A Estrada da Essência: entre o que apressa os passos e o que acalma a alma

Porque, no fim das contas, se o destino é o mesmo, sobra apenas a viagem
Foto: Divulgação

Parecia ontem que, deitados no tapete da sala, imaginávamos ser astronautas, poetas ou exploradores — acreditando que o mundo inteiro estava à nossa espera. A criança olha para o teto e desenha universos no ar: seus sonhos são combustível e as estrelas, seu caminho.

Depois vieram as férias e, com elas, as memórias que fundamentam quem somos. Mas há quem se recuse a deixar essa magia apenas no passado. O amigo-irmão Manuel Juvêncio, por exemplo, continua a relatar suas idas e vindas de BH a Carlos Chagas e vice-versa. Ele cruza as estradas sempre a bordo de uma Mercedes-Benz, mas não uma Mercedes qualquer; refiro-me àquela que comporta em torno de 40 passageiros e ainda carrega o dom de parar em cada sinal.

Naquele espaço, ele e os demais ocupantes exercem o sagrado direito de dialogar entre si, justamente pelo raro prazer de conviver com o outro — pois ali não há wi-fi e nem sinal de internet possível de se buscar, ainda bem. A trilha sonora não é o silêncio digital, mas, quando muito, o som de um rádio de “pilha” (que ainda existem, podem acreditar), tocando músicas que entortam a saudade daqueles familiarizados com boas letras.

Andar por esse mundão

Nessas viagens, que demoram uma eternidade gostosa, a gente lê o céu, saboreia o café das paradas e colhe histórias dos olhares curiosos dos outros passageiros.

Mas, para a maioria, o tempo não dá tréguas: acordamos adultos, com boletos sobre a mesa e um relógio de ponto no peito. De repente, somos visitados por uma senhora severa chamada Realidade. Ela nos ensina que voar não é simples, que o chão é duro. Descobrimos que a infância ficou lá atrás, guardada nas caixas de papelão das nossas lembranças.

Fico a perguntar: qual é mesmo o caminho? Percebemos, não sem espanto, que todos vamos dar no mesmo ponto final, não importa se viajamos em primeira classe ou a pé. Mesmo assim, temos a estranha mania de asfaltar a estrada da vida, de pisar fundo no acelerador e fazer ultrapassagens.

O próximo está próximo

Para quê tanta pressa? Para chegar mais cedo aonde? Talvez à própria velhice, que ironicamente nos espera pacientemente. Quando lá chegamos, o que nos resta? O passado e histórias que revisitamos na cadeira de balanço, olhando para a poeira que levantamos pelo caminho.

Hoje a viagem é outra. A tecnologia encurtou distâncias e tornou os transportes velozes demais, mas algo precioso se perdeu no caminho. Substituímos as conversas nas paradas — aquelas que o Manuelzinho ainda preserva — pelo olhar fixo no celular. Conectamo-nos com quem está longe e desconectamo-nos de quem está ao lado. A pressa de chegar fez com que esquecêssemos até de perguntar o nome do vizinho de poltrona.

Ainda assim, a beleza da viagem pode sobreviver — ela apenas mudou de lugar. Hoje, talvez seja preciso usar a imaginação para encontrar poesia nos pequenos detalhes: no cheiro do mato depois da chuva, no sorriso de alguém que cruza nosso caminho, na paisagem que muda a cada curva. É preciso deixar o olhar vagar, enxergar o essencial que os olhos apressados não alcançam.

Pare, respire, sinta

Precisamos estar bem com nós mesmos antes de valorizar quem viaja ao nosso lado, porque toda companhia só faz sentido quando a gente caminha junto pela mesma estrada. O Tempo, esse mestre silencioso, conhece o fim do filme antes mesmo de abrirmos os olhos toda manhã. Ele observa nossos passos apressados com a calma de quem já sabe onde tudo acaba, e nos ensina sem dizer palavra que a estrada não existe só para ser vencida.

Cada obstáculo, cada imprevisto, traz um aprendizado, se tivermos ouvidos para ouvir. Talvez o segredo seja deixar alguns trechos sem asfalto, curvas inesperadas, buracos pelo caminho. Não tenha pressa em pavimentar tudo.

Porque, no fim das contas, se o destino é o mesmo, sobra apenas a viagem. E ela pode ser muito mais bonita quando a gente permite que a alma caminhe devagar, sentindo cada vento, cada poeira, cada instante. Afinal, a pressa e a ilusão são apenas combustível de má qualidade, inclusive para manter as rodas girando; mas só na desaceleração sentimos o mundo de verdade.

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