No país de Gerson, Kalil tripudia de lei eleitoral 

Condenado por improbidade administrativa em 1ª instância, Kalil encontra-se com seus direitos políticos suspensos por cinco anos
Kalil promoveu trem da alegria ao Marrocos em 2013
Ex-prefeito apoiou Mauro Tramonte na disputa em BH. Foto: Divulgação / Redes Sociais

Gerson de Oliveira Nunes, o camisa número 8 da fantástica seleção brasileira de 1970, eternizado como o Canhotinha de Ouro, certa vez estrelou uma campanha publicitária de cigarros – sim, houve um tempo em que era permitida propaganda dessa porcaria – e por isso ficou conhecido como uma espécie de caricatura do “carioca ixperto”, que gosta de “levar vantagem em tudo” (o slogan da campanha).

Como o paradoxo do ovo e da galinha, não se sabe quem nasceu primeiro: se o brasileiro ou a “esperteza” que nos arrasta e nos mantém no subdesenvolvimento econômico, social, intelectual e ético. Aliás, apontar o dedo para Dias Toffoli e Alexandre Moraes é fácil. Difícil é se olhar no espelho e reconhecer que, ao próprio modo, oportunidade e tamanho, age-se de forma semelhante.

É sabido que a estrutura estatal brasileira é um antro de Gersons. Aliás, minto. A casta da estrutura estatal brasileira, porque a base e a média são os burros de carga de quem cria as regras e as mantém para o próprio deleite e prazer. Ou todo o aparato operacional e financeiro em torno dos três poderes, nas três esferas, sai de graça? Não, né? E 99,99% de nós sabem – e pagam por – muito bem disso.

Dívidas e CPI

Alexandre Kalil é um velho conhecido de Minas e dos mineiros. Os atleticanos, a despeito da inesquecível Copa Libertadores de 2013, conquistada sob sua gestão, conhecem bem o rastro de dívidas, processos judiciais, má fama, uso do clube em benefício próprio e de familiares e amigos, e uma lista interminável de credores que Kalil deixou. Já os cidadãos da capital mineira… Bem, estes conheceram um prefeito inepto, grosseiro e retrógrado.

Mas não apenas. Conheceram, igualmente, um prefeito que sentou no banco de uma CPI – chamada de CPI do Abuso de Poder – onde se investigou supostas práticas irregulares durante sua gestão como chefe do Executivo de BH. Uma fornecedora, por exemplo, confessou pagar do próprio bolso despesas particulares de Kalil, sendo ressarcida, posteriormente, em dinheiro vivo, entregue por emissários sem a devida contabilidade e declaração à Receita.

A mesma CPI, se não indiciou criminalmente Kalil, em seu relatório final apontou de forma clara e objetiva os prejuízos causados ao Clube Atlético Mineiro por conta das famigeradas contrapartidas de dezenas de milhões de reais espetadas contra os cofres já combalidos do clube, que o ex-mandatário ajudou a estourar. Além disso, foram oficiados órgãos públicos para possíveis providências em desfavor do investigado à época.

Fracassos eleitorais

Politicamente humilhado em 2022, seja pela derrota fragorosa, em primeiro turno, para o governador Romeu Zema (Novo) na disputa pelo Palácio Tiradentes, ou por ter sido literalmente enxotado da campanha presidencial que deu a vitória a Lula, Kalil renovou os votos com o fracasso quando se aboletou na campanha de Mauro Tramonte (Republicanos), em 2024, para a prefeitura de Belo Horizonte.

Tramonte liderava com folga as pesquisas de intenção de voto, mas bastou a chegada de Alexandre Kalil e o tumulto que causou na campanha, com brigas, como com Luísa Barreto, candidata a vice, e o autoritarismo conhecido – do tipo que ameaçou atirar da janela um jornalista do interior durante uma entrevista -, e Tramonte nem sequer alcançou o segundo turno da corrida eleitoral.

Agora Kalil pretende se candidatar a qualquer coisa que lhe retire do ostracismo e do ocaso político e que, de quebra, obviamente, garanta alguns bons milhões de reais de fundo eleitoral. Governador, senador, deputado federal, deputado estadual… síndico de prédio. Dependerá do tamanho de seu isolamento político – se grande, enorme ou gigantesco – e do dinheiro que irá se apropriar para fazer sua campanha.

Esqueceram de mim

Rejeitado pela direita, ignorado pelo centro e mal visto pela esquerda, a Kalil restam alternativas sensacionalistas para tentar aparecer. Se as pesquisas lhe garantem alguma chance de eleição, deve-se exclusivamente ao tal “recall”. Por isso, é imperioso conseguir atenção, nem que seja através de factoides e brigas contra desafetos políticos e esportivos, uma das especialidades do belicoso – Zema diria “beliscoso”.

Nesse sentido, circulou na terça-feira, 17, um vídeo, digamos, ousado do pré-candidato, falando e pedindo voto como candidato, o que, em qualquer legislação eleitoral rígida, se levada a sério e seguida à risca, configuraria, em tese, campanha extemporânea. Mas, no país do jeitinho, em que sempre haverá uma vírgula a socorrer possíveis abusos de ordem jurídica, provavelmente resultará em nada.

Além de uma hipotética campanha eleitoral antecipada – afinal, qual o sentido de afirmar categoricamente que o nome estará nas urnas senão para lançar a própria candidatura? – o sujeito desinforma descaradamente ao afirmar que: “Não tenho processo para não ser candidato”. Bem, uma rápida consulta aos sistemas do Judiciário dirá exatamente o contrário. E mais: hoje, Kalil encontra-se inelegível.

O MP Eleitoral existe?

condenado por improbidade administrativa em decisão de 1ª instância, Kalil encontra-se com seus direitos políticos suspensos por 5 anos. O caso está em recurso no Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), e por isso é mentirosa a afirmação do boquirroto. Ah! Se for me processar por isso – pela terceira vez, aliás -, que ao menos tente encontrar argumentos melhores, do contrário, poderei pedir música no Fantástico.

O Ministério Público Eleitoral precisa agir. Não é adequado um pré-candidato anunciar sua candidatura e pedir votos, utilizando “joguinhos de palavras”, para não caracterizar um possível crime eleitoral. É como aquele animal que ronca e fuça, que cheira a porco, parece porco e tem gosto de porco dizer que não é porco. Que é torresmo! É o tal do “me engana que eu gosto”. E se é assim antes da eleição, imagine depois de – toc, toc, toc – eleito.

Eu sou candidato. Quando vocês forem votar, meu nome vai estar lá. Se você vai votar em mim ou não, isso é livre-arbítrio. Espero que vote, mas todo mundo que está comigo pode ter certeza: o meu nome vai estar na urna no dia da eleição. Os que vão votar em mim podem ir lá votar, e os que não decidiram, que decidam.” Eis aí. Se isso não é pedir voto, então não falo, não ouço e não compreendo português. Que não impere a Lei de Gerson, como quase sempre.

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