Jota D’Ângelo e Mamélia: fundadores de uma cena

Foto: Arquivo Jota Dangelo | Mamélia

O lançamento da pedra fundamental do Teatro Jota D’Ângelo, na Feluma, reacende a memória de quem ajudou a fundar o teatro moderno em Minas Gerais.

Recebi com alegria e esperança no futuro da cultura mineira o convite para o lançamento da pedra fundamental do Teatro Jota D’Ângelo, iniciativa da Fundação Educacional Lucas Machado e da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais — instituições que integram a Feluma. Em uma capital que tantas vezes precisou afirmar sua própria vida cultural, a decisão de erguer um novo teatro não é apenas a criação de um equipamento artístico. É um gesto de continuidade histórica.

Porque o teatro moderno em Minas Gerais não nasceu apenas de estreias ou talentos individuais. Nasceu da persistência de artistas que decidiram transformar vocação em projeto cultural — com método, repertório, formação de elenco, construção de plateias e, sobretudo, permanência.

Entre esses nomes fundadores destacam-se Jota D’Ângelo e Maria Amélia Dornelles D’Ângelo, a Mamélia. Mais do que artistas, foram construtores de um ambiente cultural. Não apenas participaram da história do teatro mineiro: ajudaram a instituí-lo.

Guardo uma lembrança muito viva. Em 2010 participei do lançamento do livro Os Anos Heróicos do Teatro em Minas (1950–1990). Na ocasião levei o volume para casa como quem guarda um documento de época. Relendo-o agora com a distância que o tempo concede, percebo melhor sua natureza. Não se tratava apenas de memória ou homenagem. Era a restituição crítica de uma trajetória construída com risco, disciplina e obstinação.

O livro revela algo essencial: uma cena artística não se sustenta apenas por talento. Sustenta-se por infraestrutura humana, ética de trabalho e permanência.

Nos anos 1950, Belo Horizonte viveu um momento singular. A universidade tornou-se um verdadeiro laboratório cultural. Foi ali que emergiu uma geração que transformou o teatro local em linguagem pública e contemporânea. Nesse ambiente surge o Teatro Experimental (TE), núcleo decisivo desse movimento. Não era apenas mais um grupo teatral. Era um projeto de modernização estética e institucional.

Criar um grupo teatral é relativamente simples. O raro é mantê-lo. Manter ensaios, formar atores, consolidar repertório, educar plateias e atravessar décadas de dificuldades econômicas e políticas.

Essa abertura ao contemporâneo materializou-se também em obras marcantes. Entre elas, Oh! Oh! Oh! Minas Gerais (1968), escrita por Jota em parceria com Jonas Bloch, peça atravessada pelo clima de censura do período. A criação teatral não recuava diante de seu tempo; dialogava diretamente com ele.

Décadas depois, Os Anos Heróicos organizaria essa experiência como memória estruturada. E memória, quando ganha forma, também se torna obra.

Há ainda a dimensão institucional dessa trajetória. Entre 1990 e 2000, o casal esteve à frente da Casa de Cultura Oswaldo França Jr., experiência que demonstrou que o teatro não vive apenas de temporadas. Ele precisa de ambientes de convivência, formação e continuidade.

Vieram então os anos mais difíceis. A década de 1960 trouxe censura, interrupções e restrições severas à vida cultural. E é justamente nesses momentos que se mede a força de quem funda uma cena artística. Manter o palco aceso, em certos períodos, foi um gesto profundamente político — mesmo quando não se dizia política.

Nesse percurso, Mamélia desempenha um papel decisivo. A história do teatro costuma celebrar diretores e dramaturgos, mas frequentemente esquece a engrenagem cotidiana que sustenta uma produção artística: figurinos, produção, agenda, circulação e sobrevivência financeira. Mamélia conduziu essa engenharia diária com a mesma dignidade da criação artística.

Quando se recorda que “a peça infantil pagava a luz”, não há folclore nessa frase. Há a realidade concreta da economia do teatro brasileiro. A cena mineira não nasceu em salas confortáveis. Nasceu da persistência de quem acreditava que o palco precisava existir mesmo quando os recursos eram escassos.

Jota D’Ângelo, por sua vez, encarnava uma combinação rara: médico e homem de teatro. Essa dupla formação não é uma curiosidade biográfica; é uma chave de leitura. O teatro que ajudou a consolidar em Minas tem método, reflexão e organização. Não se improvisa uma geração artística. Constrói-se.

Construir, no teatro, significa sustentar repertório, formar elencos, educar plateias e criar rotinas institucionais. Significa também compreender que a arte precisa de política pública, planejamento e infraestrutura cultural.

Quando Jota atravessou a fronteira do palco para a gestão cultural, ampliou o alcance desse trabalho. Muitos artistas se diluem ao entrar na máquina pública. No caso dele, houve expansão. A experiência estética transformou-se em pensamento institucional.

Mamélia permaneceu como a consciência artística dessa trajetória. Sua presença nunca foi decorativa. Era estruturante.

O Teatro Jota D’Ângelo, cuja pedra fundamental agora se lança no espaço do Teatro Feluma, sintetiza esse percurso. Não é apenas um novo equipamento cultural. É a materialização de uma ideia: cultura como continuidade.

Alguns artistas deixam espetáculos.
Outros deixam textos e montagens.

Jota D’Ângelo e Mamélia deixaram algo ainda mais raro: um chão para que o teatro moderno florescesse em Minas Gerais.

Estão entre aqueles que ajudaram a fundar uma cena — com método, coragem e permanência.

Certos nomes não designam apenas pessoas.
Designam momentos históricos.

Jota D’Ângelo e Mamélia pertencem a esse tempo fundador.

Com a colaboração de Madalena Rodrigues, atriz e presidente do SATED-MG.

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