Interessante quando soltamos a mente para visitar o que nos formou. Chegam as vozes de pais e avós, os conselhos falados no quintal, a moral que cabia na palma da mão. Essas memórias não pedem licença. Sentam à mesa, servem o café e fazem a pergunta que não envelhece. Que nome damos hoje ao que já fomos ontem?
Lembro de Jandira, a prima de voz do rádio antigo, pronta para serestas e choros que aquecem o peito. A vida não abriu o estúdio, talvez por capricho, talvez por atraso. Ela cruzou com um violonista de dedos luminosos que não apenas a ouviu, conheceu-a. Essa história meu saudoso pai contava nas prosas das nossas caminhadas diárias, quando eu tinha a alegria de acompanhá-lo da casa ao trabalho, onde o escritório ocupava uma sala no histórico Edifício União, lá na Manchester Mineira. Ele lembrava os bailes da Mineira na amada Juiz de Fora e fazia brilhar a cidade inteira nos olhos da gente. O famoso violonista, já na história de nosso País, compôs uma música com o nome dela. Jandira. O título era retrato e promessa. A relação se desfez. Em respeito aos ouvintes que esperavam uma letra, o compositor renomeou a obra. Doce Crepúsculo. A canção segue viva.
Desde então desconfio que sobrevivemos graças a essa arte silenciosa de renomear o que dói. Quantas perdas ganharam apelidos para poder morar conosco sem quebrar a louça. Chamamos de aprendizado o amor que partiu. De acaso a porta que se fechou e nos empurrou para outra rua. De milagre a simples persistência de cada manhã. Não seria essa a primeira lição das casas onde quase tudo falta, menos voz?
Rádio Fundo d’Alma
Cresci num lugar em que o dinheiro chegava com dificuldade, mas o afeto era pontual. A cozinha era sala, palco e abrigo. A geladeira fazia seus ruídos de companhia e um violão às vezes desafinado era o luxo possível. Crianças recortavam brincadeiras no nada, adultos guardavam de cor os anúncios da rádio B-3 e aqueles do Programa do “Zé de Barros”. Havia um truque antigo sobre a mesa. Em cada prato, um nome novo para a esperança.
O caso de Jandira ensinou que mudar o título não apaga o coração da coisa. Jandira era chamado. Doce Crepúsculo, foi descanso para uma promessa cansada. E então eu me pergunto e convido você a se perguntar. Que lembrança você poliu até virar canção? Qual foi a dor que ganhou apelido para caber no bolso? Que verdade você empurrou de volta para dentro com outro nome até que ela parasse de arranhar?
Talvez cada um guarde a própria Jandira. Uma vocação sem elevador. Um talento que não recebeu convite. Alguém que nos ouviu por um instante e traduziu em som o que não ousávamos dizer. Às vezes é um amigo. Às vezes é uma esquina. Às vezes é só o silêncio da noite, esse intérprete fiel do que não sabemos falar.
Fragmentos do que passou
E há o crepúsculo. A palavra tem um açúcar discreto. A luz não se vai por inteiro, apenas se recolhe atrás das casas como quem pede desculpas. Nesse intervalo o mundo ganha contorno generoso. O erro parece perdoável. A voz desafinada vira prova de humanidade. Não é nessa hora que as perguntas ficam simples. O que fica quando tudo passa? O que passa quando nada fica?
Meu pai, que não teorizava e sabia, dizia que a vida se afina no ouvido. Não existe diapasão eterno. Cada dia inventa seu tom. O cuidado é não largar a canção. Algumas manhãs só damos conta do refrão. Em outras, escrevemos uma ponte. De vez em quando surge um verso inteiro de graça. Quando emperra, trocamos o nome até que a música aceite voltar. Você também faz isso ou ainda chama tudo pelos nomes que ferem?
Penso nos pequenos salvamentos da infância que chegam quando já somos adultos. O cheiro do café coado no pano. A toalha com flores desbotadas. O riso de quem partiu e retorna porque um objeto disparou um filme. Por que guardamos coisas sem valor? Talvez porque sustentem títulos antigos que nos explicam. Talvez porque sejam a certidão do dia em que aprendemos a renomear.
Quem canta, seus males espanta
Não seria a arte justamente isso? A coragem de oferecer palavra nova ao que parecia condenado ao silêncio? Quando o poeta troca um termo. Quando o compositor muda a tonalidade. Quando a costureira vira o tecido do avesso para aproveitar o que ninguém via. É o mesmo gesto de Jandira ao aceitar que sua presença coubesse agora no descanso de uma tarde. A mudança não apaga. A mudança preserva.
Hoje, quando a rua ficar cor de mel e o barulho baixar, tente ouvir a sua canção. Talvez ainda tenha o nome de antes. Talvez peça outra roupa. Não se apresse. Caminhe com a memória como quem passeia com o pai às margens do Rio Paraibuna e onde árvores e postes servem de enfeite. Eita saudade. Deixe que as coisas falem no seu tempo. Se algum acorde soar áspero, agradeça. O mundo seria insuportável sem o sinal de que somos de carne.
E se a saudade apertar, faça o que aprendemos nos lares com pouco de tudo e muito de calor. Cante. Cante com o desafino necessário para que a vida entenda que você está por perto. Se faltar título, aceite a delicadeza do anoitecer que não anuncia fim, só mudança. Quase tudo que nos sustenta tem o sabor de um doce crepúsculo e voz de uma Jandira na alma e coração.