O Brasil é um país que, às vezes, parece condenado a reviver a própria história. De tempos em tempos, atravessamos ciclos que se repetem com surpreendente semelhança — quase como um processo natural de ruminação institucional, no qual velhas questões retornam para serem reprocessadas antes de seguirmos adiante.
Esse padrão se reflete em momentos-chave de nossa trajetória, como a Revolução de 1930, que remodelou as estruturas de poder. Trinta anos depois, em 1964, o regime militar redefiniu os rumos políticos e institucionais do país. Trinta anos mais tarde, em 1985, iniciamos a redemocratização, restaurando liberdades e redesenhando instituições. Agora, passadas mais de três décadas da Constituição de 1988, sentimos novamente o peso de novas tensões — e a necessidade de um novo debate institucional.
A história brasileira revela esse padrão cíclico: em média, a cada três décadas, atravessamos momentos de grande tensão ou renovação institucional. Da Proclamação da República em 1889, passando pela Revolução de 1930, pelo Golpe Militar de 1964, pela Redemocratização de 1985, até chegar às crises de representatividade que se intensificaram a partir de 2013, cada período trouxe consigo desafios e avanços que moldaram o país.
Esses ciclos mostram avanços concretos e importantes para a sociedade brasileira. O PIB per capita cresceu significativamente ao longo do século XX, especialmente após os anos 1950 e 1960, refletindo maior industrialização e desenvolvimento econômico. A pobreza, embora ainda presente, recuou sensivelmente, sobretudo a partir das políticas sociais das últimas décadas, atingindo os menores níveis históricos em 2014. Na educação, saímos de um cenário em que menos de um quinto da população era alfabetizada no início do século passado para uma realidade atual onde mais de 90% dos brasileiros sabem ler e escrever.
Ao observarmos esses dados, fica claro que, apesar de desafios e retrocessos, o Brasil avança — e esse avanço é construído de forma gradual, fruto de políticas públicas, debates sociais e transformações econômicas. Esse processo exige mais do que paciência: exige maturidade institucional e disposição para o diálogo.
Outro fenômeno que atravessa nossa história é o pêndulo político. Como um relógio antigo, que oscila de um lado para o outro, o pêndulo representa o movimento entre lideranças mais conservadoras e mais progressistas. A questão fundamental, no entanto, é a velocidade dessa mudança. Quanto mais rápida e dinâmica for a alternância entre ideias e visões, maior será nossa capacidade de evolução. O dinamismo da sociedade, o diálogo aberto e o intenso debate de ideias são essenciais para acelerar esse processo de transformação.
E esse movimento só acontece plenamente quando há aceitação da essência do processo democrático. Em uma sociedade com traços autocráticos ainda presentes em sua cultura política, a resistência ao dissenso e ao contraditório pode paralisar esse pêndulo, dificultando as mudanças necessárias. Acomodar-se, ou se fechar em torno de visões únicas, é o segredo para estagnar e impedir o avanço, especialmente em tempos de descrença generalizada.
Vivemos hoje, no Brasil e no mundo, um momento de tensões e conflitos acentuados, em que o diálogo e a busca pelo entendimento parecem cada vez mais desafiadores.
Lembro que, na época da pandemia, um amigo me perguntou: “Lucas, o que você acha que vai acontecer depois da Covid-19?” Olhei para ele e respondi: “Ou o mundo vai se tornar mais egoísta, ou as pessoas vão desenvolver maior compaixão.” Infelizmente, o que temos visto em muitos casos é a prevalência do egoísmo, do olhar apenas para si — quando, na verdade, é justamente a capacidade de diálogo, respeito, ponderação e empatia que pode nos ajudar a atravessar crises e construir soluções duradouras.
Tanto nos momentos de maior polarização quanto nos períodos de maior pragmatismo, existem avanços e aprendizados. São movimentos que, embora nem sempre lineares, permitem que o país amadureça, ajuste suas rotas e siga construindo instituições mais fortes.
Essa é uma lição silenciosa do passado: transformações duradouras nascem do movimento contínuo entre visões distintas, da coragem, do diálogo e da disposição de aprender com cada ciclo. E o cenário atual, com seus desafios institucionais e tensões crescentes, só reforça a necessidade de mantermos essa postura de escuta, aprendizado e construção conjunta — para que possamos enfrentar o presente com a mesma coragem com que superamos o passado.
É exatamente por isso que a alternância de poder e de ideias se revela tão importante. O instituto da reeleição, por exemplo, pode representar um obstáculo ao nosso desenvolvimento e maturidade democrática, limitando a renovação e a necessária oxigenação das lideranças e ideias.
Mais importante do que apenas lembrar dos ciclos, precisamos aprender com o passado para evitar repetir os mesmos erros. São esses erros recorrentes que continuam fazendo o país perder tempo em sua evolução, desenvolvimento econômico, redução da pobreza, geração de oportunidades e na construção de um caminho mais sólido e positivo. Estamos hoje diante de uma realidade complexa, enfrentando crises econômicas e sociais, somadas a um ambiente de constantes inseguranças jurídicas e institucionais. Os conflitos entre Poderes, disputas políticas e as sucessivas brigas institucionais têm corroído a confiança pública e minado a estabilidade necessária para o desenvolvimento. Escândalos de corrupção e desvios na administração pública apenas ampliam esse cenário de descrédito generalizado.
Contudo, é preciso lembrar que a democracia e a política, com todas as suas contradições, continuam sendo a principal ferramenta de transformação. É por meio dela que conseguimos dar forma às mudanças reais e, mais do que isso, reacender a confiança no futuro.
Com isso, reforço que a alternância de poder e de ideias é fundamental para o amadurecimento institucional e democrático. Essa alternância vai além de mudanças de governo ou partidos, exige a criação de espaços para novas ideias, propostas e lideranças comprometidas em construir pontes e ampliar o diálogo. É essa combinação de maturidade política com ousadia inovadora que nos permite avançar como sociedade.
Portanto, convido todos a não apenas lembrar dos erros do passado, mas a agir com inteligência e coragem para não repeti-los. Com as eleições de 2026 no horizonte, é fundamental lembrar que a polarização excessiva tem aprofundado divisões, dificultado consensos e travado o avanço de reformas importantes para o país. Basta olhar para o nosso momento atual — um ambiente marcado pela dificuldade de governabilidade do poder executivo, por um Congresso travado por disputas políticas ideológicas, pela dificuldade de aprovação de pautas essenciais e pela necessidade de enfrentar temas estruturais, como o fim dos privilégios e salários desproporcionais no serviço público, além da necessária discussão sobre um possível parlamentarismo. Esse cenário só poderá ser superado com diálogo genuíno, abertura ao entendimento mútuo e uma reforma política.
O caminho, sabemos, não é simples. O Brasil nunca avançou por soluções fáceis ou consensos imediatos — e nem será diferente agora. Mas é justamente por isso que precisamos reafirmar nossa confiança no diálogo, na política e na capacidade de evoluir como sociedade. O passado já mostrou que somos capazes de construir, superar crises e seguir em frente. Que a maturidade da nossa democracia e o respeito às diferenças falem sempre mais alto do que as vozes que nos dividem. Cabe a nós não desperdiçar mais uma oportunidade.