Canastra & Furnas: uma só paisagem, um só destino

Água, montanha e mesa — identidade, desenvolvimento e cuidado com a paisagem cultural de Minas
Foto: Agência Minas

Recentemente, fiz um roteiro gastronômico em Botafogo, no Rio de Janeiro. Em todos os restaurantes — do tailandês elegante à pizzaria de bairro — havia queijo Canastra ou queijos de Minas, hoje reconhecidos como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Em São Paulo, a rede Formaggio Mineiro, com mais de 300 padarias e pontos de entrega, exibe nas vitrines pães, quitandas e a memória afetiva do nosso forno. Em Salvador, prateleiras de produtos da mineiridade já fazem parte do cotidiano urbano. E, pelo mundo, é possível comprar queijo Minas online em Londres; o pão de queijo já entrou em cardápios de hotéis internacionais. Nem sempre com a qualidade da terra, é verdade — mas é um sinal inequívoco da presença de Minas no turismo global.

Essa virada não é acaso: resulta de produtos unificados e marketing integrado. O queijo foi o indutor simbólico e econômico que alinhou montanha, água, fazendas e mesa, ensinando o país — e agora o mundo — a pronunciar “Minas” como sinônimo de autenticidade. Hoje, vinhos e azeites mineiros, cafés, cachaças e doces formam um conjunto coerente, projetando a mineiridade como civilização alimentar.

No centro desse organismo está a Serra da Canastra, ventre das águas do Brasil. Ao norte, nasce o São Francisco; ao sul, o Rio Grande encontra o Paranaíba e forma o Paraná, que seguirá ao Rio da Prata. Entre as vertentes, o Lago de Furnas — o nosso Mar de Minas — obra maior de Juscelino Kubitschek no Plano de Metas: engenharia que virou paisagem e, da paisagem, cultura. Houve dor (vilas deslocadas, memórias submersas), mas houve renascimento: novas margens, novas economias e uma estética da água e da montanha.

Aqui, um ponto basilar: a força dessa economia identitária repousa na agricultura familiar, que responde por cerca de 80% da economia agrícola do estado. É ela que sustenta a cadeia do queijo artesanal, abastece cozinhas de montanha, fornece frutas, hortas, cafés, suínos e pescados — base sustentável do nosso sistema alimentar e guardiã de práticas agroecológicas. A singularidade de Minas nasce desse chão: pequenas propriedades, saberes transmitidos, produção de baixo impacto e alta qualidade.

Esse tecido vivo encontra eco na cultura: é comum, em municípios de todo o estado, proteger como patrimônio imaterial as práticas típicas — saberes, fazeres, festas, ofícios, culinárias, congadas, folias, romarias. São centenas, diversas e vibrantes. Isso é mais que inventário: é uma revolução silenciosa que liga a roça ao prato, a fé ao calendário, a economia da beleza ao turismo cultural.

Cuidar desse patrimônio exige zelo estético. O Lago de Furnas tem sua paisagem, suas casas e sua Canastra; a sinalização de queijarias e destinos precisa de cautela na disposição e no desenho. Placas e totens devem informar sem ferir a vista. Pousadas, hotéis e queijarias precisam inovar sem abandonar o legítimo e o original: telhas de barro (e não substitutos agressivos), janelas e portas de madeira, varandas abertas, texturas minerais que dialogam com a serra. Não é saudosismo; é continuidade do vernacular, ética do lugar. Modernidade, sim — enraizada no que somos.

A distinção entre os circuitos Frente das Gerais e Mar de Minas é útil para gestão e afirmação de perfis. Mas ambos só ganham fôlego quando unidos. É, inclusive, questão técnica: a integração eleva permanência e ticket médio, distribui renda, suaviza sazonalidade, melhora serviços. O visitante que entende que o peixe vem do lago e o queijo nasce do pasto da serra, que lê a paisagem na mesa, fica mais, consome melhor, respeita mais.

Juscelino nos legou, além de energia, um método: unir técnica e humanidade. Hoje isso significa: integrar circuitos; proteger a paisagem cultural; valorizar a agricultura familiar e suas práticas sustentáveis; preservar o estilo arquitetônico que nos confere identidade; e continuar narrando Minas como território-marca de água, montanha e mesa. O que as águas uniram, turismo e cultura não devem separar.

Quando um pão de queijo é servido em um hotel de Lisboa, quando um azeite mineiro tempera um prato em Salvador, quando um queijo da Canastra aparece num menu de Botafogo, Minas inteira atravessa a mesa. Montanha vira sabor; sabor vira memória; memória vira desenvolvimento — sustentável, familiar e plural. Canastra e Furnas são duas faces de uma mesma alma: a das águas que nascem na pedra e correm para mover o Brasil. Integrar para permanecer: eis a lição mineira. Que assim seja.

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