A esfera pública é, em sua essência, o espaço simbólico e concreto em que a pluralidade se encontra. É nela que vozes divergentes se manifestam, que as diferenças se tornam visíveis e que a convivência democrática se põe à prova. No Brasil, esse espaço tem sido atravessado por uma tensão cada vez mais intensa: a polarização política e social que, em vez de nutrir um debate saudável, tem se convertido em trincheiras de inimizade. A disputa de narrativas, quando se fecha em si mesma, corre o risco de corroer a própria condição de diálogo que sustenta o comum.
A filosofia política afirma que o dissenso é parte constitutiva da vida democrática. Hannah Arendt reflete que a política nasce do fato de que somos plurais, diferentes, e que essa diferença precisa ser acolhida. Contudo, existe uma distinção fundamental entre dissenso criativo — aquele que amplia horizontes — e o dissenso destrutivo, que se converte em negação do outro e, consequentemente, em negação da própria política. É nesse ponto que o Brasil contemporâneo se vê ameaçado: quando a polarização não abre caminhos de reflexão, mas sim ergue muros de hostilidade.
A esfera pública, para cumprir seu papel, precisa sustentar consensos mínimos, sem os quais não há sequer possibilidade de divergência legítima. O primeiro desses consensos é a própria defesa da democracia. Não se trata de um acordo total sobre políticas ou ideologias, mas de um pacto ético que reconhece a dignidade do outro como interlocutor. Sem esse acordo, o dissenso se torna guerra, levando ao colapso da esfera pública.
Um convite à pluralidade
O desafio brasileiro é, portanto, reconstituir esse espaço comum. Isso não significa apagar as diferenças ou negar a conflitualidade inerente à vida social. Pelo contrário, significa reconhecer que a pluralidade só se sustenta quando existe um chão partilhado — a confiança nas instituições, o respeito ao voto, a valorização das liberdades civis e a consciência de que nenhum projeto político pode suprimir o direito de existir do adversário.
A esfera pública é um bem frágil: precisa ser constantemente cultivada. Ela não nasce de decretos, mas da disposição de ouvir, argumentar e reconhecer. O Brasil, em meio a sua turbulência, tem diante de si uma tarefa histórica: recuperar a consciência de que sem consenso em torno da democracia, o dissenso se torna autodestrutivo.
Talvez seja nesse paradoxo que reside a maior sabedoria política: só podemos divergir verdadeiramente se antes concordarmos sobre aquilo que não podemos perder.
