A verdade que o mundo finalmente reconhece

Foto: Pesquisa Fapesp / Wikimedia Common

Receber a notícia de que a Organização das Nações Unidas declarou oficialmente a escravidão como o maior crime da humanidade despertou em mim uma emoção profunda. Não foi apenas alegria. Foi a sensação de ver a história sendo tratada com a seriedade que sempre mereceu. Foi como se, finalmente, o mundo tivesse encontrado coragem para dizer aquilo que nós, que trabalhamos diariamente com políticas de igualdade racial, repetimos há anos: nenhum outro crime marcou tanto a existência humana quanto a escravização de africanos e seus descendentes.

Falo como Juvenal Araújo — alguém que dedicou grande parte da vida pública a essa pauta, e que hoje continua essa missão como Subsecretário de Direitos Humanos e Igualdade Racial do Distrito Federal. Falo como quem conhece de perto as feridas históricas que ainda moldam oportunidades, trajetórias e realidades no Brasil.

A decisão da ONU não devolve vidas, culturas ou identidades arrancadas pela violência da escravidão. Mas ela representa algo poderoso: o mundo reconhece, oficialmente, a grandiosidade do crime que sustentou desigualdades que ainda atravessam séculos. Um reconhecimento necessário, urgente e que reforça nosso dever moral de agir.

Quando estive à frente da Secretaria Nacional de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), vivi algumas das batalhas mais relevantes da minha trajetória. Trabalhei para fortalecer a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, ampliando o uso do quesito raça/cor em todos os sistemas do SUS — ferramenta fundamental para revelar desigualdades que, por muito tempo, ficaram invisíveis nas estatísticas.

Participei da construção da Portaria Normativa nº 4/2018, que regulamentou o procedimento de heteroidentificação em concursos públicos federais, trazendo mais justiça às ações afirmativas e protegendo candidatos negros de fraudes que feriam o espírito da política. Organizei a IV Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, reunindo representantes de todo o país para debater caminhos concretos para reduzir desigualdades estruturais. Coordenamos também o “Kit de Promoção da Igualdade Racial”, levando estrutura, veículos e equipamentos a estados e municípios que nunca haviam recebido investimentos nessa pauta. E representamos o Brasil em reuniões internacionais, levando a visão brasileira para o debate global sobre igualdade racial.

Esses feitos nunca foram apenas políticas governamentais. Foram ferramentas para corrigir, com a força do Estado, parte dos danos de um crime que marcou a história de milhões de famílias. Porque a escravidão não terminou com a assinatura de uma lei. Seus efeitos continuam vivos na desigualdade de renda, na violência, no acesso à educação, na saúde, na representação política e no próprio imaginário social do país.

Por isso, quando a ONU dá esse passo e declara explicitamente que a escravidão foi o maior crime da humanidade, não estamos diante de uma formalidade. Estamos diante de uma declaração que obriga o mundo a olhar para si, para suas práticas, seus preconceitos, suas estruturas e suas escolhas.

Hoje, atuando como Subsecretário de Direitos Humanos e Igualdade Racial do DF, sigo firme na mesma missão que guiou toda a minha trajetória: garantir dignidade, respeito e oportunidades reais para a população negra, enfrentando o racismo não com discursos vazios, mas com políticas públicas efetivas, ações concretas e olhar humano.

Esse marco da ONU fortalece o trabalho diário que realizamos, reforça a importância das políticas de igualdade racial e nos lembra de que não há país verdadeiramente desenvolvido enquanto parte da sua população precisar lutar dobrado para existir. Essa resolução não é sobre passado. É sobre presente e futuro. É sobre reconhecer que só existe progresso quando todos têm condições reais de viver com liberdade, segurança e justiça.

Sigo acreditando no Brasil que podemos construir. Um Brasil que entende que combater o racismo é proteger vidas. Um Brasil que percebe que equidade não é privilégio — é reparação histórica. E um Brasil que, aos poucos, vai assumindo o compromisso de não repetir, esconder ou relativizar as marcas da escravidão.

A decisão da ONU é mais que um capítulo importante na história global. É um chamado. Um lembrete de que a luta por igualdade racial não é uma bandeira política. É uma pauta de humanidade. E enquanto eu tiver voz, continuarei afirmando: a escravidão foi o maior crime da humanidade — e enfrentar suas consequências é a maior responsabilidade do nosso tempo.

Juvenal Araújo - Administrador, Gestor Público e Palestrante. Atual Subsecretário de Direitos Humanos e Igualdade Racial do Distrito Federal, Foi Ministro Interino de Direitos Humanos, Secretário Nacional de Promoção da Igualdade Racial, Secretário Nacional de Políticas para Comunidades Tradicionais, Secretário Nacional de Políticas de Ações Afirmativas, Presidente da Presidência Pro Tempore do Brasil, na IV Reunião de Altas Autoridades sobre os Direitos dos Afrodescendentes (RAFRO).

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