Caminhos para reposicionar Minas Gerais no mapa tecnológico do futuro

Foto mostra elementos tecnológicos
Aportes em inovação precisam ser entendidos como investimento. Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Nos três capítulos anteriores, revisitamos a trajetória do polo tecnológico mineiro — um projeto que nasceu de forma ousada e visionária, ancorado em políticas fiscais de estímulo e no talento de uma região que aprendeu a montar, adaptar e produzir tecnologia. Vimos, porém, que grande parte do setor ficou presa nesse estágio intermediário, que o Estado perdeu o papel articulador, e que a política de incentivos, embora essencial em seu início, transformou-se em instrumento de dependência.

Agora, é hora de olhar para frente. Minas Gerais precisa de um projeto de futuro — um plano de reconstrução industrial e tecnológica que combine visão estratégica, articulação institucional e coragem política. O objetivo não é recomeçar, mas avançar um degrau: sair do papel de integrador e assumir o de criador.

Inovação e P&D como política de Estado

Nenhuma transformação sustentável ocorre sem continuidade. A primeira premissa para o novo ciclo é reconhecer que inovação não é gasto — é investimento, e que pesquisa e desenvolvimento precisam estar no centro das políticas públicas.

Isso significa transformar o atual conjunto de programas dispersos em uma política estadual de inovação permanente, com objetivos claros, metas mensuráveis e financiamento garantido. O Estado deve agir como estrategista, e não apenas como fomentador pontual. Deve priorizar áreas de fronteira — semicondutores, energia limpa, inteligência artificial, nanotecnologia — e criar fundos vinculados de P&D, blindados de descontinuidade política.

É assim que atuam as nações líderes: planejam em décadas, não em mandatos. Minas precisa recuperar essa noção de continuidade e propósito.

Incentivo com contrapartida e metas claras

O incentivo fiscal continuará sendo necessário, mas com outra lógica. Ele não pode ser mais um benefício automático: deve ser condicionado a resultados concretos, mensurados e auditáveis. Cada real renunciado em tributo precisa gerar retorno em inovação, tecnologia, exportação e emprego qualificado.

A política de incentivo deve adotar o princípio do “contrato de performance”:

  • metas de P&D e nacionalização de conteúdo;
  • prazos de revisão periódica;
  • transparência sobre custos e resultados;
  • e prioridade para empresas que criem valor tecnológico no território mineiro.

Em vez de premiar permanências, o Estado deve recompensar avanços. O incentivo precisa voltar a ser trampolim, e não muleta.

Formação e retenção de talentos

Minas já tem um dos maiores patrimônios do país: capital humano de excelência. Instituições como o Inatel e a Escola Técnica de Eletrônica “Francisco Moreira da Costa” (ETE FMC) são exemplos de como o conhecimento mineiro ultrapassa fronteiras, formando engenheiros e técnicos disputados por empresas de todo o mundo.

O desafio agora é reter e multiplicar esse talento. É preciso integrar as universidades e escolas técnicas a um ecossistema de inovação contínuo, criando programas de residência tecnológica, bolsas-empresa e iniciativas de empreendedorismo estudantil.

O jovem formado em Minas precisa enxergar aqui o seu futuro — e não apenas fora do país. Um polo tecnológico só se consolida quando transforma seus cérebros em criadores de riqueza local.

Integração e redes de cooperação

A engrenagem que analisamos no Capítulo 2 só começará a girar de fato quando o tripé da inovação se reencontrar. O Estado precisa coordenar e estimular redes permanentes de cooperação entre empresas, universidades e órgãos públicos.

Podemos começar criando Centros Integrados de Pesquisa e Desenvolvimento, inspirados nos modelos de inovação aberta europeus e asiáticos, onde o conhecimento circula e as parcerias se tornam estruturais. Esses centros podem funcionar como “pontes” entre laboratórios acadêmicos e linhas de produção industrial — reduzindo o abismo que ainda separa ciência e mercado.

Mais que uma estrutura física, trata-se de um novo modelo mental: o de entender que inovação é tarefa coletiva, e que a concorrência global exige cooperação local.

Internacionalização e soberania tecnológica

Minas precisa se projetar novamente para o mundo. Depois de décadas atuando como montadora de tecnologia estrangeira, é hora de buscar protagonismo internacional — com marcas próprias, patentes registradas e presença nos grandes mercados.

Isso passa por fortalecer cadeias produtivas locais, incentivar exportações de alto valor agregado e apoiar startups e empresas mineiras que já nascem globais. A internacionalização, contudo, não é apenas econômica: é também um ato de soberania. Um Estado que domina suas tecnologias essenciais é um Estado que decide o seu próprio destino.

A China, a Coreia e a Alemanha não se tornaram líderes por sorte: tornaram-se porque decidiram ser. Minas também pode — e deve — decidir.

O dever de criar

O ciclo que começou com a montagem precisa terminar com a criação. É isso que dará sentido à trajetória de todo um projeto coletivo, iniciado há mais de quatro décadas e que agora pede reinvenção.

O futuro de Minas não está em copiar nem em repetir, mas em ousar fazer diferente. Temos base industrial, capital humano, instituições competentes e história. O que falta é vontade política e articulação sistêmica — ingredientes que só aparecem quando há propósito.

Essa transição exige uma nova mentalidade: a de que incentivo não é privilégio, é responsabilidade; a de que empresa não é beneficiária, é parceira do Estado; e a de que universidade não é torre de marfim, mas motor de desenvolvimento.

O caminho de volta à inovação passa pela coragem de admitir erros, corrigir rotas e construir consensos. Minas pode — e precisa — liderar esse novo tempo.

Epílogo – um ciclo que se encerra, outro que começa

Encerrar esta série é, para mim, também encerrar um ciclo pessoal e profissional. Participei, no início dos anos 2000, das primeiras análises e outorgas dos Regimes Especiais que ajudaram a consolidar o polo eletroeletrônico mineiro.

Hoje, às vésperas de concluir meu ciclo profissional e de iniciar minha aposentadoria, revisitar essa trajetória é mais que reflexão — é compromisso.

Continuar servindo ao Estado, mesmo fora da função pública, é continuar defendendo o que acredito: que Minas só será grande quando ousar criar o seu próprio futuro.

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