No fim das contas, tudo gira em torno de dinheiro. Não importa se você se declara de esquerda ou de direita, se veste a camisa de uma ideologia ou posa de isento. O eixo central continua sendo o mesmo, acesso ao dinheiro. Esse é o jogo. Sempre foi. E, gostemos ou não, sempre será.
Talvez por isso o pensamento crítico nunca tenha sido tão necessário. E, ironicamente, nunca tenha sido tão raro. Vivemos uma época em que a reflexão profunda foi substituída por frases prontas, slogans emocionais e opiniões terceirizadas. Com raríssimas exceções, o ecossistema dos chamados “influencers”, termo que já nasce cansado, gira em torno de um único objetivo. Monetizar atenção. Converter cliques em renda. Transformar discurso em produto.
O problema é que, nesse processo, algo essencial se perde. A dignidade humana, que deveria ser inegociável, passou a ter preço. E pior, parece agora vir com tabela, contrato e cláusula de confidenciabilidade. Convicções se adaptam ao patrocinador da vez. Narrativas mudam conforme o fluxo de caixa. O conteúdo deixa de ser expressão de caráter e passa a ser peça publicitária.
A história recente do Brasil ajuda a ilustrar isso de forma quase didática. Collor caiu, em grande parte, porque não quis ou não soube dividir o dinheiro. Dilma caiu porque, além de outros fatores, não tinha habilidade política para gerir esse jogo de interesses. No poder, dinheiro nunca foi apenas recurso. Sempre foi instrumento de articulação, sustentação e sobrevivência.
Enquanto isso, do lado de fora, somos bombardeados sem trégua. “Clique aqui”. “Arraste para cima”. “Preparei uma aula gratuita”. Gratuita, claro, até o próximo funil. A lógica é simples e repetitiva. Captura-se a atenção, vende-se a promessa e monetiza-se a esperança. Vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana.
O caso recente envolvendo o Banco Master expõe bem essa engrenagem. Daniel Vorcaro soube, por um tempo, distribuir dinheiro e construir alianças. Isso funciona, até deixar de funcionar. O problema surge quando a corda é esticada demais, quando os negócios deixam de se sustentar no médio e longo prazo. Para quem é do mercado, o desfecho nunca foi surpresa. A conta simplesmente não fechava.
Há também um componente psicológico importante. A necessidade de pertencimento. No caso, o desejo de ser aceito no círculo dos banqueiros. Esse anseio levou a uma exposição além do razoável. E aí mora o paradoxo. Se existe um tipo de empresário que, por natureza, preza pela discrição, esse tipo é o banqueiro. Dinheiro gosta de silêncio. Excesso de holofote costuma cobrar juros altos depois.
No fim, a lição é antiga, mas constantemente ignorada. O dinheiro move o mundo, mas não deveria mover tudo. Quando move caráter, discurso e identidade, o custo costuma ser maior do que o saldo bancário consegue pagar. Pensar criticamente, hoje, não é um luxo intelectual. É uma forma de defesa. E talvez seja a única que ainda não conseguiram empacotar, vender e parcelar em doze vezes sem juros.