Poucas vozes no Brasil se confundem com um estado, um tempo e uma forma de ser como a de Maria Lúcia Godoy com Minas Gerais. Não pela força do volume ou pela busca do aplauso. Ao contrário: pela contenção, pela contenção. Pela elegância que evita os excessos e prefere as sombras aos holofotes. Pela sobriedade de uma artista que nunca precisou gritar para ser escutada. Maria Lúcia foi o silêncio habitado — e, por isso mesmo, uma das maiores expressões da canção de câmara brasileira e da cultura mineira no século XX.
Ouvi-la era como atravessar um campo de brumas, onde cada palavra surgia nítida e justa, como se tivesse esperado séculos por aquele instante de exatidão. Sua voz de soprano não era apenas um instrumento técnico, mas uma extensão de sua alma. Uma alma que leu Drummond no timbre, que soube de Cecília Meireles no fraseado, que entendeu Villa-Lobos como quem compreende o Brasil. Não por acaso, disse certa vez Radamés Gnattali: “A Maria Lúcia canta como se rezasse. Ou como se fizesse uma oferenda”. E era isso mesmo — cada apresentação sua tinha a solenidade dos antigos cultos, mas sem a rigidez dos rituais: era arte ofertada em estado puro.
Nascida em 1932, em Belo Horizonte, e aluna de nomes como Francisco Valle e William Rego, Maria Lúcia foi formada na tradição do canto lírico, mas escolheu como caminho a canção de câmara. Brilhou em palcos de todo o mundo e construiu uma trajetória admirável na Europa, especialmente na Alemanha, onde morou. Sua carreira é um monumento à escolha estética, à fidelidade a um repertório e a um modo de estar no mundo. Cantou Mignone, Jayme Ovalle, Waldemar Henrique, Guarnieri, Lorenzo Fernandez e tantos outros – sempre com aquele timbre transparente, que não pedia atenção, mas a conquistava.
A escuta que ela exigia era outra: não do entusiasmo ruidoso, mas da atenção íntima. Ela nos ensinava a ouvir como se lê poesia. E, nisso, foi revolucionária. Maria Lúcia ensinou o Brasil a escutar o próprio silêncio, a dar valor ao intervalo, à respiração, à pausa. Em um país que muitas vezes confunde arte com espetáculo, ela foi a presença do recolhimento. No meio do excesso, foi medida. No tempo da pressa, foi demora. Talvez por isso sua arte tenha atravessado gerações e continue viva, mesmo agora, quando sua voz se calou no plano terreno.
Disse certa vez o poeta francês Paul Valéry que “o profundo é a superfície bem tratada”. Nada define melhor a estética de Maria Lúcia Godoy. Ela nunca quis ser profunda: ela era. Sua voz continha a leveza da nuvem, mas também o peso da história. Era suave como o entardecer em Ouro Preto, e densa como os poemas de Alphonsus de Guimaraens. E mesmo quando cantava obras modernistas, como as de Camargo Guarnieri ou Cláudio Santoro, jamais perdia a clareza cristalina da dicção e da emoção.
Com ela, Minas falou ao Brasil. E não com bravatas, mas com beleza. Em tempos de tantos ruídos, a sua ausência nos lembra de tudo que perdemos ao abandonar a escuta. Maria Lúcia foi, como poucas, a síntese de um modo mineiro de fazer arte: com rigor, com leveza, com o sagrado contido no gesto mínimo. Uma mineira que atravessou o mundo, mas que sempre voltou — ou melhor, nunca saiu — dessa dimensão simbólica chamada Minas Gerais.
Hoje, quando as palavras nos sobram e o sentido nos falta, sua arte permanece como um modelo. Não apenas de técnica, mas de conduta. Não só de talento, mas de ética estética. Maria Lúcia Godoy nos ensinou, sobretudo, que há grandeza no recato, força na sutileza e beleza no que não grita. Ela foi nossa catedral sonora, construída não em pedra, mas em silêncio.
Seu legado ultrapassa o repertório que eternizou. Está naquilo que deixou ecoar mesmo depois do fim da música. Porque, como disse Nietzsche, “sem música, a vida seria um erro”. E Maria Lúcia foi o acerto mais harmônico que Minas poderia oferecer ao mundo
A voz que habitou o silêncio: Maria Lúcia Godoy
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Leônidas Oliveira é Arquiteto e Urbanista. Especialista em História da Arte. Mestre em Restauração do Patrimônio Arquitetônico e Urbano na Universidade de Alcalá de Henares, Espanha e RAE, Roma. É PhD em Teoria da Arquitetura pela Universidade de Valladolid, Espanha. Ocupou o cargo de Secretário de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais. É professor da PUCMinas.
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