Andei por inúmeros destinos turísticos em Minas Gerais nos últimos seis anos. Estradas, aeroportos, pousadas familiares, hotéis de rede, casas de temporada. Em todos eles, uma constatação se repetiu: crescemos em fluxo, em visibilidade, em eventos — mas ainda devemos um salto de qualidade na forma de receber. O turismo não é, em primeiro lugar, sobre quem viaja; é sobre quem recebe. Sobre a inteligência, o cuidado e o padrão de hospitalidade que um território é capaz de oferecer.
O viajante contemporâneo não quer apenas “um lugar para dormir”. Ele busca descanso verdadeiro, saúde, sentido e coerência entre o que consome e o que acredita. Pesquisas recentes em hospitalidade mostram que a qualidade do sono é um dos determinantes centrais da satisfação com o hotel: desconforto com roupa de cama, travesseiros ou ruído externo está diretamente associado à pior qualidade de sono, e a satisfação com o sono é forte preditor da satisfação geral com a hospedagem. Um estudo com dezenas de milhares de hóspedes na América do Norte revela que menos de 30% relatam ter dormido “melhor do que o esperado” em hotéis — ou seja, a maioria das hospedagens falha exatamente naquilo que deveria ser o básico: descansar.
Ao mesmo tempo, pesquisas com viajantes indicam que 65% consideram a qualidade do colchão um fator crítico na avaliação da estadia, enquanto redes hoteleiras europeias apontam que cerca de um terço dos hóspedes cita colchão e enxoval como prioridade absoluta para se sentir bem acolhido. A cama, portanto, deixou de ser um item de compra por atacado e tornou-se equipamento estratégico. Colchão adequado, lençóis agradáveis ao toque, travesseiros de diferentes densidades, boa acústica e controle simples de luz e temperatura compõem hoje a infraestrutura mínima da hospitalidade qualificada.
A luz de leitura, muitas vezes negligenciada, é um símbolo silencioso de delicadeza. Uma luminária bem posicionada e regulável diz ao hóspede que ele pode ler, trabalhar ou apenas se recolher sem ser obrigado a acender a claridade geral do quarto. É a tradução de um princípio simples: conforto funcional é respeito ao tempo do outro. Quando o corpo não descansa, o destino inteiro perde.
O café da manhã, por sua vez, deixou de ser coadjuvante e se tornou protagonista da reputação dos meios de hospedagem. Estudos sobre comentários on-line mostram que o tema “breakfast” aparece com enorme frequência nas avaliações e está diretamente ligado à intenção de retorno e recomendação do hotel. Pesquisas recentes demonstram que um café da manhã local e tradicional aumenta a percepção de autenticidade e eleva a disposição dos hóspedes em permanecer mais tempo no hotel e consumir outros serviços.
Isso é particularmente relevante em um estado como Minas. Em vez de insistir no “café continental” genérico, temos a possibilidade de oferecer queijos artesanais, pães de fermentação natural, frutas da estação, bolos e quitandas que traduzem o território em forma de sabor. Ao mesmo tempo, o hóspede contemporâneo espera encontrar, lado a lado com a tradição, opções alinhadas às tendências de saúde: preparações fitness, itens integrais, alternativas sem glúten ou sem lactose e opções plant based. Essa combinação entre memória afetiva e cuidado contemporâneo com o corpo é, hoje, um dos diferenciais mais poderosos que a hotelaria pode oferecer.
Essas mudanças não são pontuais, são estruturais. A chamada economia do bem-estar atingiu cerca de US$ 6,3 trilhões em 2023, o equivalente a pouco mais de 6% do PIB global, tornando-se maior do que setores como tecnologia da informação ou esportes. Dentro dela, o turismo de bem-estar corresponde a cerca de US$ 830 bilhões em gastos em 2023, representando apenas 7,8% das viagens, mas quase 18% de todo o gasto turístico mundial, com viajantes que desembolsam, em média, 41% a mais por viagem internacional que o turista comum. Trata-se de um público disposto a pagar mais por silêncio, natureza, sono reparador, alimentação saudável e experiências coerentes com a ideia de cuidado integral.
Em paralelo, a sustentabilidade deixou de ser discurso de marketing para se tornar critério de escolha. Relatórios sucessivos das grandes plataformas de reserva indicam que entre 75% e 83% dos viajantes globais consideram importante viajar de forma mais sustentável, e cerca de 75% afirmam querer adotar práticas mais sustentáveis nas suas viagens nos próximos 12 meses. Isso inclui desde o desejo por acomodações com certificações ambientais até atitudes corriqueiras, como reutilizar toalhas, reduzir o uso de ar-condicionado e preferir alimentos locais. A coerência entre o discurso “verde” do destino e a prática concreta na hotelaria passou a ser observada e comentada.
Tudo isso reforça uma tese: o centro da experiência turística migrou para a qualidade da acolhida. Estudos com avaliações de hóspedes mostram que atributos ligados ao quarto — conforto, limpeza, qualidade do sono — e ao serviço são decisivos para a satisfação geral e para a percepção de valor. Em outras palavras, não basta ter paisagens bonitas, patrimônio histórico ou eventos: se a cama é ruim, se o travesseiro é desconfortável, se a iluminação é inadequada, se o café é pobre ou genérico, o destino perde competitividade, ainda que de forma silenciosa.
Minas Gerais possui uma vantagem comparativa que o mundo não compra em catálogo: a vocação histórica para acolher. O sorriso na entrada, o café passado na hora, a conversa despretensiosa, o gesto de arrumar a mesa como quem prepara um pequeno altar doméstico. O desafio, agora, é transformar essa vocação em padrão de qualidade — sem perder a alma. Profissionalizar a hospitalidade não é torná-la fria; é organizar processos, qualificar equipes, definir investimentos prioritários (colchões, enxoval, iluminação, acústica, cardápios) e alinhar tudo isso às grandes tendências globais de bem-estar e sustentabilidade.
Costumo dizer que, no século XXI, infraestrutura não basta; é preciso investir também em “infraafetividade”. Rodovias, aeroportos e centros de convenções são fundamentais, mas o que permanece na memória do visitante é a experiência de ser recebido: a qualidade do sono, o cuidado no café, a gentileza no atendimento, a sensação de pertencer por alguns dias àquela cidade. É essa combinação de estrutura e afeto que transforma um destino em lugar desejado, recomendado, revisitado.
Se Minas quiser consolidar-se como referência em turismo cultural, de natureza, de bem-estar e de criatividade, precisará olhar com mais atenção para as camas, os travesseiros, as luzes de leitura, os cafés da manhã e os pequenos gestos de cuidado. Os números mostram que o viajante já mudou; cabe a nós, que recebemos, acompanhar essa mudança com inteligência e sensibilidade.
Porque, no fim, o turismo nunca foi apenas sobre deslocamento. É, sobretudo, sobre o encontro — e sobre a dignidade com que recebemos quem chega.