Sério, me diga: “O que leva um cara nascido aqui, entre pão de queijo e bar de esquina, com samba e praia de Copacabana, terra de Vinicius e Tom Jobim, a atravessar o oceano para se enfiar numa guerra que não é dele?”
Patriotismo? Não. Ideologia? Duvido.
Na real, ele vai porque não sabe mais o que está fazendo da vida.
Oncotô, proncovô
É isso! A vida dele virou um vazio tão grande, que morrer em combate parece mais emocionante que continuar respirando em paz. Triste? Muito. Mas é o que está acontecendo.
A jornalista Graça Magalhães mandou a real quando chamou essa era de “O país do eu sozinho”. E não adianta dizer que ela estava falando da Alemanha. Essa praga já pegou o mundo inteiro e não respeita passaporte. Tá aqui, batendo ponto entre a gente.
Todo mundo trancado no próprio umbigo. Cada um no seu quadrado, dizendo que está “se descobrindo”, “se encontrando”. Mas se encontrando onde, meu amigo? No feed do Instagram? Na planilha de metas do mês?
Exército de um homem só
A verdade é que a gente está morrendo por dentro e sorrindo por fora, com selfie bonita e legenda feliz, mas desmoronando internamente.
E aí aparece o sujeito que decide virar soldado. Mas ele não quer lutar por causa alguma. Ele quer sentir algo. Nem que seja medo. Dor. A bala zunindo perto da orelha. Qualquer coisa que quebre o tédio de uma vida sem sentido.
É isso que ninguém fala: tem gente indo para a guerra porque não aguenta mais o silêncio da própria casa. A própria existência virou uma prisão sem grades. Uma cela almofadada chamada “liberdade”.
Lar doce lar
Antigamente, a gente queria fazer parte de algo. Família, bairro, igreja, sindicato, torcida. Hoje, não. Hoje a ideia é ser livre, independente, “autêntico”. Mas, no fundo, tá todo mundo morrendo de vontade de pertencer à alguma coisa. De ter um “nós”.
Só que o “nós” dá trabalho. O “nós” exige escuta, cuidado, paciência. Então a galera foge para o “eu”. Só que o “eu”, sozinho, pesa. E pesa muito.
Bergson dizia que a gente perdeu a capacidade de sentir o todo. De intuir. De saborear a vida com calma. Hoje a gente só corre. Só pensa. Só calcula. E vive igual zumbi, esperando alguma coisa acontecer. Ou explodir.
Olhos nos olhos
E o pior? A gente ainda se surpreende com a solidão. Com o desânimo. Com a falta de propósito. Ué, plantou desconexão, vai colher o quê? Abraço?
Então eu pergunto, até sem pudor, tipo Nelson Rodrigues:
– Quando foi que a gente trocou a chance de viver juntos por esse “cada um por si”?
– Quando foi que ser “você mesmo” virou uma desculpa pra não ser de ninguém?
A resposta não está no Google, nem na terapia de R$700,00. A resposta está aí, no seu espelho. E, se olhar bem, talvez você perceba que essa “missão suicida” do outro é só um espelho da sua.