A Eterna Juventude dos loucos

Sentir-se com 4.8 é a vingança final contra o tempo, esse tirano demente. É olhar para a certidão de nascimento e dar uma gargalha
O Beijo (1969), de Pablo Picasso

Meus amigos, os jornais de hoje não dão manchete para o que verdadeiramente importa. Falam de economias trôpegas e de políticos de hálito duvidoso, mas silenciam sobre o milagre, o assombro, a epifania que pode brotar de uma simples mensagem de telefone. Confesso-vos, com a alma em frangalhos e o coração aos saltos, que a minha manhã foi salva do tédio por um pingo de luz digital. Uma missiva do meu amigo-irmão, Marco Polo.

Marco Polo, com a sabedoria dos que já não precisam provar nada a ninguém, confidenciou-me, em letras garrafais de sinceridade, que no baile da vida, neste salão de espelhos e mágoas, ele não se sente com seus 8.4 anos. Não, meus caros. Ele, em um arroubo de genialidade que só a intimidade permite, proclamou sua idade anímica: 4.8. E arrematou, o danado: “O baile segue.”

Ora, dizei-me, não é de uma beleza acachapante? Num mundo de velhos precoces, de jovens que já nascem com a ferrugem da amargura na alma, meu amigo-irmão descobre a fórmula da eterna juventude. E não é a juventude dos músculos rijos ou da pele sem mácula. É a juventude do espírito, a única que, no fundo, interessa ao Criador e aos loucos de bom coração como nós.

Imediatamente, como um raio que parte o céu de uma tarde modorrenta, lembrei-me do velho Picasso. O espanhol de olho de touro, que pintava a feiura da vida com uma beleza de cortar os pulsos, sentenciou certa vez: “Leva-se muito tempo para se tornar jovem“. Ah, a sabedoria dos gênios e dos bêbados. É preciso apanhar muito da vida, engolir sapos homéricos, ser traído pelo amigo do peito e amar Capitu para, um dia, quem sabe, alcançar a graça de ser jovem.

Pelos bailes da vida

A juventude cronológica é uma farsa, um engodo para os inocentes. Os rapazes de vinte anos, com seus topetes e suas certezas de isopor, são de uma velhice atroz. Carregam o peso do futuro, a ânsia de provar, a necessidade de ser. São velhos na sua essência, escravos do relógio e da opinião alheia. A verdadeira juventude, essa que meu amigo Marco Polo descobriu aos 8.4, é um estado de graça. É o desapego, a capacidade de rir da própria desgraça, de dançar a valsa da vida com os joelhos trôpegos, mas com a alma de Fred Astaire.

Sentir-se com 4.8 é a vingança final contra o tempo, esse tirano demente. É olhar para a certidão de nascimento e dar uma gargalhada homérica, uma gargalhada de quem sabe que os números são a mais reles das mentiras. É ter a memória dos amores que mataram e das glórias que apodreceram, mas, ainda assim, ter a coragem de pedir mais uma dose, de chamar o garçom e bradar: “Desce outra rodada, que o baile segue.

Aos puritanos de plantão, aos que envelhecem o corpo e a alma em rituais de autopunição, a revelação de Marco Polo soará como um delírio, uma afronta. Bendita afronta. Bendito delírio.

É a prova de que a vida, meus amigos, a “vida como ela é”, só pode ser plenamente vivida pelos que se recusam a envelhecer por dentro. Pelos que, como Picasso, entendem que a juventude não é um ponto de partida, mas uma conquista. E que, para alcançá-la, é preciso viver muito, sofrer muito e, sobretudo, amar muito. Mesmo que, no final, a gente descubra que o amor é, quase sempre, uma sublime forma de canalhice.

Jorge Berg é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, Conselheiro Benemérito do Clube Atlético Mineiro e Adido Consular Cultural de Luxemburgo em Minas Gerais.

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