Do montar ao criar: reflexões e caminhos para o futuro tecnológico de Minas Gerais — O vale que parou no meio do caminho

Cidadão utiliza computador
Precisamos de um setor privado que assuma riscos e invista em pesquisa. Precisamos de universidades que dialoguem com a indústria e levem conhecimento para o mercado. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Este é o primeiro de quatro artigos escritos que analisam a trajetória e os desafios do polo tecnológico mineiro — da montagem à criação, da dependência à soberania tecnológica. Neste texto, mostro como o estado ficou preso na etapa da montagem enquanto o mundo avançava para a inovação e a soberania tecnológica

Há cerca de três a quatro décadas, Minas Gerais decidiu apostar em um projeto ousado: transformar o Sul do Estado em um polo nacional de tecnologia e eletrônica. Em torno de cidades como Santa Rita do Sapucaí, Itajubá e Pouso Alegre, formou-se o que passou a ser chamado de Vale da Eletrônica — um ecossistema industrial que reunia universidades, mão de obra qualificada e empresas nacionais e estrangeiras atraídas por políticas de incentivo e condições competitivas.

O Estado cumpriu seu papel inicial. Criou mecanismos tributários diferenciados, reduziu a carga de ICMS e ofereceu regimes especiais de tributação que, em muitos casos, zeraram a alíquota efetiva para determinados produtos. A lógica era clara: atrair investimento, gerar empregos, formar quadros técnicos e colocar Minas no mapa da indústria tecnológica.

Eu acompanhei esse processo de perto — e não apenas como espectador. No início dos anos 2000, tive a oportunidade de participar diretamente das análises e outorgas dos Regimes Especiais que sustentaram a base desse projeto. Acreditávamos, com convicção, que essa política seria um trampolim para algo maior: que começaríamos importando e montando, mas logo passaríamos a criar, desenvolver e liderar tecnologia.

O modelo que impulsionou… e depois estagnou

O modelo funcionou no que se propunha naquele momento histórico. Atraímos empresas, ampliamos a base produtiva e formamos um ecossistema industrial que gerou empregos e inovação incremental. A lógica de importar, montar e aprender fazia sentido nos anos 1990 e início dos 2000, assim como fizera sentido décadas antes para países como China e Coreia do Sul.

Mas algo mudou — ou melhor, não mudou como deveria. Enquanto outras nações trataram essa fase como um degrau temporário e, rapidamente, subiram os próximos passos da escada tecnológica, aqui o avanço foi mais lento e desigual. Embora algumas empresas tenham evoluído e hoje desenvolvam tecnologia própria, grande parte, ainda permanece no mesmo estágio: importando tecnologia pronta, integrando componentes e realizando montagem final.

Pouco se avançou, de forma estrutural, no desenvolvimento de propriedade intelectual, na criação de marcas próprias ou na produção de tecnologia de ponta. E, talvez o mais grave: mesmo após décadas de incentivos fiscais e renúncias tributárias, grande parte do setor continua dependente do mesmo modelo que o originou.

O mundo que acelerou — e o Brasil que ficou

Para entender a dimensão do que isso significa, basta olhar para a China. No final dos anos 1970, Xangai era uma cidade de ruas de terra, bicicletas e carroças. Suas fábricas produziam bens simples e de baixa qualidade, com mão de obra barata e pouco qualificada. Quarenta anos depois, a China é líder mundial em inteligência artificial, carros elétricos, semicondutores e tecnologias verdes. E Xangai, símbolo dessa transformação, é hoje uma metrópole pulsante, com arranha-céus futuristas e um ecossistema industrial que compete de igual para igual com os maiores centros do mundo.

A diferença fundamental não está no ponto de partida — está no caminho percorrido. A China usou o modelo de montagem como escola, não como destino. Em vez de se acomodar, transformou conhecimento adquirido em tecnologia própria. Investiu pesado em pesquisa e desenvolvimento, formou milhões de engenheiros, criou políticas industriais de longo prazo e usou o poder do Estado para articular empresas, universidades e centros de pesquisa em torno de objetivos estratégicos.

