Minas Gerais é negra: os partidos políticos estão preparados para essa realidade?

Seminário sobre o Estatuto da Igualdade Racial
A democracia brasileira só será plena quando refletir o Brasil real — e o Brasil real é negro. Foto: Willian Dias/ALMG

Minas Gerais tem rosto negro. De cada dez mineiros, pelo menos seis se declaram pretos ou pardos, conforme dados mais recentes do IBGE. Apesar disso, os espaços de decisão política — e especialmente os partidos — seguem sendo ocupados majoritariamente por pessoas não-negras. Isso revela uma contradição grave: uma maioria populacional que ainda é minoria onde se definem as regras do jogo democrático.

A recente decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que determinou a divisão proporcional do fundo eleitoral e do tempo de propaganda entre candidaturas negras e não-negras, é um marco histórico. Ela representa uma política de reparação para corrigir o abismo racial presente na política brasileira. Mas esse avanço também trouxe consigo uma distorção alarmante: a prática de pessoas não-negras que, por oportunismo, passaram a se autodeclarar negras para acessar esses benefícios.

Essa conduta é uma fraude. Não se trata de um erro administrativo — é uma violação ética e moral que fere os princípios da justiça racial. É inaceitável que políticas construídas com base em anos de luta do movimento negro sejam instrumentalizadas por quem jamais viveu o racismo na pele. A falsa autodeclaração racial é um crime contra a democracia e uma sabotagem à possibilidade de transformação real da política brasileira.

Por isso, defendo a criação de comissões de heteroidentificação racial nos processos eleitorais, como já ocorre em concursos públicos e universidades. Essas comissões, formadas por pessoas capacitadas e criteriosamente selecionadas, avaliam se a autodeclaração racial de um candidato condiz com seus traços fenotípicos — cor da pele, tipo de cabelo, traços do rosto. Isso não é racismo reverso, tampouco exclusão: é um mecanismo de proteção para que políticas afirmativas sejam utilizadas por quem realmente viveu os efeitos do racismo estrutural.

Mas é preciso ir além. Os partidos políticos mineiros precisam se perguntar: onde estão as lideranças negras dentro das nossas estruturas? Não basta lançar um ou dois candidatos negros apenas para cumprir cota. É preciso promover uma verdadeira inclusão interna, desde os diretórios municipais e estaduais até as comissões de estratégia, elaboração de programas, formação política e definição de alianças.

E aqui vai um alerta importante: essa pauta não é da esquerda nem da direita. É uma pauta de justiça, de coerência com os princípios democráticos. Não estamos falando de ideologia, mas de realidade social. A população negra é maioria no estado e no país. Logo, ela precisa estar representada em todos os partidos, independentemente do espectro político. O combate ao racismo e a promoção da equidade racial não podem mais ser tratados como bandeiras de um único campo político. Eles são compromissos de qualquer partido que se diga sério, republicano e comprometido com o futuro do Brasil.

Infelizmente, muitos partidos ainda resistem em reconhecer essa realidade. Preferem manter estruturas racistas e elitistas, alimentando a falsa narrativa de que representatividade é secundária ou “politicamente correta demais”. Essa visão atrasada ignora o potencial eleitoral e estratégico que há na base negra da sociedade. Negros e negras votam, militam, constroem pautas, articulam alianças e podem — e devem — estar nas lideranças.

A inclusão de negros na política não deve ser vista como concessão ou favor. É reparação histórica, é inteligência estratégica e é fidelidade ao princípio da representatividade. Quando os partidos deixam de investir em lideranças negras, não apenas perpetuam desigualdades: renunciam à chance de construir uma política mais próxima do povo, mais verdadeira e, portanto, mais forte.

Minas Gerais é um estado historicamente protagonista. Seu peso político nacional exige responsabilidade redobrada com a justiça racial. Que este artigo sirva como um chamado para os dirigentes partidários, parlamentares, lideranças municipais e formadores de opinião: é hora de olhar para dentro, rever práticas, combater fraudes e abrir espaço real para quem sempre esteve do lado de fora.

A democracia brasileira só será plena quando refletir o Brasil real — e o Brasil real é negro.

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