Quem trabalha com campanha vive de debates políticos. Respira isso, domina técnicas e testa argumentos todos os dias. Mas este texto não é para marqueteiros. É para você que vai atravessar um ano eleitoral discutindo política no trabalho, na família, nos grupos de WhatsApp.
Quem trabalha elaborando estratégias de campanhas eleitorais, aprende cedo uma lição: debater é parte do jogo, mas não em qualquer terreno. Existe uma regra não escrita nas campanhas que quase ninguém aplica na vida cotidiana: falar com todo mundo, o tempo todo, é a forma mais rápida de desperdiçar tempo e dinheiro. A primeira regra do debate político, paradoxalmente, é saber quando não debater. Tudo depende de quem está do outro lado.
Pra você que é minimamente antenado em política, já percebeu que este não será um ano qualquer. A eleição tende a ser barulhenta, emocional, atravessando relações que antes não eram políticas. Conversas no trabalho, no almoço em família, entre amigos antigos. Pessoas cada vez mais engajadas e envolvidas no processo eleitoral. Mas pouca gente se pergunta: vale a pena discutir?
Um marqueteiro político responderia com outro questionamento: com quem exatamente você está falando?
Em campanha eleitoral, essa é uma obsessão. Nenhuma estratégia passa apenas pela mensagem. Ela começa pelo público. Isso porque tempo e dinheiro são finitos, e cada ação tem um custo. Cada conversa, cada peça, cada evento exige uma decisão implícita: onde faz sentido investir o recurso?
Por isso, campanhas sérias nunca tratam o eleitorado como um bloco homogêneo. Existe o núcleo duro, que já está convencido. Existe um grupo que não é apoiador, mas está aberto a escutar, comparar, ponderar. E existe um terceiro grupo, quase inalcançável: pessoas completamente fechadas, com posições rígidas, emocionais e praticamente imutáveis. Em campanha, insistir nesse último grupo não é uma questão de coragem ou poder de persuasão. É má gestão de recursos.
Quando esse raciocínio é trazido para a vida cotidiana, ele ganha outra camada. Fora da política profissional, o custo não é dinheiro de campanha. É saúde mental, estresse acumulado, amizade desgastada. Em alguns casos, processo judicial ou até a própria vaga no trabalho. Ainda assim, muita gente entra em debates como se todo diálogo tivesse a mesma chance de dar certo. Como se toda conversa fosse um campo neutro de ideias, onde o argumento mais racional e coerente vence.
Não é.
Debater política como um marqueteiro não significa fugir da discussão ou ganhar em qualquer situação. Significa fazer uma avaliação de custo. Vale a pena investir energia aqui? O retorno possível compensa o desgaste provável? Essa pessoa demonstra curiosidade e abertura ou apenas vontade de reafirmar as próprias convicções? Está aberta a ouvir algo novo ou só esperando a sua vez de falar?
Há um outro ponto importante que campanhas entendem muito bem e que quase ninguém aplica no dia a dia: o ponto de partida importa tanto quanto o conteúdo.
Pense em um eleitor indeciso. Ele pode, por exemplo, não gostar do PT. Isso não significa que ele jamais votaria no Lula em um cenário específico. Mas significa que, se você fala com ele a partir de um lugar que ele enxerga como “petista”, a conversa se fecha antes mesmo de começar. Não porque o argumento seja fraco, mas porque o estereótipo acionada é a errado e cria uma barreira natural. E esse exemplo valeria também para outro espectro político.
Campanhas trabalham muito com isso. Além de definir o que dizer, é preciso também determinar de onde dizer. Qual linguagem ativa escuta em vez de rejeição. Qual enquadramento abre fresta em vez de levantar muro. É uma lógica parecida com pesquisas quantitativa e qualitativa. A quanti te diz quantos pensam de determinada forma. A quali te ajuda a entender como essas pessoas organizam esse pensamento, quais palavras usam, quais medos aparecem, quais rejeições partem de cada estímulo.
Na vida real, essa leitura também existe, mesmo que intuitivamente. Há pessoas que aceitam discutir política a partir de dados. Outras, só a partir de experiências pessoais. Algumas se fecham diante de rótulos, mas escutam quando a conversa começa por valores compartilhados. Outras não escutam em praticamente nenhum cenário, e o custo para tentar abrir essa cabeça é altíssimo.
E aqui entra uma distinção importante: não é que não dê para mudar a opinião de alguém fechado. Em teoria, quase tudo é possível. A questão é: a troco de quê? Em campanha, esse custo raramente compensa. Na vida, na maioria das vezes, menos ainda.
O erro comum é transformar toda conversa em uma super missão de convencimento. Como se recuar fosse covardia, ou como se escolher o silêncio fosse omissão. Um bom marqueteiro não cairia nesse erro.
Em um ano polarizado, com atenção disputada, identidades rígidas e conversas cada vez mais performáticas, talvez o maior aprendizado seja esse: discutir política não é falar com todo mundo. É escolher com quem faz sentido falar, de onde falar e até onde insistir.
Estratégia, no fundo, não é convencer a qualquer custo. É entender qual custo você está disposto a pagar. E qual não está.