A tempestade silenciosa: o choque de gerações e o futuro do mercado de trabalho

Foto: Agência Brasil

Confesso que, como gestor de pessoas há quase uma década, já testemunhei muita coisa no ambiente corporativo. Lidar com diferentes gerações no mesmo espaço de trabalho é quase como tentar mesclar um vinil clássico com uma playlist de streaming: às vezes funciona, mas, outras, parece que cada lado está em um universo à parte. A juventude atual, especialmente a Geração Z, me lembra aquele estagiário que chega no primeiro dia com todas as expectativas do mundo, mas sem saber bem por onde começar.

É claro que o potencial deles é inegável, mas, honestamente, vejo que falta algo essencial: direcionamento. Não é culpa deles, diga-se de passagem. Crescer em um mundo onde tudo está a um clique de distância — incluindo respostas prontas e distrações infinitas — não prepara ninguém para o processo de aprender com paciência e persistência. Algumas vezes, ao tentar explicar a importância de atender um prazo ou dar atenção a um detalhe, sinto que estou tentando convencê-los de que existe vida fora das redes sociais. E olha que, aqui entre nós, essa geração é craque em ferramentas digitais, mas parece esquecer que sucesso profissional também exige habilidades “analógicas”, como ouvir um feedback sem levar para o lado pessoal ou colaborar com aquele colega com quem não se simpatiza muito.

Outro dia mesmo, conversando com um jovem talento, ele me disse que queria conquistar o mundo, mas que não via sentido em se esforçar tanto. “Quando você começou, as coisas eram mais fáceis, você não tinha toda essa pressão”, ele argumentou. Tive que rir. Expliquei que, na minha época, não muito distante da dele, não havia atalhos: trabalhávamos duro, muitas vezes sem reconhecimento imediato, e ainda assim conseguimos alcançar nossos sonhos. Foi assim que comprei minha primeira casa, troquei de carro e fiz aquela viagem internacional que parecia impossível. Mas nada disso veio sem esforço e, claro, sem bons exemplos para seguir.

Agora, não me entenda mal. Eu acredito na Geração Z. Sei que, com o direcionamento certo e exemplos inspiradores, eles podem realizar feitos incríveis. Mas também acredito que é nosso papel, como líderes, orientar e, às vezes, mostrar o caminho com firmeza. Afinal, empatia não significa ausência de cobrança. Não é à toa que muitos líderes preferem investir em inteligência artificial, o que eu considero uma solução simplista para um problema que, na verdade, é humano. Jovens não são “difíceis”, eles são inexperientes.

Não posso deixar de mencionar que o trabalho remoto complicou ainda mais as coisas. Por mais que facilite a vida, a falta de interação presencial está roubando algo essencial: o aprendizado pelo exemplo. Lembro-me de como absorvi mais sobre cultura organizacional almoçando com meus colegas e acompanhando reuniões do que lendo qualquer manual interno.

Para manter esses jovens talentos e ajudá-los a alcançar o topo — porque sim, é possível conquistar estabilidade financeira, viajar o mundo e ter sucesso —, precisamos criar ambientes de trabalho que sejam tanto desafiadores quanto acolhedores, onde valores como ética, resiliência e colaboração sejam cultivados. A liderança, por sua vez, precisa ser mais do que um título: precisa inspirar. Afinal, como sempre digo, liderança é como ser um treinador; você não ganha o jogo, mas precisa preparar o time para a vitória.

No final das contas, o que está em jogo não é apenas o choque de gerações, mas a forma como entendemos o trabalho e o sucesso. E, se conseguirmos construir essas pontes, o mercado de trabalho terá não só mais produtividade, mas também mais humanidade.

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