Eutanásia: até quando o Estado irá decidir sobre a beleza da minha vida? 

Talvez a morte seja o assunto mais filosófico que exista. Isso porque é a experiência individual mais radical do coração humano
Eutanásia: o Estado pode decidir minha vida
Eutanásia: deve o Estado decidir minha vida? (Foto: Reprodução/Google Images)

Detesto a ideia de não estar inteiro na aventura da vida. Mesmo sabendo, depois de Freud, da nossa condição de incompletude permanente, impulsionados por uma espécie de motor à vácuo pela mola forte do desejo, que sempre opera na lógica da falta, viver algo pela metade sempre me trouxe os piores sentimentos.

Assim, assumindo a frágil condição humana, cambaleante, duvidosa, justa ou injusta, a possibilidade de uma vida vegetativa me causa calafrios. Medo mesmo. E isso não significa vontade de morrer. Pelo contrário, sou um apaixonado pela vida.

Gosto de sentir as coisas, conversar com os meus camaradinhas no churrasco de domingo, gritar gol quando meu time acerta a bendita casinha, beijar a boca da mulher que amo e perceber sua respiração ofegante, autorizando-me a abraçá-la.

Para mim, tristeza não é a morte, final democrático que unirá ricos e pobres na igualdade do pó, mas a possibilidade de sobreviver após qualquer intempérie do destino, respirando por tubos, perfurado pelas mãos de quem nem conheço, carregado, limpado, com o corpo tocado na sagrada intimidade que construí ao longo da história.

Sei que, provavelmente, seria cuidado com muito carinho. Porém, quem me ama de verdade vai entender que dispenso uma vida em que eu não possa decidir de forma autônoma ou que esteja sujeita à narrativa médica de que é sempre possível “salvar” alguém. Não quero me tornar artigo acadêmico nas mãos de nenhum doutor.

O desejo de viver é tão grande que sou incapaz de chamar de vida um corpo nas mãos de outrem. Respeito quem pensa o contrário e defendendo o direito de que permaneça respirando por aparelhos até quando a ciência permitir. No entanto, da mesma forma, quero ter a garantia de decidir antecipadamente, caso, certo dia, não consiga mais me movimentar, tocar as coisas que me rodeiam, recitar os poemas que gosto, tirar os acordes do violão que me acompanha desde a infância, segurar os livros com minhas próprias mãos, fazer minha própria higiene e caminhar para colher jabuticaba no quintal. Oxalá isso não aconteça, mas quero deixar claro que nunca chamarei isso de “minha vida”.

Se isso acontecer, desejo partir sem dor, sem culpa, sem crime nem castigo, na certeza de que aqueles que me amam entenderão que gosto demais da vida para não vivê-la em liberdade.

Religião

Acredito em um Deus que criou o Jardim do Éden, local de delícias para viver a beleza e o sabor, e não em uma divindade que oferece tubos e seringas para levar o corpo decrépito mais alguns meses, pagando alguma pena nesse vale de lágrimas.

Essa divindade descansou no sétimo dia e chamou o trabalho de castigo. Tenho certeza de que, tomando banho de cuia em alguma pétala de flor por aí, criou a felicidade como forma de comunicação entre Ele e a humanidade. Desejar partir com dignidade não é nenhum pecado.

Além do mais, precisamos tirar essa discussão do campo teológico. E aqueles que não creem? Devem ser tolhidos de suas decisões individuais por supostamente estarem sob a égide de uma divindade alheia aos seus cultos e crenças?

Estado

 Até quando essa entidade abstrata, criada para organizar civilmente as pessoas, que se especializou em enriquecer a elite política, terá sua mão pesada controlando quando e como devemos viver? Qual infração legal existe na possibilidade de autorizar que um indivíduo escolha partir com dignidade?

É preciso destacar que não se trata de negar atendimento aos que desejam prolongar sua existência a qualquer custo. Isso sim seria um crime, reprovado legal e moralmente, pois interfere, diretamente, na escolha do outro. Basicamente, o que acontece é que essa mesma lógica é utilizada para invalidar a escolha do cidadão que, decidindo apenas em relação a si mesmo, escolhe a dignidade de partir sem ser constrangido quando não existem mais recursos vitais.

Se o Estado deve garantir as liberdades individuais, deve-se, sem nenhum problema, proporcionar a todos a decência de Godard que, em seus últimos dias, ligou para seu amigo cineasta e teve o direito de dizer “Roland, um abraço, vou embora.”

Longevidade

Justamente por isso creio que o tema da eutanásia deve vir à tona no cenário brasileiro. Não porque a longevidade seja propriamente um ganho individual. Talvez seja para os senhores brancos que recebem mais de dez salários-mínimos e desejam continuar trabalhando em seus leves serviços até os noventa anos de idade.

Para a maioria da população, que se locomove pelo transporte público, ganha pouco e não pode usufruir de planos de saúde,  a ideia de uma vida longeva só serviu para justificar a imoralidade de uma reforma da previdência que prejudicou as aposentadorias de trabalhadores comuns, aumentando o tempo de contribuição e limitando cada sujeito à suposta idade mínima que o próprio Estado, este tirano implacável que já suga grande parte de nossas vidas com seus impostos criminosos, escolheu para que  cada um receba sua quantia miserável para sobreviver.  

Tenho sérias dúvidas da capacidade biológica de nosso corpo em relação ao projeto de viver tantos anos assim. No entanto, aqueles e aquelas que pensam diferente, reafirmo o direito de seguirem confiantes, sustentados por suas bengalas luminosas. Mas penso que aqueles, assim como eu, que não acreditam nesse projeto científico-estatal, tenham a simples prerrogativa de dizer não.

Escolha

Talvez a morte seja o assunto mais filosófico que exista. Isso porque ela é a experiência individual mais radical do coração humano. Ninguém morre no lugar de alguém, por mais que alguns heróis e heroínas tenham se entregado por várias causas. A experiência da finitude, no entanto, é realmente pessoal e intransferível.

No caso específico da Eutanásia, é importante que cada sujeito tenha a dignidade de deixar expresso para sua família seu desejo pessoal em caso de situações consideradas irreversíveis em relação às doenças ou às limitações corporais. É por isso que ela só pode ser uma escolha do próprio sujeito, não podendo ser relegada a mais ninguém, mesmo sendo alguém que o ame muito, como esposa, filhos ou demais parentes (o que é uma grande injustiça colocá-los diante desse dilema moral), e muito menos a quem o detesta e o atrapalha diariamente, como o Estado e seus agentes burocráticos. 

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