A engrenagem que não gira

Linha de montagem fabril
Mentalidade de curto prazo, voltada ao lucro imediato e à dependência de incentivos fiscais, prevaleceu sobre a cultura de risco e inovação. Foto: Agência Brasil/EBC

Em qualquer país que decide disputar espaço no tabuleiro tecnológico global, existe uma premissa básica: a inovação nasce da soma de três forças atuando em conjunto — o Estado, o setor produtivo e o sistema acadêmico. Essa tríade, chamada em muitos estudos de tripé da inovação, é a base sobre a qual se constroem ecossistemas tecnológicos de ponta.

Cada parte tem um papel bem definido: cabe ao Estado formular políticas públicas e direcionar recursos; à iniciativa privada, transformar conhecimento em produtos e serviços competitivos; e à academia, produzir ciência, formar talentos e transferir tecnologia. Quando essas três engrenagens giram sincronizadas, a máquina da inovação se move com velocidade.

No Brasil, porém, essa máquina gira com folga, emperra e, muitas vezes, sequer sai do lugar. As peças existem, mas cada uma opera por conta própria. O resultado é um sistema que não é sistema — um conjunto de esforços isolados que, somados, não produzem um impacto proporcional ao potencial do país.

O Estado: o indutor que se ausentou

Nenhum país se torna potência tecnológica sem planejamento estatal de longo prazo. A história da inovação — dos EUA ao Japão, da Coreia do Sul à China — é a história de Estados que definiram metas estratégicas e mobilizaram recursos para alcançá-las.

No Brasil, essa função essencial do Estado foi progressivamente esvaziada. Faltam políticas industriais consistentes, metas de longo prazo e continuidade administrativa. O que existe, muitas vezes, são iniciativas pontuais, descontínuas e reativas, que mudam ao sabor do governo de turno.

O caso dos incentivos fiscais ao setor eletroeletrônico é emblemático. Criados há cerca de quatro décadas com a função nobre de atrair investimentos e formar um polo tecnológico, esses mecanismos tornaram-se permanentes — e, em muitos casos, sem contrapartidas claras. O Estado abriu mão de arrecadação por décadas, mas raramente exigiu em troca compromissos concretos em pesquisa, desenvolvimento ou inovação.

Além disso, a burocracia excessiva e a complexidade regulatória transformaram o Brasil em um terreno pouco fértil para experimentação tecnológica. Iniciativas públicas de fomento existem, mas são insuficientes diante da velocidade com que a inovação ocorre no mundo. O Estado, que deveria liderar a articulação do sistema, se limitou a empurrar a engrenagem de vez em quando, em vez de fazê-la girar continuamente.

A iniciativa privada: acomodada e avessa ao risco

Se o Estado falhou em ser indutor, grande parte do setor produtivo falhou em ser protagonista. Ainda é raro ver empresas brasileiras, inclusive no polo tecnológico do Sul de Minas Gerais, investindo percentuais significativos de seu faturamento em P&D. A mentalidade de curto prazo, voltada ao lucro imediato e à dependência de incentivos fiscais, prevaleceu sobre a cultura de risco e inovação.

Durante anos, muitos empreendimentos preferiram se manter como montadores, integradores ou prestadores de serviços de tecnologia estrangeira. É um caminho confortável: margens seguras, baixo risco e pouca necessidade de investimentos pesados. Mas essa lógica gera um efeito colateral grave: mantém o Brasil preso ao papel de coadjuvante nas cadeias produtivas globais.

É verdade que existem exceções importantes. Algumas empresas da região já avançam em direção à criação de produtos próprios, ao desenvolvimento de propriedade intelectual e à internacionalização de suas operações. Mas são casos isolados. A regra geral ainda é a da dependência: importar tecnologia, adaptar ao mercado interno e vender, um modelo que não constrói liderança nem soberania.

As universidades: excelência que precisa encontrar o mercado

Se há um campo em que Minas Gerais pode se orgulhar, é o da formação de capital humano. O Estado abriga instituições de excelência, como o Instituto Nacional de Telecomunicações (INATEL), referência mundial em engenharia e inovação, e a tradicional Escola Técnica de Eletrônica “Francisco Moreira da Costa” (ETE FMC), que há décadas forma profissionais de nível médio altamente qualificados e disputados por grandes empresas de tecnologia no Brasil e no exterior.

Essas instituições são motivo de orgulho e mostram que o problema não está na qualidade da formação, mas sim na falta de um ambiente que converta esse conhecimento em inovação aplicada. Pesquisadores produzem ciência de ponta, professores formam engenheiros brilhantes, técnicos são exportados para multinacionais — e ainda assim grande parte dessa capacidade intelectual não se transforma em produtos, patentes ou startups nacionais.

Faltam incentivos à transferência de tecnologia, políticas que aproximem universidades de empresas e mecanismos que facilitem a criação de spin-offs e parcerias estruturadas. O talento existe — e em abundância —, mas atuam em “ilhas de excelência” desconectadas de um ecossistema inovador mais amplo.

A soma que não vira sistema

O grande problema do Brasil, e particularmente de Minas Gerais, não está em cada peça isolada da engrenagem. Estado, empresas e universidades fazem coisas importantes, mas fazem-nas de forma desconexa, descoordenada e, muitas vezes, até concorrente.

O Estado concede benefícios, mas não estabelece metas e indicadores para medir resultados. As empresas contratam profissionais formados com recursos públicos, mas não criam estruturas de inovação que aproveitem esse conhecimento. As universidades produzem pesquisa de excelência, mas não encontram caminhos institucionais para levá-la ao mercado.

O resultado é um sistema que não é maior que a soma de suas partes — ao contrário, é menor. As forças não se somam: elas se anulam em parte. O talento se dispersa, o conhecimento se perde e o país continua comprando tecnologia estrangeira quando poderia estar exportando a sua própria.

O tempo da omissão acabou. Cada ator tem sua parcela de responsabilidade nessa engrenagem travada — e todos precisam mudar de postura. O Estado precisa abandonar a lógica da improvisação e construir políticas industriais de longo prazo. As empresas precisam deixar de lado a zona de conforto e investir pesado em inovação, mesmo que isso signifique correr riscos. As universidades precisam atravessar seus próprios muros e se aproximar do setor produtivo.

Mais do que isso, é preciso criar mecanismos permanentes de articulação e cooperação — consórcios tecnológicos, centros integrados de P&D, programas de inovação aberta e políticas públicas que premiem quem inova de verdade. Sem isso, o Brasil continuará girando em falso, com cada peça funcionando isoladamente e a engrenagem como um todo parada.

Não há mais espaço para a omissão ou para a autossatisfação com resultados parciais. Em um mundo em que tecnologia é sinônimo de poder, quem não inova se submete — e quem não coordena, não lidera.

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