Caso Ganem: CMBH é a casa da Mãe Joana?

O eleitor precisa entender que, cada voto dado a alguém assim, é um tijolo a menos nos pilares da boa política
O vereador Lucas Ganem, do Podemos.
O vereador Lucas Ganem, do Podemos. Foto: Redes Sociais/Reprodução

Talvez seja por herança da monarquia portuguesa que, antes de nos abandonar, nus com as mãos nos bolsos, instituiu as famigeradas capitanias hereditárias – pedra fundamental do patrimonialismo político vigente no Brasil desde então, sobretudo nos estados do Norte e do Nordeste (mas não apenas) -, que clãs políticos insistam em perpetuar o poder entre os seus, eliminando ou dificultando a alternância e o surgimento de novas lideranças. O hábito de famílias como Calheiros, Barbalho, Sarney, Magalhães e, mais recentemente, Bolsonaro, ocupar cargos legislativos e executivos (direta ou indiretamente), permanece sólido e cada vez mais recorrente.

O que poderia ser apenas uma espécie de boa tradição familiar – como filhos que seguem a profissão dos pais ou herdam seus negócios – tornou-se, em muitos casos, uma engenharia de poder destinada à apropriação institucional do espaço e de recursos públicos. É como se o sobrenome virasse grife política ou logomarca eleitoral, e o mandato parlamentar (ou executivo), uma mercadoria comercializada em troca de promessas vazias, tendo o eleitor, como quase sempre, o mero papel de massa de manobra.

Em São Paulo, um desses clãs, talvez insatisfeito com a conquista territorial localizada, tem se especializado em expandir fronteiras, como se fossem franquias eleitorais país afora: a família Ganem. O nome até pode parecer mineiro, mas o sotaque é todo paulista. E a mais recente empreitada do grupo foi em Belo Horizonte, onde um certo Lucas do Carmo Navarro, politicamente rebatizado como Lucas Ganem por pura conveniência eleitoral, conseguiu eleger-se vereador sem jamais ter residido na cidade.

Belo o que mesmo?

De acordo com matéria investigativa publicada por O Fator (que recebeu o prêmio de jornalismo INAC de Integridade, do Instituto Não Aceito Corrupção) e confirmada posteriormente pela Polícia Federal, o parlamentar transferiu seu domicílio eleitoral, em 2024, para uma casa no bairro Trevo, na Pampulha. A moradora, esposa de um representante da Geap, operadora de saúde onde o próprio Ganem trabalhava em São Paulo, afirmou nunca ter visto o “novo belo-horizontino”. A PF, então, constatou que o endereço era apenas fachada.

Os registros oficiais reforçam a suspeita da Polícia Federal: CNH, emprego e vínculos profissionais de Ganem foram todos emitidos e mantidos em São Paulo. A primeira aparição pública do agora vereador em Belo Horizonte data de agosto de 2023, em uma postagem de rede social – com erro ortográfico no nome da cidade. Difícil saber o que é mais constrangedor: se o domicílio de ocasião ou o “Belo Horizante”, com z e a.

Mesmo assim, o Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG) homologou a candidatura, e o Ministério Público Eleitoral a chancelou. Ato contínuo, eleitores menos atentos, em meio a campanhas digitais idênticas às de outros “Ganens” espalhados por cidades paulistas, deram mais de 10 mil votos ao candidato-forasteiro.

São Paulo é aqui

Desde então, o gabinete do vereador virou uma espécie de sucursal paulista. Uma prima foi nomeada chefe de gabinete, e assessores abrem empresas em São Paulo, como em Indaiatuba, onde frequentam reuniões presenciais durante o expediente da Câmara Municipal de Belo Horizonte (CMBH).

Além disso, denúncias de “servidores fantasmas” encontram-se em apuração na 17ª Promotoria do Patrimônio Público. Já Ganem compareceu remotamente a quase metade das sessões da Casa e acumula ausências em votações nominais.

Nada disso, porém, o impediu de posar como defensor dos animais e da ética na política – o velho truque da “causa nobre”, que tanto e tão facilmente seduz o eleitorado. Causa animal, causa social, causa familiar, causa religiosa… Tudo vira pretexto para pedir (e receber) voto.

Será cassado?

A omissão do TRE e do Ministério Público é, no mínimo, reprovável, pois os fatos são evidentes, documentados e públicos. O mandato é eticamente ilegítimo. E a Câmara Municipal de Belo Horizonte, que tem a prerrogativa de cassar o vereador com o voto de 28 parlamentares, não pode continuar fingindo que se trata de um caso menor.

A capital mineira, já calejada por outros escândalos, não pode ser usada como trampolim. A democracia não se defende apenas com discursos. Cassar Lucas Ganem não seria um ato político ou punitivista, mas, sim, inequívoca demonstração de zeladoria institucional.

A política brasileira vive uma era em que oportunismos e ilegalidades se avolumam. O que antes eram coronéis de chapéu e espora, distribuindo cestas básicas, hoje são influencers digitais. Em algum momento, o eleitor precisará entender que cada voto dado a alguém assim é um tijolo a menos nos pilares da boa política, e que, enquanto houver espaço para Ganens e afins, a democracia seguirá ferida, tentando respirar sob o peso de sobrenomes que não significam nada além de desejo de poder.

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