” rumo a uma forma de transição conservadora e pactuada de redemocratização. A ditadura militar jamais teve como projeto de poder o fascismo ou uma autocracia, como queriam o presidente Jair Bolsonaro e seus generais palacianos, assim como o bloco civil de poder financeiro-agrário-religioso, que tanto o encorajou na direção de fazer do poder uma autocracia.
Jair Messias Bolsonaro e a Escola Cívico-Militar
Não obstante o seu desvario extremista, o próprio Jair Messias Bolsonaro expusera na campanha de 2018 a sua principal proposta educacional e meta: criar em todo país 200 (duzentas) escolas cívico-militares, contudo, mediante o apoio do governo federal aos governadores e prefeitos interessados. Portanto, nenhuma delas seria uma escola federal. Quanto a Romeu Zema, em seu Plano de Governo de 2018, contendo 59 propostas, nenhuma delas faz referência à escola cívico-militar. Com efeito, até 2022, nenhuma foi implantada em seu governo, em Minas Gerais. Sua ênfase e obsessão, tampouco transformadas em ação concreta, anunciavam o propósito inarredável de “concessão de escolas públicas à iniciativa privada”, objetivo que jamais sairia do papel. Seu “Plano de Governo” para o período de 2023 a 2026, tão vago, opaco e medíocre quanto o precedente, tampouco faz qualquer referência à implantação de escola cívico-militar. Esse modelo não constava da agenda governativa do governador Romeu Zema (Plano de Governo 2023-2026” está disponível na internet). Não obstante, o que Romeu Zema anunciou no primeiro semestre de 2025? Mais que triplicar a meta nacional de Bolsonaro (200 escolas no país), comprometeu-se a quadruplicá-la, somente em Minas Gerais, nesse curto período que lhe resta (2025-2026) de seu segundo governo. Essa comparação põe em evidência que o propósito de Romeu Zema é, no mínimo, demasiadamente desproporcional, extravagante, descomedido. Já não se trata apenas de uma “competição” com os governadores Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado e Ratinho Jr. sobre quem faz mais escolas cívico-militares. Mais além de oportunismo eleitoral para capturar as preferências do bolsonarismo nacional, trata-se de uma escolha ideologicamente orientada, intencional. Hitler queria militarizar as juventudes! O que, de fato, Romeu Zema quer?
Romeu Zema: a Escola Cívico-Militar como projeto de militarização X democracia
Eis, a propósito, mais uma prudente e esclarecedora comparação. Dessa feita, Romeu Zema I e Romeu Zema II, isto é, seus primeiro e segundo governos. Em seu primeiro governo, o governador de Minas Gerais apenas fez uso persistente da palavra mágica “gestão profissional”, resumo do que deveria ser o seu governo na área da educação. O IDEB de Minas Gerais permaneceu estagnado: Anos Iniciais: 6,2 (o segmento está praticamente municipalizado. O Estado respondia por 20% das matrículas de 1º ao 5º ano; hoje, menos de 10%. Portanto, o resultado expressa o desempenho dos municípios); Anos Finais (segundo dados do INEP, referentes a Minas Gerais, de 2021: Estado: 50,0% das matrículas; Municípios: 28,4%; rede privada: 11,6%), a cargo predominantemente do Estado: IDEB 4,7; Ensino Médio (no setor público, somente o Estado): IDEB 4,0. Como se observa, resultados desafortunados. Romeu Zema não tinha o que mostrar; nada tinha a propor na área da educação. Sua “gestão de resultados” dera em nada. Trocou a secretária. Nomeou um diretor de escola. Contentava-se com a sua autoproclamada “gestão eficiente”, demarcada pelo trinômio “infraestrutura e equipamento, alimentação escolar e transporte escolar”, ou seja, meios de provisão, gestão confundida com gerenciamento trivial de provisão de meios, isto é, prédio – que todos fazem e quase todos apontam o dedo ao antecessor como se nada houvesse feito -, comida e transporte. E a qualidade do ensino ou da instrução, e a qualidade do aprendizado, e a qualidade pedagógica da gestão escolar, e a escola verdadeiramente comunitária? Resultados e ações dessa ordem, nenhum! Assim transcorria, também, o segundo e modorrento mandato do governador Romeu Zema e sua tumultuosa e conflitiva relação com a Assembleia Legislativa, decorrente de sua proverbial ojeriza à prática de relação política construtiva como o Legislativo.
