Analfabetismo à brasileira

Acreditamos em uma panaceia de metodologias milagrosas que em nada contribuem para a consolidação do saber
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Geovana Albuquerque/Agência Brasília

Alfabetizar alguém é uma das tarefas mais nobres da humanidade. Faz parte de uma orientação vital diante de um mundo cheio de sentido a ser desvelado. Orientar-se pelas coisas humanas, sem os códigos de linguagem, é uma das maiores humilhações impostas ao sujeito.

Por isso, alfabetização e letramento são direitos indiscutíveis. Negar esse constructo humano a alguém é uma forma de financiar as outras tantas desigualdades que encontramos por aí, sejam elas de gênero, de classe, de etnia, cor ou religião. Ler o mundo faz parte da condição humana e, nesse sentido, crescemos como pessoas na mesma medida em que aumentamos nosso repertório linguístico.

O Brasil, nos últimos anos, tem se encharcado de “novas propostas metodológicas”, mas nenhuma delas contempla, de fato, a importância de uma alfabetização e de um letramento duradouros, sabendo que esse é um processo de aprendizagem de uma vida inteira, não ficando restrito aos anos iniciais da escolarização básica.

Segundo dados da Agência Brasil, nosso país teve um recuo de 0,5% na taxa de analfabetismo. Em 2022, chegamos a 5,6% da população sem acesso a esse direito. Parece pouco, tendo em vista a frieza dos números. Porém, estamos falando de 10 milhões de pessoas com mais de 15 anos de idade que não sabem ler nem escrever.

Segundo dados do IBGE, nosso país possui 46% da população sem escolaridade básica completa. No levantamento, divulgado no início deste ano, o Instituto pergunta ao morador se ele consegue escrever um simples bilhete. Se a resposta for “não”, ele passa a ser considerado analfabeto. Nem vou comparar com países de primeiro mundo ou outras economias. No Uruguai, nosso vizinho, a taxa de analfabetismo gira em torno de 2%.

Enquanto a esquerda identitária tenta emplacar o delírio da “linguagem neutra”, entre todos, todas, todEs, Todys e Nesquicks,  como cópia do modelo fracasso dos EUA, parte da população (que eles juram defender!) ainda não dominou nem a linguagem “parcial”, se formos analisar pela semântica.

Na mesma medida, enquanto os grandes oligopólios financeiros, que viram na educação uma forma rápida e eficiente de aumentar a lucratividade, tentam emplacar “metodologias digitais”, “Aprendizagem Maker” e outras pirotecnias pedagógicas, parte de nossa população não tem acesso a livros e, consequentemente, ao letramento literário, humano, científico, etc.

Por essa e outras, vamos vivendo um analfabetismo à brasileira, na medida em que nos distanciamos do conhecimento formal, escolar. Talvez, isso seja mesmo uma Política de Estado. Acreditamos em uma panaceia de metodologias milagrosas que em nada contribuem para a consolidação do saber historicamente construído, elemento indispensável à condição humana.

Aqui, deixo duas dicas:

ESTUDANTES: valorizem o conhecimento da escola e de seus mestres. Essa história de que o professor é apenas um mediador, facilitador, empreendedor, mensageiro de projetos imersivos em letras ocultas e ciências apagadas, é pura balela! Lá na frente, quando você estiver sentado na cadeira de Médico, Engenheiro, Advogado, Dentista, Fisioterapeuta, Psicólogo ou qualquer outra profissão, o que vai valer mesmo é seu repertório acadêmico, intelectual. Seu letramento é que fará o cliente pagar caro por um momento com você, pois verá, em sua ação profissional, a garantia de que alguém “competente” irá resolver os problemas que a maioria não consegue. Sai dessa ilusão de que a I.A. irá solucionar a burrice no mundo. De nada adianta uma inteligência artificial diante de uma ignorância orgânica. Os joguinhos online não vou lhe salvar, caso você não saiba diferenciar “confrontar” de “defrontar”, ou se não percebe o antônimo que existe entre um texto que “vai ao encontro de algo” daquele que afirma que “vai de encontro a alguma coisa”.

PAIS: Entenda a metodologia aplicada na escola de seus filhos. Se a digitalização dos processos de aprendizagem ocupa a maior parte da vida acadêmica deles, estão levando seu dinheiro e, consequentemente, lhe enganando. Provavelmente, eles já dominam as principais ferramentas digitais e não precisam da escola para aprender isso. Além do mais, a maioria dos estudantes se interessa mesmo é pelo “uso recreativo” de aplicativos e congêneres. Acompanhe os livros indicados, a qualidade do material (físico) e a forma como as avaliações são trabalhadas dentro do espaço escolar. Aprender exige esforço e suor, se o seu filho(a) está achando fácil demais, como se estivesse em um jogo online com os amigos, tem algo de errado aí.

PROFESSOR(A): não renuncie à formação acadêmica e do gosto pela sua área de conhecimento, pois isso foi o que fez você assumir essa escolha profissional. Uma educação centrada no estudante começa com educadores apaixonados por seus conteúdos, na crença de que os 50 minutos de uma aula podem transformar uma vida. As tecnologias de aprendizagem são apenas ferramentas pedagógicas, não a finalidade da educação. Além disso, fique atento aos modismos e as ideias “revolucionárias” que pretendem transformar o mundo. Lembre-se sempre: todo regime totalitário começou por mudanças educacionais que pretendiam resgatar “a pureza do ser humano”. Ensinar é diferente de militar. 

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