Sebastião Salgado: o clarão do mundo na fotografia do abismo

Foto mostra obra de Sebastião Salgado
Obras de Salgado me acompanham como quem guarda não apenas um gesto de amizade, mas um chamado silencioso à contemplação. Foto: Leônidas Oliveira/Arquivo Pessoal

Tenho duas obras de Sebastião Salgado. Uma delas ganhei em 2010, quando dirigia o Museu Histórico Abílio Barreto, em Belo Horizonte. A outra, recebi de um grande amigo, Afonso Borges. Ambas me acompanham como quem guarda não apenas um gesto de amizade, mas um chamado silencioso à contemplação. Numa delas, indígenas observam o horizonte, entre a mata amazônica e o céu – imagem de vigília e pertença, epifania do humano em comunhão com a Terra. Sempre que passo por ela, tenho a impressão de que não sou eu quem a contempla, mas ela quem me observa.

É essa a natureza da arte de Sebastião Salgado: ela nos vê, nos exige, nos devolve a nós mesmos. Sua morte, há poucos dias, não é um apagamento, mas uma transfiguração. O artista permanece. Vive não só na memória, mas em suas imagens – que são, mais do que registros do mundo, manifestações da alma da humanidade.

A morte de Sebastião Salgado não é um fim. É uma dobra no tempo. Aquele que percorreu os confins da Terra com o olhar de quem busca mais do que paisagens – que procura, na verdade, os limites da dignidade humana – não cessa com a matéria. Como os grandes artistas da história da humanidade, Salgado pertence agora ao domínio do simbólico. E do essencial.

Nascido no solo de Minas Gerais, em Aimorés, à beira do Rio Doce, seu destino não foi apenas o da travessia geográfica. Foi, sobretudo, a travessia ontológica. Abandonando a carreira de economista no centro racional do mundo (Paris), Salgado deslocou-se em direção a uma estética do humano. Munido apenas de uma câmera, fez da luz e da sombra o seu idioma filosófico. E, com ele, compôs uma das mais potentes epopeias visuais de nosso tempo.

A fotografia de Salgado é mais que arte: é revelação. Em suas imagens há o que o filósofo Hans-Georg Gadamer chamaria de “fusão de horizontes” – a verdade se dá ali onde o olhar do artista e o mundo representado se tornam inseparáveis. Não há distância entre o sujeito que fotografa e o objeto retratado: há um pertencimento comum à condição humana. Como nas tragédias gregas, a beleza da imagem se dá pelo drama que carrega. Há pathos em cada centelha de prata.

Em “Trabalhadores”, por exemplo, Salgado se apropria do gesto épico para narrar o esforço dos que constroem civilizações e, ao mesmo tempo, permanecem invisíveis à História. Em “Êxodos”, a estética da peregrinação dos desterrados assume contornos bíblicos. O que se vê ali não é apenas migração – é destinação trágica. Em “Gênesis”, por outro lado, o artista opera o retorno ao sagrado originário. Florestas, montanhas, animais e povos originários reaparecem como hierofanias, na acepção de Mircea Eliade: manifestações do sagrado na realidade sensível, em que o mundo natural não é apenas cenário, mas expressão do divino. Salgado, assim, restitui à Terra sua condição de templo – e à imagem, sua função litúrgica.

Há uma teologia laica em sua obra. O claro-escuro que domina suas composições remete não apenas ao barroco, mas a uma visão agostiniana do mundo: o bem e o mal se entrelaçam, mas a luz é sempre possível. Seus retratados – pobres, trabalhadores, exilados, indígenas – não estão nus de sentido. Pelo contrário: carregam uma dignidade que desafia as estruturas de poder que os invisibilizam. O que há, ali, é o grito silencioso do ser, como o definia Heidegger.

Salgado jamais foi voyeur da miséria. Ele é, como escreveu Susan Sontag, um “testemunho ético”. Sua fotografia não consome o sofrimento alheio como espetáculo. Antes, o resgata de seu esquecimento. Nas palavras de Walter Benjamin, o verdadeiro historiador “dá voz aos mortos e devolve luz ao fragmento”. Salgado é esse historiador da luz.

Mas sua grandeza está também no gesto que transcende a imagem. Com Lélia Wanick Salgado, sua companheira e curadora, fundou o Instituto Terra – onde replantou uma floresta devastada pelo tempo, pela ganância e pela indiferença. Ele viu a ruína do mundo e decidiu cultivar árvores. Há nisso uma ética do cuidado que se inscreve na tradição de Paul Ricoeur: a memória, o luto e a ação como três tempos da responsabilidade humana.

A morte de Salgado, por isso, é paradoxal: porque marca sua entrada definitiva no panteão dos que permanecem. Como Guimarães Rosa, compreendeu que “o sertão está em toda parte”; como Drummond, sabia que “Minas é palavra abissal” – e como os antigos profetas, viu na miséria uma revelação, mas também uma possibilidade.

A mineiridade de Salgado é de outra ordem. Não se trata apenas de origem territorial. Trata-se de uma lente ontológica. Seu olhar era vertical, profundo, essencial. Como as montanhas de Minas, ele não se deixava decifrar de imediato. Era preciso tempo, silêncio, atenção. E o que dali brotava era sempre humano — demasiado humano.

A morte não apaga o artista. Apenas o transforma em legado. E o de Sebastião Salgado será, ainda por muito tempo, bússola moral e estética para um mundo em vertigem. Suas fotografias seguirão como ícones de um tempo em que a imagem ainda podia ser revelação – e não consumo. Em tempos de excesso e banalidade, Salgado nos ensinou a pausa. A escuta. O sagrado da presença.

Descanse em paz, Sebastião. Mas, como na tradição que escapa ao tempo, sua paz será movimento. Porque suas imagens, como os grandes textos, continuarão a nos inquietar. E, mais do que isso, a nos humanizar.

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