Enquanto isso, no Brasil — e particularmente em Minas Gerais — seguimos com avanços relevantes em áreas específicas, mas ainda presos, em sua maioria, à lógica do início. Continuamos tratando montagem como indústria e incentivo fiscal como política de Estado. Faltou planejamento de longo prazo, faltou ousadia estratégica e, sobretudo, faltou a decisão coletiva de dar o próximo passo.

Um projeto que perdeu parte de sua ambição original

A política de incentivos fiscais — fundamental nos primeiros anos — transformou-se ao longo do tempo em política permanente e, muitas vezes, sem contrapartida clara. Criada como instrumento de atração e estímulo, ela passou a funcionar, em não poucos casos, como mecanismo de acomodação.

O Estado abriu mão de arrecadação por mais de três a quatro décadas sem exigir, em troca, investimentos robustos em P&D, transferência tecnológica ou metas de nacionalização de conteúdo.

O setor privado, por sua vez, em boa parte se habituou a operar com margens confortáveis e baixo risco. Em vez de investir no salto tecnológico, muitas empresas preferiram seguir no papel de integradoras — lucrando com o benefício tributário e mantendo o foco em mercados domésticos limitados. Ao mesmo tempo, também existem empreendimentos que vêm rompendo essa barreira, apostando em inovação e propriedade intelectual — mas eles ainda são exceção, não regra.

As universidades, apesar de formarem excelente mão de obra, ainda carecem, em muitos casos, de um diálogo mais estruturado com a indústria. Há centros de excelência e experiências exitosas de cooperação, sim, mas o sistema como um todo ainda não transformou seu potencial acadêmico em inovação aplicada em larga escala.

Esse tripé desequilibrado — Estado, empresas e academia — explica boa parte do porquê de termos parado no meio do caminho. Não se trata de apontar culpados individuais, mas de reconhecer que o projeto perdeu parte da ambição com a qual nasceu.

O preço da estagnação

A consequência dessa acomodação sistêmica é visível. O polo mineiro continua relevante, sim, e possui exemplos notáveis de inovação, mas ainda não conquistou protagonismo global. Continuamos atuando majoritariamente como fornecedores intermediários em cadeias produtivas dominadas por outros países. Dependemos de componentes, chips, patentes e tecnologias estrangeiras. E, ao fazer isso, abrimos mão de parte importante da nossa soberania tecnológica — e, com ela, de poder econômico e político.

Enquanto isso, o mundo corre em outra velocidade. A chamada “economia do conhecimento” não se contenta com montagem: exige inovação, propriedade intelectual e capacidade de criação. Quem não cria, compra — e quem compra, obedece.

O tempo de decidir é agora

A boa notícia é que ainda há tempo. Temos universidades de excelência, capital humano qualificado, empresas com experiência industrial e um mercado interno expressivo. O que falta é transformar tudo isso em estratégia articulada de Estado.

Precisamos de políticas públicas que façam do incentivo fiscal um instrumento de transformação — não de acomodação. Precisamos de um setor privado que assuma riscos e invista em pesquisa. Precisamos de universidades que dialoguem com a indústria e levem conhecimento para o mercado.

Acima de tudo, precisamos recuperar a ambição original do projeto. Porque montar é importante, mas criar é indispensável. E um Estado que se contenta em montar tecnologias dos outros jamais será protagonista no mundo que está sendo desenhado agora.

Epílogo: de quem viu por dentro

Falo aqui não apenas como analista, mas como alguém que viveu essa história desde dentro. Vi de perto o entusiasmo que marcou os primeiros anos, participei da construção dos instrumentos que tornaram esse polo possível e acompanhei as transformações que ele promoveu na economia regional.

Por isso mesmo, acredito que chegou a hora de revisitar esse caminho com honestidade e coragem — não para negar as conquistas, mas para reconhecer que elas não são suficientes.

O futuro de Minas — e do Brasil — não está em montar o que outros criam, mas em criar o que o mundo deseja montar.

Newton Flávio Silva de Oliveira é Auditor Fiscal da Receita Estadual de Minas Gerais. Foi diretor do Sindifisco-MG e da Conacate (Confederação Nacional das Carreiras Típicas de Estado), com atuação em pautas institucionais da administração tributária e do fortalecimento das instituições públicas.

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