Ao longo da formação social brasileira, as igrejas desempenharam, e continuam a desempenhar, um papel estruturante no processo de desenvolvimento humano, educacional e civilizacional do País. Ignorar essa realidade é falsear a história. Reconhecê-la, ao contrário, é um dever intelectual e moral de qualquer análise honesta sobre a construção da nossa sociedade.
As igrejas constituem grupos sociais organizados, dotados de identidade institucional, capilaridade territorial e vocação comunitária. Antes mesmo da consolidação do Estado brasileiro como provedor de políticas públicas universais, comunidades religiosas já estruturavam redes de apoio, educação e saúde, especialmente nas regiões mais vulneráveis. Essa presença não foi episódica, tampouco residual. Foi, e é, sistêmica.
No campo da educação, a contribuição das organizações religiosas é inquestionável. Instituições como os colégios e faculdades batistas, os colégios e centros universitários adventistas, o tradicional Mackenzie, que nasceu como escola presbiteriana e se consolidou como uma das mais respeitadas instituições de ensino do Brasil, e, claro, a Pontifícia Universidade Católica (PUC), entre inúmeras outras, são exemplos concretos de excelência acadêmica aliada à formação ética. Essas instituições não apenas oferecem ensino de qualidade, mas também promovem valores como responsabilidade social, compromisso com o conhecimento e formação integral do indivíduo.
É preciso lembrar que, em muitos municípios brasileiros, especialmente no interior, escolas confessionais foram as primeiras, e durante muito tempo as únicas, oportunidades de acesso à educação formal. Formaram gerações de profissionais, lideranças políticas, juristas, médicos, engenheiros, professores. Formaram cidadãos.
No campo da saúde e da assistência social, o protagonismo é igualmente evidente. Hospitais filantrópicos fundados e administrados por organizações religiosas atendem milhões de brasileiros pelo Sistema Único de Saúde. Casas de acolhimento, asilos, orfanatos, cemitérios, centros de recuperação de dependentes químicos e projetos de assistência às famílias em situação de vulnerabilidade são mantidos, em grande parte, por igrejas que mobilizam voluntariado, doações e gestão responsável. Em um país marcado por desigualdades históricas, essas instituições funcionam como verdadeiros amortecedores sociais.
Há, ainda, um papel civilizacional que não pode ser negligenciado. Igrejas difundem, cotidianamente, uma cultura de paz, solidariedade, respeito e cooperação. Pregam suas doutrinas, como é legítimo em um Estado Democrático de Direito, mas não fomentam intolerância ou disputas entre religiões. Ao contrário: estimulam a convivência pacífica, a reconciliação, o perdão e a construção de pontes. A fé, quando vivida em sua essência, é força de coesão social, não de fragmentação.
É curioso, portanto, que setores da sociedade insistam em rotular religiosos como incautos ou fundamentalistas. Essa crítica, recorrente e muitas vezes carregada de preconceito, ignora deliberadamente a contribuição histórica e permanente das igrejas para o desenvolvimento coletivo. Mais curioso ainda é observar que tais acusações, não raras vezes, partem de grupos que jamais estruturaram uma escola, administraram um hospital filantrópico ou mantiveram um projeto social contínuo em comunidades vulneráveis.
A crítica é legítima em uma democracia. O preconceito, não. O debate é saudável. A hostilidade, jamais.
A civilidade democrática exige tolerância, respeito e convivência pacífica. Esses são fundamentos essenciais para a manutenção da ordem social e da cultura de paz. Quando atos de hostilidade ocorrem, como os registrados na porta de uma igreja em Belo Horizonte, durante o cortejo de um bloco de Carnaval, não estamos diante de manifestação cultural legítima, mas de comportamento incompatível com o ambiente democrático. A liberdade de expressão e de celebração não autoriza o desrespeito à fé alheia.
O Brasil é plural. É diverso. É laico . E laicidade não significa hostilidade à religião, mas garantia de liberdade para todas as crenças e também para a ausência delas. Defender as igrejas não é impor fé; é reconhecer fatos. É afirmar que o tecido social brasileiro foi e continua sendo entrelaçado por organizações religiosas que educam, curam, acolhem e promovem valores essenciais à convivência humana.
Se desejamos uma sociedade mais justa, mais pacífica e mais desenvolvida, devemos fortalecer aquilo que constrói e não demonizar aquilo que historicamente tem servido ao bem comum. Respeito não é concessão. É princípio. E a civilidade não é opcional: é condição para que a democracia sobreviva.