O dissenso das santas: quando Capitu encontra Cassy no século XXI

Quando olhamos para elas, não estamos apenas relendo o século XIX. Estamos, na verdade, tentando entender o século XXI
Ato no Dia Internacional da Mulher
Foto: Agência Brasil

Em tempos de polarizações rasas e julgamentos instantâneos, revisitá-las é quase um ato de resistência intelectual: Capitu, de Dom Casmurro, e Cassy, de A Cabana do Pai Tomás, parecem personagens de um tempo distante – uma da elite patriarcal carioca do século XIX, outra, uma mulher escravizada no sul escravocrata dos Estados Unidos. Mas, quando olhadas com a lupa do presente, tornam-se símbolos inquietantes de uma mesma luta: a da mulher que precisa manipular, silenciar ou dissimular para sobreviver.

Hoje, num mundo que clama por autenticidade, mas ainda pune quem ousa escapar dos papéis pré-estabelecidos, essas duas personagens nos obrigam a fazer uma pausa. O que há, afinal, de errado em jogar com as cartas que nos deram? E mais: quem escreveu as regras desse jogo?

A mulher entre o rótulo e a realidade

Capitu foi julgada por gerações e não por seus atos (que nunca são comprovadamente ilícitos), mas por sua astúcia. Já Cassy, numa situação limite de violência, age com frieza e cálculo para escapar da barbárie. Ambas enfrentam sistemas opressores, o patriarcado, a escravidão que, ironicamente, as culpam por não serem vítimas dóceis.

Hoje, mulheres continuam a enfrentar estruturas que esperam delas docilidade e sacrifício. A executiva, que é chamada de “fria” por liderar com firmeza. A mãe solo, que é acusada de egoísmo por buscar autonomia. A mulher negra, que, como Cassy, carrega não só o peso do racismo estrutural, mas também da hipersexualização e da desumanização histórica. O roteiro ainda é o mesmo – apenas os cenários mudaram.

Narrativas e silenciamentos

Um dos pontos mais perturbadores na história de Capitu é que ela nunca fala por si. Tudo o que sabemos vem de Bentinho, um narrador tomado por ciúmes, ressentimentos e inseguranças. Em tempos de fake news, manipulação de dados e narrativas hegemônicas, isso nos força a uma pergunta fundamental: quantas “Capitus” atuais estão sendo julgadas por histórias que não contaram?

Cassy, por sua vez, é ouvida, sim, mas mediada por Harriet Beecher Stowe, uma autora branca que escrevia contra a escravidão com sensibilidade, mas ainda sob as limitações do seu tempo. Quantas mulheres negras, refugiadas, periféricas, indígenas têm voz própria hoje nos grandes meios? E quando têm, são realmente ouvidas ou apenas instrumentalizadas?

Entre a astúcia e a esperança

O mundo segue exigindo que mulheres sejam resilientes. Mas raramente celebra a inteligência estratégica dessas resistências. Capitu e Cassy não são heroínas puras e talvez seja justamente isso que as torna tão atuais. Não são figuras perfeitas que precisamos para pensar o mundo, mas aquelas que nos revelam suas fissuras, dilemas e contradições.

Há algo de profundamente contemporâneo nessas personagens que não pedem desculpas por sobreviver. Em tempos em que a internet expõe, julga e cancela em segundos, elas nos convidam ao contrário: à escuta cuidadosa, à dúvida como método e à crítica como exercício ético – não como apedrejamento.

Um convite ao dissenso

Capitu não é santa. Cassy tampouco. E talvez seja aí que habite a força dessas mulheres. Em um mundo que ainda deseja as mulheres conformadas, o dissenso pode ser a forma mais alta de dignidade.

Quando olhamos para elas, não estamos apenas relendo o século XIX. Estamos, na verdade, tentando entender o século XXI. E talvez, quem sabe, reescrever, com mais escuta e menos condenação, as histórias das mulheres que vivem e resistem ao nosso lado.

Jorge Berg é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, Conselheiro Benemérito do Clube Atlético Mineiro e Adido Consular Cultural de Luxemburgo em Minas Gerais.

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