Patrimônio, cozinha e serras viraram experiência e valor econômico em Minas Gerais. Às vésperas do Dia Mundial do Turismo, vale observar como essa combinação deixou de ser retórica e passou a orientar políticas, investimentos e escolhas cotidianas de quem recebe e de quem viaja. O ponto de partida é simples e exigente: turismo não é uma indústria isolada; é uma linguagem que costura pessoas, memórias e paisagens — e, quando atravessada pela cultura, produz desenvolvimento com sentido.
Os números recentes ajudam a explicar o ciclo virtuoso. Em 2024, Minas ultrapassou a marca de trinta milhões de visitantes, com avanço da chegada internacional e geração consistente de empregos em hospedagem, alimentação e serviços. Mais do que um pico conjuntural de pós-pandemia, trata-se de maturação: destinos emergentes se consolidaram, a permanência média cresceu em rotas fora do eixo clássico, e a renda passou a circular com mais capilaridade no interior. O dado econômico tem um correlato simbólico: a autoestima territorial que floresce quando a cultura local deixa de ser adereço e se torna infraestrutura de desenvolvimento.
No plano do reconhecimento, o arco patrimonial mineiro é raro. Ouro Preto (1980), Congonhas (1985), Diamantina (1999) e o Conjunto Moderno da Pampulha (2016) compõem uma espinha dorsal que liga barroco, modernidade e memória nacional — base para produtos turísticos de alta densidade cultural. No natural, a Cordilheira do Espinhaço, Reserva da Biosfera desde 2005, estrutura rotas de natureza e contemplação, alinhadas à transição verde e ao geoturismo. Em 2024, o ingresso dos Modos de Fazer o Queijo Minas Artesanal na Lista do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade consolidou o que as famílias mineiras já sabiam: a cozinha é linguagem de território, cadeia de valor e diplomacia cultural. Em 2025, a inscrição do Peruaçu como Patrimônio Mundial Natural abriu uma janela definitiva para o Norte de Minas no mapa internacional da natureza, da espeleologia e da arte rupestre. Em 2024, Uberaba — Terra de Gigantes tornou-se Geoparque Global da UNESCO, projetando a paleontologia e a geodiversidade do Triângulo Mineiro; e, no Alto Jequitinhonha, o Sistema Agrícola Tradicional das Comunidades de Sempre-Vivas recebeu o selo internacional GIAHS/SIPAM da FAO, valorizando manejo sustentável, biodiversidade e saberes tradicionais. Em pouco mais de quatro décadas, Minas acumulou 10 títulos internacionais; quatro deles — Peruaçu, Sempre-Vivas, Geoparque de Uberaba e o Queijo Minas — chegaram nos últimos quatro anos.
Esse conjunto de ativos funciona porque Minas adotou uma gramática clara: interiorização de investimentos; preservação com uso qualificado; governança local com conselho, fundo e calendário; e valorização da economia criativa (música, arte popular, design, moda, audiovisual), conectada à gastronomia e aos territórios de produção. Na prática, quando a comunidade protagoniza a narrativa, o visitante fica mais tempo, gasta melhor, recomenda — e volta. A política pública acerta quando transforma essa relação em método: curadoria de experiências, qualificação profissional contínua, mediação cultural nos equipamentos, certificações de origem e métricas transparentes.
Há, entretanto, obstáculos estruturais a endereçar. O primeiro é conectividade: trechos rodoviários estratégicos, acessos a parques e sítios históricos e frequências aéreas a partir de hubs emissores ainda definem o salto de qualidade em várias regiões. O segundo é capacidade de carga: sítios sensíveis — centros históricos e unidades de conservação — precisam de parâmetros claros para evitar a sobrecarga que corrói a experiência e o patrimônio. O terceiro é a padronização: transformar tudo em produto igual, embalado em linguagem genérica, dissolve a autenticidade que justamente diferencia Minas no Brasil e no mundo.
O horizonte 2025–2030 pede prioridades objetivas. Acesso e conectividade como política de desenvolvimento regional, integrando cultura, turismo, meio ambiente e infraestrutura. Preservação com uso: fundos de restauro atrelados a metas de educação patrimonial, mediação e inclusão produtiva das comunidades guardiãs. Experiências de território com governança local, curadoria e calendário definido — rotas que articulem barroco e modernismo, serras e águas, festas do Rosário e congadas, cozinhas de quintal e novas autorias. Formação contínua em hospitalidade, idiomas, guia-intérprete, produção cultural e marketing digital, com ênfase em juventudes e mulheres. Promoção inteligente, guiada por dados (origem, perfil, sazonalidade) e por alianças nas redes internacionais, para converter reputação em permanência média e gasto qualificado.
No plano nacional, o diferencial de Minas é ter feito do turismo uma política de Estado ancorada na cultura. Em vez de vender cartões-postais, optou-se por contar histórias — e por permitir que cada território contasse a sua, com rigor e beleza. No plano internacional, o combo Patrimônios + Reserva da Biosfera + Geoparque + Imaterial do Queijo + Cidade Criativa oferece um storytelling competitivo para nichos de alta renda interessados em cultura alimentar, história e arte, natureza e viagens de aprendizado. A estratégia eficaz, aqui, não é inventar slogans: é aprofundar singularidades, medir impacto e garantir qualidade em toda a jornada do visitante.
Resta uma convicção — simples, porém transformadora — que orienta este diagnóstico: a cultura é a única capaz de oferecer uma experiência verdadeiramente transformadora a quem viaja. Ela dá espessura às paisagens, voz às cozinhas, densidade aos museus e sentido às festas. Por ela se volta; com ela se prospera. Crescer, para Minas, não é padronizar. É cuidar do que é único e fazê-lo dialogar com o mundo.