Com o sistema de produção operando muito próximo do limite e a redução de investimentos pela transição energética que o mundo atravessa, a equação do mercado mudou. A Guerra no Oriente Médio intensificou esse processo
Jornalista não é um bicho muito normal. Ainda mais quando gosta de política internacional em tempos de guerra. A gente gasta o pouco tempo livre que tem lendo centenas de linhas de artigos de análise e vendo lives com temas exóticos na tentativa de entender ou de ficar menos confuso com a bagunça que o mundo atravessa.
Aconteceu comigo na semana passada. O jogo do meu time de coração ficou em segundo plano. Abri mão do chopinho semanal com os amigos… e o esperado fim da série que eu estava assistindo já na quinta temporada teve de esperar um pouco mais. Tudo isso porque fiquei curioso com uma live de dois especialistas americanos sobre o mercado do petróleo em meio à guerra EUA- Israel X Irã.
No fim, eles não fizeram revelações bombásticas. Mas não me arrependi. Primeiro, saciei minha curiosidade. Depois, recebi uma visão um pouco mais ampla do movimento de preços mercado internacional de energia que, no fim das contas, é o que de fato determinará quando a atual guerra no Oriente Médio vai terminar, ainda mais em ano de eleições para o Congresso americano.
Na visão dos analistas, o mercado de petróleo e gás passa por uma mudança silenciosa, porém profunda: o que move os preços já não é mais apenas a oferta — mas o risco. Durante décadas, a lógica era direta. Faltava petróleo, o preço subia. Foi assim na crise de 1973 e de 1979.
Hoje, não é preciso faltar. Basta a possibilidade de desabastecimento para trazer volatilidade de preços ao mercado. Em um sistema mais apertado e com menos margem de erro, a simples expectativa de escassez passou a ter tanto peso quanto a escassez real.
Hoje, o mecanismo é diferente — e mais sensível. Na prática, ainda não há um problema de oferta de petróleo, mas a folga desapareceu. E um mercado com pouca margem de manobra reage de outra forma: ele se antecipa.
Três movimentos
Esta perda de margem não aconteceu por acaso. Ela é resultado de três movimentos que ocorreram ao mesmo tempo — e que se intercalam. Houve anos de subinvestimento em petróleo e gás, impulsionados tanto por ciclos de preços quanto pela pressão da transição energética. A capacidade ociosa dos grandes produtores diminuiu, reduzindo a possibilidade de resposta rápida a choques. E, ao mesmo tempo, o mundo entrou em uma transição energética incompleta: passou a investir menos no sistema atual antes de ter um novo sistema capaz de substituí-lo.
Essa fragilidade fica mais clara quando se olha para os números. O mundo produz hoje pouco mais de 100 milhões de barris de petróleo por dia, um volume ainda suficiente para atender a necessidade de consumo mundial. Mas a capacidade ociosa — concentrada em poucos países, especialmente na Arábia Saudita — gira em torno de apenas de 3 a 5 milhões de barris diários. Em um sistema dessa escala, isso significa operar muito próximo do limite.
Ao mesmo tempo, os amortecedores do sistema estão mais frágeis. Nos Estados Unidos, a Strategic Petroleum Reserve — principal reserva emergencial do mundo — caiu de mais de 600 milhões para cerca de 350 milhões de barris após as liberações recentes por conta da interminável guerra entre Rússia e Ucrânia. Embora haja uma recomposição em curso, os níveis seguem abaixo do padrão histórico. O estoque já foi parcialmente utilizado — e ainda não foi totalmente reconstruído.
Do lado da demanda, a pressão não diminuiu. O consumo global continua crescendo, impulsionado principalmente por economias asiáticas, o que mantém o sistema tensionado mesmo fora de períodos de crise.
Resposta limitada
É verdade que todo mercado precifica risco — não há novidade nisso. A diferença, no caso da energia, está no peso que esse risco passou a ter. Em outros mercados, a expectativa é absorvida por sistemas com liquidez e capacidade de ajuste rápido. No petróleo, não. A oferta não reage no curto prazo, a logística é rígida e a capacidade de resposta é limitada.
Em um ambiente assim, o risco não é só uma variável entre outras; é o que move o mercado. Ele deixou de ser apenas um fator externo e passou a ser incorporado ao preço.
É nesse ponto que a geopolítica deixa de ser o pano de fundo e passa a ser o próprio motor do mercado. A continuidade da guerra, especialmente se vier acompanhada de ataques a infraestrutura energética, não é apenas mais um fator de instabilidade — é o tipo de evento capaz de transformar risco em choque real. É por este motivo que as altas se têm se tornado mais frequentes e mais rápidas.
A questão que todos se fazem no momento é qual o tamanho do risco que Donald Trump ainda está disposto a tomar para o restante do seu mandato e qual o preço que ele pretende pagar em nome de uma vitória que a cada dia fica mais difícil de definir. Enquanto isso não ficar claro, a tendência é de o mundo continuar assistindo a altas de preços e com patamares difíceis de se prever.
Feitas estas reflexões, me deem licença que agora tenho uma série para terminar de assistir no meu streaming, já que o jogo do meu tricolor não volta mais e, muito menos, a companhia dos meus amigos em volta da mesa de bar. Mas vou abrir uma gelada logo depois de terminar essas linhas e de ligar a televisão. Quem sabe assim eu volte a me sentir um ser normal novamente.