Cinzas da ausência – quando a saudade aprende a rezar

Mulher em momento de oração
Há perdas que fazem o deserto durar bem mais do que quarenta. E há encontros, mesmo curtos, que parecem durar para sempre. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Na primeira sexta feira da Quaresma, eu sempre desconfio do calendário. Ele diz que começou. Mas há partes de mim que ainda estão na véspera, como se a alma precisasse de mais tempo para chegar.

Na Quarta feira de Cinzas, a marca na testa não pesa. Quem pesa sou eu. A cinza encosta na pele como quem toca um assunto antigo, e as palavras que a acompanham têm uma franqueza que não pede licença.

Convertei-vos e crede no Evangelho. Lembra te que és pó e ao pó hás de voltar. Eu gosto pouco de frases definitivas. Mas há dias em que o definitivo é o que nos salva de viver como se não houvesse fim, como se o essencial pudesse ser empurrado para a semana que vem.

Foi por isso que, antes mesmo das cinzas, eu já vinha com a ausência me rondando. Fui a um velório. Eu ia com o bolso cheio de frases ensaiadas, como quem leva um guarda-chuva para uma tempestade que sempre desaba de outro jeito. Eu esperava o abismo. Mas não havia abismo. Havia dois pais.

Cheguei para consolar e fui consolado. E isso, em mim, abriu uma pergunta que não fechou mais. Como é possível que os que perderam tanto sejam justamente os que sustentam o peso do ambiente?

O pai falou com simplicidade. Disse que filho é presente, e que presente não vira posse. Um dia é colocado em nossos braços. Noutro, volta para as mãos que o geraram. Não parecia desistência. Parecia confiança, daquela confiança que não tem bravata.

E eu me ouvi por dentro perguntando, quase com vergonha: Será que a fé só começa quando acabam as explicações?

A mãe segurava o mundo como quem segura um prato cheio, sem derramar, mesmo com as mãos tremendo. Não era dureza. Era raiz. E eu pensei uma frase que me acompanhou para casa: raiz não impede o vento, mas impede a queda. Do lado de fora, a vida seguia com a pressa de sempre. Do lado de dentro, tudo ficou mais lento. O relógio mentia. O coração, não.

A Quaresma tem esse jeito. Ela empurra para um deserto. Quarenta dias. Um número que não quer ser matemática, quer ser espelho. Há perdas que fazem o deserto durar bem mais do que quarenta. E há encontros, mesmo curtos, que parecem durar para sempre.

A ausência, quando chega, não pergunta se estávamos prontos. Ela interrompe a conversa, deixa um lugar vazio na mesa, e de repente a gente entende que havia coisas que eram eternas sem que a gente desse esse nome. E aí vem a parte que mais confunde, a que dói e consola ao mesmo tempo.

A saudade não será um modo verdadeiro de presença?

Eu não digo isso para romantizar a falta. Falta é falta. O corpo sente. A casa sente. A rotina sente. Há dias em que a saudade não entra como lembrança, entra como aperto.

E ainda assim, no meio do aperto, há uma evidência teimosa: aquilo que foi tecido em cuidado, em riso, em mesa posta, em pequenas delicadezas repetidas, não se desfaz como papel molhado. O que foi vivido com verdade deixa uma espécie de rastro, uma luz que não faz barulho. O que eu deixei de ver enquanto tudo parecia normal?

Às vezes eu penso que a saudade é o amor que perdeu o endereço físico e precisou mudar de casa. E que a casa nova somos nós. Alguém chamaria isso de vínculo contínuo. Eu chamo de amor tentando continuar.

O que eu faço com o tempo que restou? Essa pergunta, eu trouxe do velório para a Quaresma.

Porque jejum, eu começo a aprender, não é só prato. É jeito. É disciplina do olhar. É retirar excesso para ver melhor. É diminuir ruído para escutar o que a pressa abafa.

Talvez haja um jejum que a ausência exige de nós. Jejum de controle. Jejum de explicações prontas. Jejum da fantasia de que tudo está garantido.

E talvez haja também uma esmola que a saudade pede. Uma caridade sem anúncio. Um gesto concreto que carregue adiante o que o outro plantou em nós.

Se a pessoa amada nos deixou paciência, por que não devolver paciência ao mundo, hoje, na fila, no trânsito, na conversa difícil. Se nos deixou humor, por que não impedir que a casa vire um lugar sem riso. Se nos deixou fé, por que não aceitar que há dias em que a fé é só um passo curto.

Eu volto às cinzas. Elas são leves, mas não são superficiais. Dizem que somos finitos, e isso deveria nos tornar mais humanos, não mais duros.

Dizem também que é tempo de conversão, e conversão, talvez, seja um nome bonito para uma mudança simples. Estar mais presente. Pedir perdão mais cedo. Agradecer sem esperar ocasião especial.

Quem é que eu amo e ainda deixo para depois? Que palavra eu não disse por orgulho, por distração, por pressa? Se a ausência bater amanhã, o que vai me doer mais: a falta ou os adiamentos?

A Quaresma não me dá respostas rápidas. Ela me devolve perguntas melhores. E, com elas, uma espécie de direção. No velório, eu vi que existem dores que não se resolvem, mas podem ser atravessadas. Vi também que existe uma esperança que sabe chorar e, mesmo chorando, sustenta.

E eu não sei dizer onde termina a tristeza e começa a confiança. Só sei que, quando a vida parece ruir, direção já é muito.

As cinzas não prometem que a ausência vai embora. Elas sugerem outra coisa: que o amor pode aprender uma forma nova de presença. E que, se nós somos pó, ainda assim podemos escolher ser pó com sentido.

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