Brincando de Tinder, Pacheco pode acabar sem “match”

Dá para conversar com vários partidos, ouvir propostas etc. Mas chega uma hora em que é preciso dizer “sim”
O senador Rodrigo Pacheco é o candidato preferido de Lula ao governo de Minas em 2026. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Há muito, o jogo de gato e rato do senador Rodrigo Pacheco com Lula, envolvendo a disputa pelo governo de Minas, se tornou chato, desrespeitoso e contraproducente. O “nem dá nem desce” do advogado ligado a mineradoras – fato que o deslegitima como candidato da esquerda – tem incomodado partidos, aliados, postulantes e o próprio maior interessado em sua candidatura: o presidente da República.

Pacheco ainda não decidiu se será candidato ao governo de Minas. Isso é fato. E cálculo. Nas últimas semanas, o ex-presidente do Senado intensificou conversas com o PSB, partido da base de Lula, que quer um nome competitivo no estado. Antes disso, flertou com o MDB, que tem (ainda) Gabriel Azevedo, ex-presidente da CMBH, como pré-candidato, e também com o todo-enrolado União Brasil.

Paralelamente, Romeu Zema, ao tirar o time do campo estadual e se lançar ao plano nacional, deixou um sucessor em seu lugar: Mateus Simões. O ex-vice é o candidato natural do grupo governista, com estrutura, máquina nas mãos e narrativa de continuidade. Simões pode até não estar empolgando ainda, mas existe politicamente. E isso, numa eleição majoritária, já é meio caminho.

Muito a perder

Do outro lado, a esquerda não tem nome consolidado. Não tem nem sequer um plano B. No desespero, Alexandre Kalil, desastrado ex-prefeito de Belo Horizonte, poderá ser opção. Só que Lula precisa de um palanque decente, de alguém com recall, trânsito institucional e capacidade de dialogar com setores diferentes. Rodrigo Pacheco se encaixa perfeitamente nesse perfil – e por isso a insistência.

A dúvida do senador me parece justa, ainda que, repito, enfadonha e contraproducente. Pacheco tem muito mais a perder do que a ganhar. Sabe que, à esquerda – pelo motivo já explicado acima – e à direita – por ter se mantido reto, racional e honesto em meio ao golpismo destrambelhado dos bolsonaristas aloprados -, irá apanhar feito cão sarnento dos extremistas de plantão.

Sabe, também, que esqueletos, fantasiosos ou não, sairão do armário e que, em tempos de manchetes sensacionalistas e falta de leitura e compreensão, será atacado das formas mais baixas. Entrar na disputa, portanto, significa abandonar uma Brasília “quentinha” para assumir risco real de derrota, num momento em que o governo Lula enfrenta desgaste de popularidade, inclusive entre eleitores independentes.

Trem passando

Pacheco, que não é trouxa, sabe bem do que se trata. Talvez por isso hesite. Só que hesitação cobra preço. Na política, o espaço não fica vazio. É ocupado. Enquanto ele conversa, outros se posicionam. Enquanto avalia o cenário, o cenário se rearranja. Chegará um momento em que a decisão imaginada e pensada estratégica passará a ser tardia. Além disso, há também um problema claro de identidade.

O senador construiu sua trajetória como uma figura política de equilíbrio, institucional, moderada. Foi assim na Casa Alta, especialmente durante os anos de maior tensão entre Executivo, Congresso e Supremo Tribunal Federal (STF), como agente moderador. E merece todos os méritos e reconhecimento por isso. Mas eleição majoritária exige direção clara, lado definido.

Certo. Dá para conversar com vários partidos, ouvir propostas, testar viabilidade. Faz parte do jogo democrático. Mas chega uma hora em que alguém precisa dizer “sim” e assumir as consequências. Rodrigo Pacheco ainda está na fase do “vamos ver”, e Minas já entrou na fase do “vamos disputar”. Se demorar mais um pouco, o “match” até pode vir, mas o “date” já estará encaminhado com outro parceiro.

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