Di Souza

Foto: Elcio Paraiso/PBH

Escrevo sobre Di Souza a partir de quem acompanha os movimentos artísticos de Belo Horizonte desde os anos 1990. Vi a cidade buscar linguagem própria, atravessar ciclos, errar e amadurecer. Poucos artistas transformaram prática musical em método de organização coletiva como ele. Não é apenas parte da cena — é um de seus estruturadores.

Toda obra verdadeira é insistência. Não nasce pronta. Retorna. Se refaz. A obra de Di Souza é uma investigação contínua sobre o ritmo como forma de pensamento e sobre o corpo como lugar do comum.

Di Souza não pesquisa música. Pesquisa o tempo

Em Não Devo Nada pra Ninguém (2015), já se afirmava a ética: autonomia formal, pulso como fundamento. Em Bloco da Saudade (2021), canções como “O Aluguel Venceu” e “Quando o Bloco Sair” deslocam o cotidiano para o centro da forma. O aluguel, a espera, o corpo que deseja a rua tornam-se matéria estética. Não há exaltação. Há estrutura.

Walter Benjamin escreveu que “a experiência se transmite de pessoa para pessoa”. A obra de Di Souza opera nesse intervalo. Não se impõe como discurso; se transmite como prática incorporada. Aprende-se tocando. Aprende-se errando. Aprende-se esperando.

O Carnaval de Belo Horizonte é o campo ampliado dessa pesquisa. Em 2026, não foi a explosão que chamou atenção, mas a estabilidade da forma. Blocos atravessando a cidade com precisão rítmica, baterias sustentando andamentos largos, regências organizando milhares de corpos sem estridência.

O Carnaval deixou de ser acontecimento. Tornou-se estrutura

Enquanto outras capitais consolidaram modelos espetacularizados, Belo Horizonte consolidou método. Não nasceu indústria; nasceu coletivo. Ensaios atravessam o ano. Baterias não são cenário; são espinha dorsal. A festa é consequência de disciplina compartilhada.

Como o próprio Di Souza afirmou, “o Carnaval de BH é fruto do suor e do esforço do povo”. A frase não é retórica. É programa estético e político. Ritmo é política antes de ser som.

Em Boletim Vermelho (2025), sua investigação se adensa. “Paranauê da Vida”, com Renegado, pulsa resistência popular. “Seu Cachorro Tá na Rua” ironiza a cidade contraditória. “Multidão de Dois”, com Maurício Tizumba, condensa a tese: o coletivo começa no encontro mínimo.

Henri Lefebvre escreveu que “o cotidiano é o lugar onde se joga o sentido da vida”. Ao insistir no ordinário, Di Souza afirma que a arte não está fora da vida; ela a organiza.

A Percussão Circular explicita o método fisiológico dessa obra. Ali o ritmo é corpo em repetição. Ombros, braços, respiração. O ritmo organiza músculos antes de organizar discursos. Aprende-se a entrar no tempo do outro.

Ao observar essa trajetória ao longo das décadas, fica claro que não se trata apenas de música ou de Carnaval. Trata-se de uma pedagogia do convívio. Toda convivência fracassa quando perde o compasso.

Em 2026, Di Souza recebeu o título de Cidadão Honorário de Belo Horizonte. Não é apenas homenagem individual. É reconhecimento de uma cidade que se percebe educada por uma obra.

Sua pesquisa permanece a mesma: como continuar juntos.

Porque toda cidade se revela no ritmo que suporta.

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