A rotina da administração pública é feita de escolhas. Não de frases de efeito, nem de declarações para a foto ou vídeo do dia, mas de decisões concretas que afetam vidas, prioridades e o funcionamento do município, estado ou país. Por isso, a primeira responsabilidade de quem governa, ou de quem ocupa posição de comando na gestão, não é apenas representar uma vontade política, é decidir. Decidir sobre alocação de recursos, muitas vezes escassos, sobre políticas que exigem continuidade, sobre medidas que impõem custos no presente para evitar danos maiores no futuro.
A cada despacho, a cada assinatura, a cada orientação administrativa, o governante reafirma, ou renuncia, à própria função. E a renúncia nem sempre vem em forma de omissão explícita, muitas vezes se disfarça de cautela excessiva, de “estamos estudando”, de comissões intermináveis, de soluções improvisadas que contornam o problema sem enfrentá-lo.
A experiência mostra que, na maioria das vezes, as decisões relevantes são difíceis e, não raro, impopulares. É fácil decidir quando a pauta já vem embalada pelo consenso, quando o benefício é imediato, quando o custo é invisível, quando a narrativa se escreve sozinha. O teste real da liderança começa quando o diagnóstico é incômodo, quando o remédio tem gosto amargo, quando os interesses contrariados são organizados e barulhentos, quando a medida necessária tem potencial de gerar desgaste.
A coragem, nesse contexto, não é sinônimo de teimosia, nem de voluntarismo, nem de atropelo institucional. Coragem é a disposição de assumir o ônus de escolher, de sustentar o que é correto com base em evidências, critérios e justiça, e de responder publicamente por isso, com transparência, serenidade e firmeza.
O problema é que muitos preferem não decidir. Empurram com a barriga. Adiam, parcelam, maquiam, terceirizam a responsabilidade. Criam atalhos para “aliviar a pressão” sem resolver a causa. Quando a questão é estrutural, a fuga tem um preço alto, porque o tempo é um multiplicador de problemas. Um contrato mal executado hoje vira um passivo amanhã. Uma política pública sem governança vira desperdício de tempo, dinheiro e prestígio. A falta de manutenção vira colapso. A demora em reformar processos vira filas, falhas, judicialização. O que não é enfrentado, se acumula. E o que se acumula, um dia cobra com juros. A longo prazo, essa postura vai minando a gestão, porque a máquina passa a operar no improviso, e o improviso acaba virando rotina. O governante perde previsibilidade, perde confiança interna, perde capacidade de coordenação, e a administração, em vez de entregar resultados concretos, passa a consumir energia tentando apagar incêndios que eram evitáveis.
Há ainda um aspecto pouco reconhecido nesse debate, o peso e a solidão que cargos de poder impõem. Mesmo cercado de pessoas, o governante sabe que, no fim, a responsabilidade tem nome e CPF, e que uma decisão mal tomada pode produzir consequências graves, políticas, administrativas e humanas. Essa solidão, somada ao ambiente de pressão permanente, muitas vezes paralisa, e torna a tomada de decisão mais lenta, mais defensiva, ou excessivamente orientada pelo risco de desgaste. Justamente por isso, é fundamental contar com um corpo técnico qualificado, diverso e respeitado, capaz de produzir diagnósticos honestos, apresentar alternativas, estimar impactos e sustentar recomendações com dados. Mais do que ter bons quadros, é preciso manter diálogo, confiança e rotina de trabalho com seu secretariado e assessoria, sem cercar-se apenas de quem concorda, sem premiar a bajulação e sem punir a franqueza. Decisões corajosas, quase sempre, são decisões bem embasadas, e o embasamento nasce de equipe, método, escuta e governança.
Essa dificuldade de decidir ganha ainda mais força em um ambiente dominado por ciclos curtos de atenção. A política sempre conviveu com a tentação do imediato, mas as redes sociais aceleraram o relógio e endureceram a lógica. Hoje, o governante é pressionado a responder em tempo real, a reagir antes de compreender, a comunicar antes de concluir. E, nesse cenário, o cálculo eleitoral entra pela porta da frente. Pensa-se no próximo post, na próxima manchete, no próximo embate, na próxima eleição. Já ouvi algumas vezes, governantes e legisladores dizerem, sem rodeios, que não valia a pena avançar com determinado tema porque aquilo pegaria mal nas redes sociais. A frase é reveladora, não apenas por expor o medo do desgaste, mas por inverter a prioridade. Em vez de perguntar “é necessário?”, pergunta-se “vai render crítica?”. Em vez de “qual é a medida certa?”, avalia-se “qual é a medida menos arriscada para a imagem?”.