Direto ao ponto de interesse. Reeleito, durante o primeiro biênio (2023-2024) de seu segundo governo, Romeu Zema manteve-se em seu lugar natural, sem luzes, nenhum brilho, discreto, menos por estilo, mais por ausência de capacidades e de alguma sabedoria e algum talento, bens do espírito nele completamente indisponíveis. Estabelecido, por óbvio, que ineludivelmente o já sentenciado à inelegibilidade Jair Messias Bolsonaro, processado, seria julgado pelo Supremo, e com alta probabilidade de receber robusta pena de prisão, eis que, das meninges de Romeu Zema irrompe, como paixão ardente e avassaladora, o sonho presidencial. Nada tendo a propor ao país, estando nele ausente a estatura do líder de ideias com a capacidade de conceber um programa de governo e de desenvolvimento para o país, investe e inflete em uma só direção, como o prisioneiro na Caverna de Virgílio: na ausência de luzes, na escuridão caminha em uma só direção! Foi assim que Romeu Zema decidiu e escolheu vestir-se de algoz do governo do presidente Lula: radicalizar na oposição, no tudo ou nada, investir na polarização, no radicalismo ideológico, ainda que ao preço de produzir a fake news de cada dia, a farsa e a fraude ideológica de cada dia, com roupagem midiática de verdade. Com esse propósito, o governador contratou empreendimento de marquetagem. Desde então, marquetagem, Romeu Zema e algoritmo, conveniência e radicalidade afetivo-ideológica amalgamam-se e moldam-se, dia a dia, sempre observado o que dizem os seus guias para a ação: o algoritmo, o extremismo e a volúpia pelo poder. Com o registro de que as paixões, as pulsões, as inclinações, os vieses ideológicos e os graves preconceitos discriminatórios e antissociais de Romeu Zema “saíram do armário”, expostos sob o sol, dia a dia. Sugeriu publicamente que as populações do Nordeste do Norte do Brasil são oportunistas, inaptas para o trabalho, indolentes, e, por isso, vivem às custas do trabalho e da produtividade das populações do Sul e do Sudeste do Brasil. Portanto, em Zema a tutela do algoritmo não exerce sobre ele poder de império. Do seu psiquismo (o “armário” mental), antes represados, saíram todos os males do mundo, de uma só vez: preconceito social de classe, preconceito regional, preconceito etnográfico, ódio aos pobres e aos mais desvalidos (“guinchar” das ruas as pessoas em situação de rua!)
De um originário bolsonarismo de conveniência eleitoral, de uma mentalidade arcaica, ultramercadista em economia e socialmente ultraconservadora, a mentalidade de Romeu Zema transitou, primeiro, por impregnação, e, em seguida, por identidade, entrega, adesão, internalização e sedimentação de valores, de uma posição inconsequente e ainda irresoluta de semilealdade à democracia (vez que, desde 2018, na campanha, apoiara abertamente o candidato autoritário) ao autoritarismo antidemocrático. Com efeito, transbordou a um ostensivo e desavergonhado apoio ao governo autoritário e ao seu golpismo contumaz, em engajamento entusiástico às legiões do bolsonarismo, em defesa ostensiva e aberta do réu e criminoso, em ataques ao Supremo, até a exibição de uma mentalidade reacionária e antidemocrática demarcada por preconceitos ideológicos anti-humanistas, todos eles com a marca da maldade de diferentes e combinados gêneros de discriminação do Outro: de classe social, de hierarquização social, de hierarquização regional, segundo a origem, contra o pobre e a situação de pobreza, até o ponto extremo do preconceito etnográfico contra o nordestino. Romeu Zema transformou-se em um pobre de espírito virulento e perigoso para a democracia. Em seu espírito sem luzes, em sua consciência infeliz, encontrou lugar e voz o bolsonarismo-raiz. Entregara-se ao extremismo, a um extremismo colonizado.
