A voz que me nomeia

Aperto de mãos
O promotor que nos autos é solenidade, na esquina da feira vira apenas “o senhor”, e o pastel vem sem reverência. Foto: Pixabay

Ele atravessava a ponte como quem não tem pressa de chegar. Passos calmos, corpo inteiro dentro do instante. De manhã, o rio vinha vestido de neblina, e os carroceiros, ainda com a voz limpa do começo do dia, anunciavam: “Ali vai o João!”. Ao entardecer, eram os mesmos homens, mas a fala já vinha mais áspera de poeira e caminho: “Olha o Jão aí!”. O mesmo aceno, só que mais devagar, como se a mão também sentisse o peso da hora.

João. Jão. A mesma pessoa, dois sons. E, no entanto, parecia haver uma mudança no ar, como se a palavra escolhida puxasse uma luz diferente para cima do rosto dele. Se o homem era um só, por que tudo ao redor se rearranjava quando o chamavam de outro jeito?

A gente costuma dizer que nome é só um endereço, um modo prático de apontar alguém no mundo. Mas a prática nunca é só prática. “João” tem cheiro de manhã, de tarefa, de expectativa. “Jão” carrega o cansaço que já passou, a conversa sem cerimônia, a intimidade de quem se reconhece em silêncio. A dúvida, no fim, não é sobre ele. É sobre nós. Que parte da nossa alma a gente abre quando escolhe uma palavra? Que memória é que a boca convoca antes mesmo de a cabeça perceber?

Talvez seja por isso que a vida vive brincando de espelho. Há quem, por dever de ofício, esteja sempre entre dois chamados, como se vestisse duas peles. No tribunal, é “Vossa Excelência”, figura de distância, quase um retrato pendurado na parede. Em casa, no portão, vira “seu Fulano” para o vizinho que pede um sal, e aí a autoridade baixa a guarda, ou pelo menos simula que baixa. O promotor que nos autos é solenidade, na esquina da feira vira apenas “o senhor”, e o pastel vem sem reverência.

Há nomes que erguem muro. Separam, protegem, isolam. Uma espécie de armadura educada, útil, necessária em certos dias, mas que pode apertar por dentro. E há quem faça o caminho contrário, desabotoando títulos como quem procura ar. O professor que, na reitoria, carrega o “Professor Doutor” e, na periferia, pede o apelido da infância. A enfermeira veterana que recusa “Dona” e insiste em “Beltrana”, sem enfeite, como quem diz: me deixe ser gente antes de ser função.

Esse segundo nome é uma ponte construída à mão. É uma escolha de respirar o mesmo ar, pisar o mesmo chão, diminuir a distância até caber conversa. E aí vem a pergunta miúda que cutuca: quando você pede para ser chamado de um jeito, o que está pedindo junto? Proximidade? Respeito? Proteção? Uma chance de recomeçar? E quando você chama alguém por um apelido, você oferece afeto ou pede licença para entrar? Ou, sem notar, invade?

O homem segue sua travessia. No fundo, ele é Manuel. E, ao mesmo tempo, Manuelzão e Manuelão, conforme o olhar que o alcança e a confiança que o nome carrega. Um só, e muitos, porque também somos feitos dos olhos que nos veem.

A ponte range, o rio corre, e a cena parece simples demais para guardar tanta coisa. Mas guarda. Nomear não é apenas apontar. É convidar. É abrir uma porta num lugar secreto e dizer “entre”. Ou é fechar a porta e ficar do lado de fora, assistindo, como quem prefere a segurança da distância.

A ponte está lá para todos. O modo de atravessar, porém, cada um escolhe sozinho. E talvez seja nisso que mora um cuidado cotidiano, pequeno e decisivo: qual nome você entrega ao outro quando o encontra? E qual nome você aceita carregar sem perceber que ele muda o clima do seu próprio dia?

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