Acharam a culpada pelo caos no trânsito do Belvedere: Nova Lima

A prefeitura de Belo Horizonte foi induzida a erro e retrocedeu na realização das obras de alargamento em frente ao BH Shopping
Foto: Reprodução/PBH

Sim. Eu sei. No fim de semana a gente deve esquecer os problemas, o trabalho, se dedicar ao lazer e à família. Mas a internet e sobretudo as redes sociais, hoje, acabam prejudicando a sagrada missão. Principalmente se você é como eu, alguém com o “pavio curto” que, diante injustiças e mentiras , incompetência e desordem, pouco caso e atraso, egoísmo e mesquinhez, arrepia os fios de cabelo – que não tenho – e não foge ao debate.

Recebi, há pouco, trechos da audiência pública sobre o trânsito no Belvedere, realizada na quinta-feira, 3, na Câmara Municipal de Belo Horizonte (CMBH), por iniciativa da excelente vereadora do partido Novo, Fernanda Pereira Altoé. “Tá elogiando a Fernanda por que, hein, Ricardo; votou nela?”. Sim. Votei demais!! E continuarei a votar enquanto ela desempenhar de forma tão capacitada e producente à cidade seu papel de legisladora.

Na boa, chega a causar engulhos. Atenção: respeito incondicionalmente o direito legítimo de qualquer pessoa pensar e opinar o que quiser e bem entender, claro, desde que em acordo com a civilização e as leis. Contudo, opinião é direito e algo individual. Fatos, não. Gostar ou não de torresmo, comer ou não torresmo (por causa da gordura) depende de escolhas pessoais. Mas dizer que torresmo não é porco, e sim galinha, é bem diferente.

Elitismo tosco

Ao ouvir representantes da Associação dos Amigos do Bairro Belvedere, entidade presidida há décadas pelo mesmo grupo que, através de intensa movimentação política foi alterando as leis de uso e ocupação, a fim de transformar o bairro, hoje, em uma aglomerado de condomínios, shoppings, escolas e comércios diversos, culpar o progresso de Nova Lima pelo caos no trânsito, me tirou da serenidade do sábado e me empurrou para este texto.

Estes senhores, todos para lá de bem-sucedidos e abastados, talvez até por questões geracionais, seguem a lógica do provincianismo mais arcaico. Algo como: “a capital somos nós. A elite somos nós. A uma cidadezinha do interior cabe exclusivamente a missão de vir aqui, nos servir, e voltar para seu lugar”. Não, prezados “amigos do Belvedere”. Nova Lima é uma das três cidades mais prósperas do país, e não é à toa, não. Vejam estas palavras:

Nova Lima tem um plano diretor permissivo, que deixou nas últimas décadas fazerem o que bem entendessem naquele lugar. O Vale do Sereno e o Vila da Serra viraram paliteiros de edifícios com 30 andares, cada um com quatro, cinco ou seis vagas de garagem. Jogaram o IPTU para um valor dez vezes menor que o do lado do Belvedere e isso fez com que uma parcela enorme de moradores fosse morar em Nova Lima”. Guenta aí. Não acabou, não. Tem mais:

Visão restrita

E agora Nova Lima quer entregar a conta para BH, obrigando Belo Horizonte a fazer obras para a solução de mobilidade no trânsito. Ora, isso deveria ter sido cobrado de Nova Lima. Cadê as contrapartidas para cada obra que foi feita lá? Fizeram um edifício de 40 andares lá e não houve uma única contrapartida. O edifício tem 2 mil vagas de garagem”. Eis aí. O desenvolvimento de Nova Lima jamais deveria ter ocorrido, não é mesmo? Que ousadia crescer tanto assim.

Bem. Quase todas as palavras acima estão corretas. Quase tudo é fato. A falta de planejamento urbano das grandes cidades e regiões metropolitanas está, sim, na raiz de praticamente todos os males atuais: trânsito, violência, precarização de moradia, falta de serviços públicos como educação e saúde. Porém, culpar apenas um lado e esquecer o próprio quintal é, sim, a meu ver, um tremendo provincianismo elitista. O Poder Público municipal de BH falhou miseravelmente, e isso é fato.

Pior. Desconsidera que gigantesca parte do sucesso comercial do Belvedere se deve justamente a este adensamento do Vila da Serra e Vale do Sereno. São os “paliteiros com 30 andares” que movimentam as lojas, os bares e os restaurantes do Belvedere. E se o IPTU do bairro é acachapante – e é! – reclamem lá na Afonso Pena 1212, e não com a cidade vizinha. Ou então importem o prefeito de Nova Lima, o jovem João Marcelo, pois me parece que “tá dando certo”.

Solução conjunta

Nova Lima não está querendo empurrar nada para Belo Horizonte. Quem quer as obras – também! – são os próprios moradores do Belvedere, que não estão submetidos à vontade de uma única associação, presidida há mais de 25 anos por uma mesma pessoa. Acho que nem Vladimir Putin é tão soberano assim na Rússia, por tanto tempo. Dezenas de milhares de pessoas, presas nos carros, têm direito ao ir e vir. É legítimo.

A prefeitura de Belo Horizonte foi induzida a erro e retrocedeu na realização das obras de alargamento em frente ao BH Shopping. Cabe a todos que se sentirem prejudicados reivindicar o retorno imediato do projeto. Em uma democracia é assim. Aliás, seria muito oportuno, se possível técnica e juridicamente, para fins práticos e políticos no âmbito dos poderes Legislativo e Executivo da capital, uma espécie de “plebiscito”. Traria muita luz ao debate.

Em verdade, seria primordial, inclusive, a participação da Granbel (Associação dos Municípios da Região Metropolitana Belo Horizonte), pois já não existem limites físicos (distanciamentos) entre as cidades da Grande BH, a terceira maior região metropolitana do Brasil, com mais de 5 milhões de habitantes. Que tal começarmos a pensar de forma coletiva, sem preconceitos, sem interesses menores e ao menos tentar resolver esse drama?

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