Marketing não paga a conta

A Cidade Administrativa
A imagem do CEO-governador colide com a realidade de um Estado sem comando na Secretaria da Fazenda. Foto: Gil Leonardi/Imprensa MG

Por anos, o governador Romeu Zema construiu uma imagem cuidadosamente lapidada de gestor eficiente, liberal e avesso à velha política. Esse discurso, porém, começa a ruir quando confrontado com os números, com a desorganização administrativa e, sobretudo, com as escolhas políticas feitas nos bastidores do governo mineiro.

Minas Gerais vive hoje um paradoxo evidente: um governador que vende eficiência, mas abriu mão de mais de R$ 135 bilhões em créditos da Lei Kandir, projeta um déficit orçamentário de R$ 5,5 bilhões para 2026, viu a dívida com a União mais do que dobrar e enfraqueceu sua própria máquina arrecadatória, justamente no momento em que mais precisaria de comando técnico e político.

A importação do fracasso

Uma das decisões mais reveladoras do governo Zema foi buscar, fora de Minas, no vizinho estado do Rio de Janeiro, quadros ligados à equipe econômica que conduziu aquele estado ao colapso fiscal.

Não se trata de coincidência nem de perseguição política. O Rio quebrou, perdeu capacidade de investimento, comprometeu sua previdência e se tornou um laboratório de más práticas fiscais. Importar essa lógica para Minas foi um erro estratégico grave, e hoje os sinais são evidentes.

Incentivos fiscais concedidos sem avaliação rigorosa, desprezo pela máquina de fiscalização e arrecadação, dependência crescente da União e a substituição de uma política de desenvolvimento estruturada por medidas de curto prazo repetem, com assustadora semelhança, o roteiro fluminense.

O escândalo da previdência e o vazio de comando

O episódio mais simbólico desse fracasso foi a exoneração do principal nome da equipe importada do Rio de Janeiro após o escândalo da previdência naquele estado. A tentativa de estancar o desgaste político expôs o improviso do governo mineiro: a Secretaria de Estado de Fazenda ficou, na prática, sem comando.

Formalmente, há um secretário. Politicamente e administrativamente, não. Luiz Cláudio Gomes ocupa o cargo, mas não exerce liderança real, não define rumos nem impõe autoridade. A Secretaria mais estratégica do Estado opera sem direção clara.

A consequência é visível. A SEF-MG, que historicamente foi referência nacional, hoje não consegue sequer reter seus quadros. Auditores Fiscais pedem exoneração de forma recorrente, migrando para outros órgãos mais atrativos e estruturados.

Um retrato do colapso

Os resultados dessa condução são inequívocos:

  • Dívida com a União mais que dobrada durante a gestão Zema.
  • Perdão do principal trunfo financeiro do Estado, os créditos da Lei Kandir.
  • Perda de mais de 200 Auditores Fiscais em pouco mais de um ano.
  • Arrecadação abaixo da meta 2025.
  • Enfraquecimento do combate à sonegação.
  • Ausência de qualquer estratégia fiscal de médio e longo prazo.

Renúncia fiscal sem Estado forte é irresponsabilidade

Ao mesmo tempo em que desmonta sua capacidade arrecadatória, o governo Zema amplia benefícios e renúncias fiscais que devem alcançar cerca de R$ 26 bilhões em 2026. É um valor incompatível com um Estado endividado, deficitário e sem avaliação consistente de retorno econômico.

Aqui, o discurso liberal se revela retórica vazia. Não existe liberalismo sem um Estado minimamente organizado, capaz de regular, fiscalizar e planejar. O que se vê em Minas é o oposto: um governo que abre mão de receitas, perdoa créditos da Lei Kandir e transfere riqueza pública para setores específicos, notadamente a mineração, sem garantir contrapartidas estruturais à sociedade.

O mito do gestor eficiente

Talvez seja esse o ponto mais incômodo para Romeu Zema: fora do campo ideológico e dentro do terreno técnico, seu governo falhou. O gestor eficiente não entrega resultados compatíveis com o marketing que construiu.

A imagem do CEO-governador colide com a realidade de um Estado sem comando na Secretaria da Fazenda, com dívida crescente, dependente da União e repetindo erros que já levaram outro grande estado brasileiro ao colapso.

Em tempo: poucas decisões simbolizam tão bem esse equívoco quanto manter um servidor da Receita Federal gerindo as finanças públicas mineiras. Minas Gerais não é laboratório, nem apêndice de experiências fracassadas.

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