Romeu Zema e a extrema direita brasileira internacionalizada e trumpista odeiam a Constituição de 1988, a democracia de 1988, os governos democráticos e modernizantes do capitalismo de 1995 a 2002 (FHC), os governos democráticos e reformistas de Lula I e II e Dilma I. A extrema direita brasileira foi gerada em ação com o propósito de promover a destruição institucional do Estado Democrático de Direito. O impeachment da presidente Dilma Rousseff abriu-lhe as portas do inferno para o ataque frontal à Constituição e à democracia. Entretanto, por dentro da democracia, conquistou o poder pelo voto, não sem sistematicamente atacar, para desacreditar, a Justiça Eleitoral e a urna eletrônica. Incontinente, no poder impiedosamente golpeou a democracia e as instituições do Estado Democrático de Direito na forma do golpismo em ação. Perdeu as eleições presidenciais de 2022. Todavia, o bolsonarismo manteve-se em posições de poder fortemente competitivas. Estruturou-se nacionalmente.
O que essa extrema direita brasileira destrutivista e internacionalizada quer é o controle do poder de Estado e de governo para acelerar e estabelecer uma integração econômica bilateral dependente e subordinada ao neoimperialismo americano, com Trump na liderança mundial do extremismo antidemocrático. Eis como funciona a mente de Romeu Zema: do capiau matuto e sem rumo, semileal à democracia eleitoral, ao capiau extremista, abdicante de um genuíno compromisso com a democracia, de mente ao mesmo tempo internacionalizada, contudo, atrasada e deslumbrada com a integração subordinada e dependente à internacional da extrema direita. Para ele, a sociedade é um nada; o indivíduo egoísta-possessivo, e o movimento de acumulação, tudo. A sociabilidade é o consumo e a posse. Isso encontra respaldo na neopentecostal Teologia da Prosperidade. Nesse quadro geral, a geral implantação da Escola Cívico-Militar é estratégia de cerco à sociedade civil e de ruptura cultural e de valores da atual e das próximas gerações de jovens de 15 a 17 anos de idade com a memória e as práticas de liberdade na democracia.
Romeu Zema tem paixões que a razão e o bom senso desconhecem. A liberdade, segundo Zema, é a liberdade para agir a partir de seus impulsos, pulsões, paixões, sendo ele incapaz de sobre elas exercer controle ou contenção, muito menos para mudá-las e educá-las. Ele é um ser completamente entregue a impulsos propulsados por sua ignorância anticultural e antiintelectual, sua aversão à cultura. Em seu psiquismo coabitam a ausência de compaixão e de empatia, a ausência de misericórdia (“guinchar” os pobres das ruas), ausências banhadas por ódios povoados por seus muitos preconceitos. Porque assim ele age, ele é, de modo autoevidente, um ser completamente despojado de limites para agir segundo suas paixões destrutivas. Essa é a “sua” liberdade! Mas ele não é absolutamente livre para agir contra elas, para conter suas paixões destrutivas. Assim, delas se faz servo compulsivo. Portanto, ele desconhece completamente a autodeterminação ética: ele não sabe fazer e recusa-se a fazer a pergunta ética fundamental: se eu posso e eu quero fazer tal coisa ou agir de tal forma, deverei fazê-lo, considerando o Outro e diferente de mim? Portanto, Zema desconhece a responsabilidade moral. Por isso ele agora defende e se faz porta-bandeira da Escola Cívico-Militar como instrumento ideológico de cerco e combate à ideia e à vida em democracia. Mais que mero oportunismo eleitoral, nele irrompeu e encontrou morada uma mentalidade antidemocrática.