Em 1989, em plena transição democrática, Mário Covas subiu à tribuna do Senado para lançar sua candidatura à Presidência da República. O país vinha de uma década perdida: hiperinflação, endividamento externo, crise fiscal e um Estado incapaz de responder às necessidades da sociedade. Foi nesse contexto que pronunciou um de seus discursos mais emblemáticos, defendendo a necessidade de um “choque de capitalismo”.
Mas seu discurso não se limitava à defesa da livre iniciativa, da concorrência e do combate aos privilégios. Covas falava como um social-democrata convicto, comprometido com a justiça social, a redução das desigualdades e a defesa intransigente da democracia. Para ele, não havia projeto econômico legítimo sem ética, transparência e respeito às instituições — e tampouco sem políticas que garantissem igualdade de oportunidades para todos.
Mais de três décadas depois, é justo reconhecer que o Brasil avançou de forma expressiva:
- Superamos a inflação crônica, que chegou a superar 2.000% ao ano e corroía a renda dos trabalhadores;
- Ampliamos o acesso à educação: o ensino fundamental tornou-se praticamente universal, o ensino médio expandiu-se e o acesso ao ensino superior multiplicou-se;
- Reduzimos a pobreza: mais de 20% da população saiu dessa condição em quatro décadas;
- Acumulamos reservas internacionais robustas, que hoje superam US$ 350 bilhões e garantem estabilidade em tempos de turbulência global;
- Reforçamos nossa inserção no comércio internacional, com exportações e importações que hoje superam em mais de dez vezes o volume dos anos 1980;
- Consolidamos a democracia como regime político, com eleições periódicas, alternância de poder e fortalecimento de instituições, ainda que aos trancos e barrancos conhecidos.
Esses avanços nos permitem olhar para trás com orgulho, mas igualmente com bastante preocupação. Porque, apesar deles, seguimos convivendo com juros exorbitantes, baixa produtividade e um Estado ainda marcado por ineficiência e privilégios e uma desigualdade absurda.
Rumo ao futuro
O novo pacto nacional deve ter bases claras:
- Reforma tributária progressiva, justa e sem privilégios, consolidando o que já foi aprovado e avançando no combate às distorções;
- Ajuste fiscal estrutural, para dar previsibilidade ao Estado, enfrentar privilégios e aumentar nossa poupança e capacidade de investimento;
- Aumento da produtividade, no setor público e privado, com inovação, qualificação e eficiência;
- Abertura internacional mais agressiva, para integrar o Brasil às cadeias globais e ampliar mercados;
- Protagonismo verde, para liderar a transição da economia mundial;
- Compromisso democrático e inclusivo, para assegurar que tudo isso seja construído sobre instituições sólidas, transparentes e com foco na igualdade de oportunidades para todos.
Brasil: Ontem e Hoje
| Indicador | Década de 1980 | Momento Atual (2025) |
| Inflação anual | Mais de 2.000% (1993) | Meta de 3% ao ano, inflação controlada |
| Acesso ao ensino fundamental | Taxa líquida de matrícula inferior a 80% | Universalizado, próximo a 99% |
| Acesso ao ensino médio | Menos de 40% dos jovens matriculados | Mais de 75% dos jovens matriculados |
| Acesso ao ensino superior | Cerca de 5% dos jovens | Mais de 20% dos jovens |
| Reservas internacionais | Quase inexistentes | Aproximadamente US$ 350 bilhões |
| Taxa de pobreza | Acima de 40% da população | Cerca de 21% (queda significativa) |
| Importações + Exportações | Cerca de US$ 40 bilhões/ano | Mais de US$ 500 bilhões/ano |
| Ranking da economia mundial | 10ª economia em 1980 | 9ª economia em 2025 |
| Juros reais | Altíssimos, acima de 20% a.a. | Ainda entre os mais altos do mundo |
Fontes: IBGE, Banco Central, MEC/INEP, MDIC/ComexStat, FMI e Banco Mundial.
O Brasil não precisa de ilusões, nem rupturas reais ou imaginárias. Precisa de coragem para realizar o que Covas já defendia em 1989: unir democracia, justiça social, livre iniciativa e eficiência em um mesmo projeto.
Reconhecer os avanços recentes é fundamental, mas não suficiente. É preciso ir além e construir um choque de capitalismo democrático, sustentável e justo, capaz de reduzir drasticamente e de maneira estrutural os juros, liberar nosso potencial produtivo e consolidar o papel do país no cenário global.