Entre a tela e o abraço: a profecia de um pai e a coragem de estar presente na era das telas

Que 2026 nos encontre atentos. Que sejamos perseverantes na difícil arte de conviver
cidade portuária de Haifa, no norte de Israel. Ao fundo, o Monte Carmelo e o Templo Bahai. Em primeiro plano, uma imensa árvore de natal e uma Menorah (candelabro)
Haifa, em Israel: encontro de religiões / Foto: Google Images

Juiz de Fora, 20 de setembro de 1971. O papel pardo sobre a mesa guarda mais do que a caligrafia firme do meu pai, Nery Mendonça. Ali está um veredito. Por insistência da minha irmã mais velha, Rosa, que fazia questão de abraçar a modernidade, meu pai escreveu ali suas “previsões para a conduta coletiva” caso aquela caixa mágica chamada televisão entrasse em nossa casa. Relendo essas linhas hoje, no último decênio de dezembro de 2025, percebo que elas deixaram de ser apenas um registro familiar para se tornar uma espécie de certidão de nascimento da nossa época.

Ele temia o que chamou de “veículo de domínio psíquico”. Em sua visão profética, aquele aparelho seria ligado todos os dias, atrapalhando os deveres de cada um. Imaginou até brigas incômodas pela atenção à TV. Previu aumento na conta de luz e o triunfo do ócio. Rosa — que já não está entre nós — guardou a carta como um trunfo, determinada a provar que nosso pai estava enganado. A fina ironia, digna de um observador cético da vida, é que, no fim, os dois estavam certos. Rosa venceu a batalha da compra, mas o velho Nery venceu a guerra do diagnóstico.

Aquilo que meu pai chamava de televisão hoje carregamos no bolso. O “domínio psíquico” que ele temia nas novelas e programas pseudocientíficos ficou ainda mais sofisticado. Já não somos dominados apenas na sala de estar depois do jantar – essa influência nos acompanha na cama, no banheiro, na calçada, até a mesa do bar. A profecia se cumpriu com requintes de crueldade. As brigas que ele imaginou deixaram de ser pelo controle remoto ou pelo volume da TV. Hoje, a discórdia é o silêncio: o filho que não responde porque está de fones de ouvido; o casal que janta junto, mas separado por abismos de pixels; a solidão acompanhada de quem tem cinco mil “amigos”, mas não encontra ninguém para lhe segurar a mão num domingo à tarde.

Que venha o ano novo

A realidade cotidiana, com suas tragédias e comédias de costumes, confirma que o aumento de “consumo de força” de 20% que ele previu não ocorreu só na conta de luz. Esse aumento aconteceu na nossa energia vital. Estamos exaustos. Drenados. O ócio que poderia ser criativo virou vício de rolagem infinita.

Mas não estamos aqui, às portas de 2026, para lamentar o leite derramado ou a profecia cumprida. Se a esperança é uma coisa boa e o que é bom não morre, é hora de virar a chave. Se o diagnóstico do meu pai sobre a doença da distração foi preciso, a cura precisa vir da nossa teimosia em continuar sendo humanos.

É hora de invocar o espírito de um naturalista a bordo do seu Beagle interior. Precisamos encarar 2026 não como quem encara mais uma tela, mas como quem desbrava um mapa desconhecido. A psicologia de uma vida boa começa onde termina o automatismo – começa na escolha do foco. Tudo que nutrimos com nossa atenção é o que cresce. Se alimentamos o medo e a comparação, colhemos ansiedade. Mas se alimentamos a confiança e a presença, colhemos dias habitáveis.

É dando que se recebe

Isso não é ingenuidade, tampouco um otimismo bobo de cartão de Boas Festas. Trata-se de um vigor realista – aquela força tranquila de quem sabe que pensamentos repetidos viram hábitos, e hábitos viram caráter. Existe uma sabedoria silenciosa no simples ato de colocar os pés no chão ao acordar, inspirar fundo e escolher não reagir ao mundo antes de tentar compreendê-lo.

Perguntemos, então, com a curiosidade de quem deseja construir e com a ternura de quem sabe que a vida é breve demais para se viver através de um vidro: Que gesto meu, hoje, pode facilitar a vida de alguém? Que privilégio posso converter em acesso compartilhado? Que palavra posso transformar em verdadeira escuta, para que um conflito encontre uma saída digna?

A felicidade pública, conceito tão esquecido, nada mais é do que o acúmulo desses gestos discretos. É a soma das vezes em que escolhemos olhar nos olhos em vez de olhar para a notificação.

Um 2026 iluminado

Minha amada irmã e madrinha Rosa guardou aquele papel. Ela zelou por essa memória. E talvez a grande lição que permanece, flutuando entre a caligrafia de 1971 e a alvorada de 2026, seja que a tecnologia passa, os aparelhos quebram, as redes sociais mudam de nome, mas o afeto permanece. Aquele pedaço de papel sobreviveu porque foi mantido com cuidado. Nossas relações só sobreviverão se tivermos o mesmo cuidado com elas.

Que 2026 nos encontre atentos. Que sejamos perseverantes na difícil arte de conviver. Que cada decisão que tomamos desloque a história alguns milímetros para o lado justo. E que, ao final de cada dia, possamos escrever em nosso diário invisível – sem precisar provar nada a ninguém – que uma vida nova começou, não porque o ano mudou, mas porque mudamos o nosso modo de olhar para ele.

Feliz ano novo! Mas, acima de tudo, feliz atenção nova. Abaixo, a transcrição da carta de meu pai.

Hoje, dia 20 de Setembro de 1971

Previsões minhas para a conduta coletiva do pessoal de casa, caso comprem a Televisão:

Seria veículo de domínio psíquico da maioria, através de programas pseudo-científicos, novelas, filmes, etc.

Será ligada, diariamente, em prejuízo inclusive dos deveres de cada um.

Terão sempre uma desculpa, tais como: “não saímos de casa”; “nos divertimos”; “não fazemos nada” e outras dêste tipo servindo apenas para justificar os hábitos aqui previstos.

Poderia, inclusive, ser fonte de doenças, devido o hábito formado de vê-la após as refeições.

Haveria discórdias molestas quando algum tiver dever importante e o outro vá ligá-la para satisfazer o ócio e talvez o vício.

Materialmente, haveria um aumento de consumo de força na ordem de 20% (vinte por cento).

Haverão muitas coisas ainda imprevisíveis, que anotarei para futuras observações.

Juiz de Fora, 20 de Setembro de 1971.

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