O Oscar nos instiga a reflexões. Toda sociedade tem seus heróis invisíveis. Na educação, vimos recentemente a professora Débora; na saúde, a pesquisadora Tatiana; na arte, Wagner Moura e diversos outros estão no entorno de mais um filme brasileiro indicado ao Oscar, que esteve próximo de ser premiado em 15 de março.
Eles não vestem capas, nem sempre aparecem nas manchetes e raramente recebem aplausos. O caso de filmes e atores indicados ao Oscar é uma exceção nesse sentido. Ainda assim, esses heróis dedicam suas vidas a trabalhos nas mais diversas áreas.
Em 15 de março, o mundo voltou seus olhos para a cerimônia do Oscar, a mais famosa premiação do cinema. No tapete vermelho, artistas celebram histórias capazes de emocionar milhões de pessoas. Entre os filmes que despertaram curiosidade esteve “O Agente Secreto”, título brasileiro com quatro indicações, que evoca imediatamente a imagem clássica de agir silenciosamente: alguém que atua com inteligência, estratégia e forte compromisso com uma missão que faz a vida valer a pena.
“O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura, é um suspense ambientado no Recife de 1977, durante a Ditadura Militar brasileira. A trama acompanha Marcelo (Wagner Moura), um ex-professor que tenta fugir de um passado violento e recomeçar sua vida de forma discreta.
Já fora das telas do cinema, há personagens reais que também desempenham papéis discretos, silenciosos e decisivos para o funcionamento da sociedade.
A professora brasileira Débora Garofalo foi eleita a educadora mais influente do mundo, recebendo, em fevereiro de 2026, o prêmio Global Teacher Influencer of the Year, concedido pela Varkey Foundation, em Dubai. Reconhecida por seu projeto “Robótica com Sucata”, há anos dedica seus dias a transformar materiais descartados em protótipos funcionais com alunos da rede pública, promovendo sustentabilidade, inovação e consciência cidadã.
Cientistas da UFRJ, liderados pela Dra. Tatiana Sampaio, desenvolveram a polilaminina, uma rede de proteínas promissora para tratar paralisia por lesão medular, com resultados que devolveram mobilidade a diversas pessoas por meio da pesquisa pública. O tratamento regenera neurônios, permitindo a recuperação de movimentos, com estudos clínicos autorizados pela Anvisa e resultados preliminares que mostram pacientes tetraplégicos recuperando movimentos.
Outro agente secreto são os Auditores e Auditoras Fiscais. Assim como a professora Débora e a cientista Tatiana, o Auditor Fiscal trabalha longe dos holofotes, com o propósito de transformar vidas. Seu cotidiano nem sempre envolve perseguições cinematográficas, gadgets sofisticados ou operações famosas, mas o resultado de seu trabalho gera recursos para políticas públicas, inclusive como aquelas desenvolvidas por Débora, Tatiana e pelas produções culturais. Isso ocorre porque Auditores e Auditoras Fiscais têm como missão garantir que as regras fiscais e tributárias sejam cumpridas e que os recursos que pertencem à coletividade cheguem, a tempo e modo, aos cofres públicos.
Pode parecer um trabalho burocrático à primeira vista, e até inconveniente para quem paga imposto. Mas, na verdade, trata-se de uma tarefa fundamental, tanto que a própria Constituição a definiu como essencial ao funcionamento do Estado. É uma atividade profundamente ligada à cidadania fiscal e à dignidade da pessoa humana.
O imposto, quando corretamente pensado nas políticas fiscais e tributárias e arrecadado com vigilância e controle, representa as condições para financiar políticas públicas que impactam diretamente a vida das pessoas: da educação que forma cidadãos à saúde que salva vidas, da segurança pública à infraestrutura que move a economia, inclusive com a promoção de uma concorrência leal.
Quando a política fiscal e tributária não é a mais adequada, quem pode mais em termos de riqueza e renda não é quem paga mais, sobrecarregando indevidamente algumas pessoas e gerando desigualdades. Quando a sonegação prospera, a sociedade perde recursos essenciais e a concorrência desleal impacta negativamente os negócios. Menos recursos significam menos investimentos, menos serviços públicos e mais desigualdade. Nesse cenário, o Auditor e a Auditora Fiscal atuam como guardiões silenciosos do interesse público e do bem-estar social.
Há algo de simbólico nessa comparação com o universo dos filmes, em especial “O Agente Secreto”. O agente secreto da ficção tem seus correspondentes no mundo real. O Auditor e a Auditora Fiscal protegem a sociedade de um inimigo pouco visível, mas altamente prejudicial: a erosão dos recursos públicos causada pela fraude, pela evasão fiscal e até por propostas equivocadas de política fiscal e tributária.
Os agentes secretos compartilham uma característica fundamental: a discrição. Assim também é o Auditor Fiscal. Quando cumprem bem sua missão, quase ninguém percebe. Não há medalhas, trilhas sonoras épicas ou cenas finais em câmera lenta. Há apenas o resultado concreto de um trabalho que permite que o Estado funcione e que políticas públicas cheguem a quem precisa — ainda que exista uma etapa política de alocação dos recursos, na qual a sociedade precisa participar e lutar por um orçamento que atenda às reais necessidades sociais.
Vale a pena olhar para além da ficção quando pensamos em heróis contemporâneos. Enquanto o Oscar celebra histórias que nos fazem sonhar e emocionar, a vida real continua sendo escrita por profissionais que, todos os dias, defendem o interesse coletivo com dedicação, responsabilidade e solidariedade.
A maioria dos “agentes secretos” da sociedade brasileira não aparece nas telas do cinema. Muitos estão na educação, na saúde e na auditoria fiscal, analisando dados, investigando inconsistências, aplicando a lei e garantindo que aquilo que é de todos — o imposto — de fato seja usado para todos, promovendo o interesse público.
O grande premiado do Oscar foi o filme “Uma batalha após a outra”, título que retrata bem a vida de nossos heróis anônimos. Parabéns a Débora Garofalo, Tatiana Sampaio e às Auditoras e aos Auditores Fiscais, todos verdadeiros agentes secretos e merecedores de concorrer ao Oscar em suas áreas de atuação.