SAF do Galo vive ressaca tardia de 2021

Eu jamais confundo as coisas. Eu xingo o Cuca e os jogadores. Não miro minha raiva em quem não merece
Imagem: TV Galo

De gênio e louco, todo bilionário tem um pouco, ou Elon Musk não seria quem é e não teria se metido na enrascada em que se meteu ao, neófito sonhador, querer brincar de político reformista em meio a tubarões populistas. 

Quando os 4R’s, por mero amor ao Atlético – e eu fui testemunha ocular disso – resolveram assumir a SAF do Galo, na absoluta falta de qualquer proposta que prestasse (não há tantos bilionários malucos no mundo, afinal), celebraram um casamento em que só teriam dissabores e prejuízos. No máximo, com muita sorte e competência, pequenos períodos de prazer e lucro. 

Aliás, foi essa doce ilusão, inesquecível para qualquer atleticano apaixonado – me refiro ao ano mágico de 2021 em que ganhamos tudo -, que os levou ao ato emocionalmente explicável, mas financeiramente inconsequente. Literalmente apaixonados pelo Clube e inebriados pelo sucesso, projetaram – com a maior sinceridade e boa-fé possíveis – anos dourados eternos pela frente. Só que o buraco sempre foi mais embaixo. 

Eu avisei

A todos que conversavam comigo, à época, e que me acompanhavam no portal UAI, eu dizia o mesmo: isso é um barco furado! Não há como manter um clube tão endividado, em um país tão medíocre e instável, e com uma torcida que não aceita mais viver o que viveu nos tempos de Kalil e companhia (cartórios, penhoras, Márcio Mexerica, 6×1 etc.).

Se tudo der muito certo, mas muito certo mesmo, ou seja, ser campeão todos os anos – o que é impossível – e ganhar muito dinheiro, esse pessoal (os Rs) só vai ver a cor do payback (retorno do investimento), na melhor das hipóteses, daqui a uns 25 ou 30 anos”. Muitos de vocês, leitores queridos, são testemunhas dessa minha posição

E foi por isso que sempre tive, tenho e terei o maior respeito e a maior gratidão por esse pessoal que assumiu o Galo em 2020. No fundo no fundo, já que trouxas não são, sempre souberam disso. Sempre souberam que teriam de enfiar as mãos nos bolsos dali em diante. Só não esperavam, creio eu, uma cobrança tão injusta e desleal, seja por parte da torcida ou por parte da imprensa especializada. 

Os resultados são mesmo ruins?

Aos trancos e barrancos, em meio a sangue, suor e lágrimas – e muitas humilhações e decepções -, Atlético, atleticanos e imprensa conviveram, durante décadas, com 99% de fracassos (patrimonial, institucional e administrativo) e 1% de sucesso esportivo: um Campeonato Brasileiro, uma Libertadores, uma Copa do Brasil, duas ou três Conmebol e, o que aliviava bastante, campeonatos mineiros e sacoladas sucessivas nas Marias. Mas nos demais campos, apenas vergonha, falta de estrutura (até campo para treinar nos faltava) e páginas policiais.

Ainda assim, nenhum presidente e nenhuma diretoria sofreram com tanta pancadaria. Talvez Ziza Valadares, que deixou o Clube sob ameaças. O que me leva a crer que, no caso atual, a questão seja muito mais ideológica, política e sinal dos tempos em que vivemos (ódio, polarização, violência, redes sociais virulentas) que esportiva. Afinal, os resultados, em tão pouco tempo, são excepcionais: 

Hexacampeão mineiro, campeão nacional, campeão da Copa do Brasil, campeão da Supercopa, semifinais e finais da Libertadores e da própria Copa do Brasil, reconhecimento do campeonato brasileiro de 1937, Associação sanada, com clubes lindos, sede em reforma, museu e centro de memória em construção, a arena mais moderna do país – ainda que com problemas -, a melhor e maior SAF até hoje, e mais:

Devo, não nego

Uma dívida bilionária impagável, mas que, hoje, está espetada nos CPFs dos caras que estão sendo covardemente amaldiçoados por quem jamais, em tempo algum, meteu a mão no bolso ou destinou um segundo de seu tempo em prol do Atlético. Aliás, muitos dos que atacam os donos da SAF, foram responsáveis diretos, através de gastança irresponsável e roubo do dinheiro do Clube, por essa dívida bilionária impagável. Ou seja: hoje, se o Galo quebrar, há nomes e sobrenomes que irão literalmente pagar o pato.

A entrevista coletiva de Rafael Menin, no sábado, 7, finalmente trouxe o que era necessário trazer – faz tempo! – ao público: sinceridade e lucidez nuas e cruas. Diretas. Papo reto. Ao que parece, a direção da SAF resolveu parar de tratar a torcida como filhos indefesos, que precisam ser poupados de dores e frustrações. E isso é ótimo! Ouvir que o Atlético é um clube potencialmente falido, que só existe porque esses caras resolveram assumir o estrago de terceiros, anteriores a eles, e que a festança de 2021 custará a acontecer novamente, ainda que doa, fará bem aos mimadinhos de redes sociais e cadeiras cativas.

O futebol brasileiro é um antro de incompetência e corrupção, e um jogo de cartas marcadas para favorecer um ou dois clubes. De vez em quando, por conta da imprevisibilidade esportiva e do destino, ou mesmo pela ousadia – sempre temporária – de um bilionário ou outro, que investirá em um elenco matador, um clube irá alçar a glória como o Galo em 2021 e o Botafogo, ano passado. 

Fora, 4Rs?

Mas atenção, para quem ou não se lembra ou vive em Nárnia: São Paulo, Corinthians, Santos e Palmeiras; Fluminense, Flamengo, Vasco e Botafogo são clubes de centros populacionais e financeiros muito maiores que Minas Gerais. E a maioria tem dívidas bem menores que a do Atlético. Além destes, Grêmio, Internacional e Cruzeiro orbitam a mesma “classe social” que a nossa. Sempre foi assim, meus caros! E sempre convivemos com essa dura realidade, mas em condições muito, ou melhor, infinitamente piores, em quaisquer aspectos.

Por isso, parem com esse mimimi idiota de crianças birrentas que não ganharam um smartphone novo, e comportem-se como adultos. Como atleticanos! “Fora, 4 Rs”? Não peçam muito, porque, intuo, aceitariam de bom grado, caso apareça algum outro “imbecil” para assumir o que assumiram. Quem sabe Alexandre Kalil, apenas como exemplo, com toda sua credibilidade, capacidade de gestão, homem unificador e bem-relacionado com o Poder, conta corrente bilionária e cheque especial ilimitado não assume a SAF? Hein?!

Ou, quem sabe, ainda, você, influencer sabichão, que entende tudo e mais um pouco de futebol e finanças, não transforma o CAM em Real Madrid? “Ah, isso quem prometeu foi o Menin”. Foi mesmo. É verdade. Com a maior sinceridade e “ingenuidade”. Pois não foi sua promessa que o levou a ser dono do Atlético. Ao contrário. Foi esse sonho que o motivou. O que o levou a ser dono do Galo, repito, foi a completa ausência de quem topasse manter essa paixão em pé, viva, na série A.

Por fim: o time está uma bosta e eu estou muito puto da vida! Desde o final do ano passado, aliás. Mas jamais confundo as coisas. Eu xingo o Cuca e os jogadores. Não miro minha raiva em quem não merece. Até porque, não desconto minhas frustrações materiais em quem é muito rico.

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