Minas Gerais tem rosto negro. De cada dez mineiros, pelo menos seis se declaram pretos ou pardos, conforme dados mais recentes do IBGE. Apesar disso, os espaços de decisão política — e especialmente os partidos — seguem sendo ocupados majoritariamente por pessoas não-negras. Isso revela uma contradição grave: uma maioria populacional que ainda é minoria onde se definem as regras do jogo democrático.
A recente decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que determinou a divisão proporcional do fundo eleitoral e do tempo de propaganda entre candidaturas negras e não-negras, é um marco histórico. Ela representa uma política de reparação para corrigir o abismo racial presente na política brasileira. Mas esse avanço também trouxe consigo uma distorção alarmante: a prática de pessoas não-negras que, por oportunismo, passaram a se autodeclarar negras para acessar esses benefícios.
Essa conduta é uma fraude. Não se trata de um erro administrativo — é uma violação ética e moral que fere os princípios da justiça racial. É inaceitável que políticas construídas com base em anos de luta do movimento negro sejam instrumentalizadas por quem jamais viveu o racismo na pele. A falsa autodeclaração racial é um crime contra a democracia e uma sabotagem à possibilidade de transformação real da política brasileira.
Por isso, defendo a criação de comissões de heteroidentificação racial nos processos eleitorais, como já ocorre em concursos públicos e universidades. Essas comissões, formadas por pessoas capacitadas e criteriosamente selecionadas, avaliam se a autodeclaração racial de um candidato condiz com seus traços fenotípicos — cor da pele, tipo de cabelo, traços do rosto. Isso não é racismo reverso, tampouco exclusão: é um mecanismo de proteção para que políticas afirmativas sejam utilizadas por quem realmente viveu os efeitos do racismo estrutural.
Mas é preciso ir além. Os partidos políticos mineiros precisam se perguntar: onde estão as lideranças negras dentro das nossas estruturas? Não basta lançar um ou dois candidatos negros apenas para cumprir cota. É preciso promover uma verdadeira inclusão interna, desde os diretórios municipais e estaduais até as comissões de estratégia, elaboração de programas, formação política e definição de alianças.
E aqui vai um alerta importante: essa pauta não é da esquerda nem da direita. É uma pauta de justiça, de coerência com os princípios democráticos. Não estamos falando de ideologia, mas de realidade social. A população negra é maioria no estado e no país. Logo, ela precisa estar representada em todos os partidos, independentemente do espectro político. O combate ao racismo e a promoção da equidade racial não podem mais ser tratados como bandeiras de um único campo político. Eles são compromissos de qualquer partido que se diga sério, republicano e comprometido com o futuro do Brasil.
Infelizmente, muitos partidos ainda resistem em reconhecer essa realidade. Preferem manter estruturas racistas e elitistas, alimentando a falsa narrativa de que representatividade é secundária ou “politicamente correta demais”. Essa visão atrasada ignora o potencial eleitoral e estratégico que há na base negra da sociedade. Negros e negras votam, militam, constroem pautas, articulam alianças e podem — e devem — estar nas lideranças.
A inclusão de negros na política não deve ser vista como concessão ou favor. É reparação histórica, é inteligência estratégica e é fidelidade ao princípio da representatividade. Quando os partidos deixam de investir em lideranças negras, não apenas perpetuam desigualdades: renunciam à chance de construir uma política mais próxima do povo, mais verdadeira e, portanto, mais forte.
Minas Gerais é um estado historicamente protagonista. Seu peso político nacional exige responsabilidade redobrada com a justiça racial. Que este artigo sirva como um chamado para os dirigentes partidários, parlamentares, lideranças municipais e formadores de opinião: é hora de olhar para dentro, rever práticas, combater fraudes e abrir espaço real para quem sempre esteve do lado de fora.
A democracia brasileira só será plena quando refletir o Brasil real — e o Brasil real é negro.