O risco desse tipo de condução é enorme. Quando a popularidade vira prioridade, a gestão certamente perderá o rumo. Porque nem sempre a medida certa é a popular, e, muitas vezes, a medida popular é apenas a mais fácil de vender. Políticas de saneamento financeiro, reformas administrativas, reestruturações de serviços, mudanças regulatórias, revisão de subsídios, enfrentamento de privilégios, reorganização de contratos, metas de eficiência, são ações essenciais para um governo que entrega. Mas elas raramente rendem aplauso imediato. Ao contrário, costumam produzir desconforto, especialmente quando rompem hábitos, reduzem margens de manobra, cortam excessos, e exigem disciplina. Quem governa só buscando aprovação instantânea cai na armadilha do “governo analgésico”, aquele que só tenta curar a dor do momento, sem tratar a doença. Pode aliviar por algumas horas, mas piora o quadro geral e enfraquece a capacidade de entrega no médio e longo prazo.
Coragem, então, é escolher o caminho do que funciona, e não o do que aparece. E isso exige maturidade política para lidar com a impopularidade temporária, sem transformar o debate público em guerra emocional. A administração pública não pode ser guiada pelo humor do dia, ela precisa ser guiada por planejamento, por responsabilidade e sensibilidade, e por compromisso com serviços públicos de qualidade. Há decisões que doem agora, mas evitam tragédias depois. Há investimentos que demoram a aparecer, mas mudam a vida de uma geração. Há projetos que exigem tempo, orçamento, acompanhamento, capacidade técnica, e persistência para sair do papel. E esses projetos, quase sempre, não rendem os likes que alguns governantes querem. Eles rendem algo mais difícil e mais valioso, resultados concretos, continuidade, melhora de indicadores, satisfação cotidiana do cidadão, redução de desperdício, aumento de confiança institucional.
É aqui que entra a dimensão humana e política da liderança, o diálogo com a população. Decidir com coragem não é decidir em silêncio, e tampouco decidir de cima para baixo como se a sociedade não precisasse entender o porquê. Pelo contrário, a coragem se sustenta quando há um diálogo franco, sincero, objetivo e transparente com as pessoas. Isso pode não soar bem no primeiro momento, porque a verdade, quando envolve limites e escolhas, é menos sedutora do que promessas fáceis. Mas a clareza tem um efeito acumulativo. Quando o governante explica o problema, apresenta dados, reconhece dificuldades, assume prioridades, mostra alternativas, e detalha critérios, ele cria um pacto de realidade. Pode enfrentar resistência inicial, mas colhe frutos mais adiante, em credibilidade. A população não exige perfeição, exige honestidade e coerência.
Governar através das redes sociais, ou seja, governar para a rede, é um erro que custa caro. A rede é um instrumento, não um método de governo. Ela pode ser útil para informar, ouvir, corrigir rota, dar transparência, ampliar participação. Mas quando vira o centro da tomada de decisão, ela empurra o governante para a superficialidade. O algoritmo premia simplificação, conflito, indignação, e certezas instantâneas. A gestão pública, por outro lado, exige complexidade, equilíbrio, escuta, e tempo. É incompatível com a ansiedade do trending topic. Um governante que decide com base no que vai viralizar perde capacidade de administrar, porque passa a confundir barulho com maioria, repercussão com relevância, e curtida com legitimidade. Ao final, a conta chega na forma de serviços piores, obras paradas, políticas desmontadas, e uma sensação coletiva de que o Estado não entrega.
No fim, há uma verdade que costuma separar gestões memoráveis de gestões esquecíveis. Governantes que fogem de decisões difíceis preservam a imagem por algum tempo, e podem comprometer a administração por anos. Governantes que decidem com responsabilidade podem enfrentar tempestades no presente, mas criam bases sólidas para resultados duradouros. E resultados duradouros, com o tempo, falam mais alto do que qualquer postagem. A política precisa recuperar essa noção essencial, coragem não é gritar mais alto, é entregar melhor. E entregar melhor começa no ponto mais básico, decidir.