Minas tenta mudança em regra sobre estatais no Propag, mas equipe de Haddad vê BNDES como imprescindível

Interlocutores do governo Zema nutrem esperança por alteração que pode agilizar renegociação da dívida com a União
Romeu Zema e Lula
Governo Lula vê no Propag chance de estados diminuírem dívida. Foto: Gil Leonardi/Imprensa MG

Interlocutores do governo de Minas Gerais acreditam na possibilidade de o Ministério da Fazenda aceitar uma sugestão do vice-governador Mateus Simões (Novo), endossada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), para agilizar os trâmites de adesão ao Programa de Pleno Pagamento das Dívidas dos Estados (Propag). 

A ideia é permitir que os Executivos estaduais interessados em ingressar no plano encaminhem ofertas de federalização de estatais com laudos próprios de avaliação, evitando que a negociação se arraste por mais tempo até a produção, por parte do BNDES, de documentos precificando as empresas.  

Apesar da esperança pela alteração no texto legal, o Ministério da Fazenda informou a O Fator que a apresentação de um laudo produzido pelo banco presidido por Aloízio Mercadante é condição obrigatória para o avanço das negociações.

Nos termos originais do Propag, a prerrogativa de elaborar os laudos de avaliação cabe exclusivamente ao BNDES. Para abrir brecha à produção de exames feitos por empresas contratadas pelos estados, seria preciso mudar o decreto que regulamenta a renegociação das dívidas.

“A negociação do acordo envolvendo os ativos que serão aceitos ocorrerá após o Estado comunicar formalmente ao Ministério da Fazenda a intenção de transferência de participações societárias, acompanhada do laudo de avaliação, bem como de minuta do acordo de transferência das ações, e do parecer da Procuradoria do Estado. A partir deste marco, serão avaliadas as condições e os aspectos econômico-financeiros, a aderência da operação ao regramento fiscal, inclusive eventual impacto fiscal, além da existência do interesse público na transferência do ativo”, informou a pasta, ao comentar o atual estágio das conversas.

Diante da menção aos laudos de avaliação, O Fator perguntou à Fazenda sobre a possibilidade de ajuste no texto legal para permitir que as negociações comecem a partir da apresentação de um documento similar produzido por uma consultoria externa, e não pelo BNDES. 

A pasta, então, respondeu citando o trecho do decreto de regulamentação do Propag que impõe ao BNDES a tarefa de avaliar os ativos oferecidos pelos governos locais. A lei também permite que o banco atue na “supervisão” do processo de exame dos bens.

“O laudo de avaliação de que trata o caput deverá ser elaborado, executado, coordenado ou supervisionado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES, o qual deverá conter precificação com base em valor justo, consideradas a conveniência e a oportunidade da operação, tanto para a União quanto para o Estado”, diz trecho do inciso sobre o tema.

BNDES defendeu laudos externos

A ideia de recorrer a uma instituição que não o BNDES começou a tomar forma na equipe do governador Romeu Zema (Novo) no mês passado, após uma reunião entre técnicos do banco e Mateus Simões. À ocasião, o diretor de Planejamento da instituição financeira, Nelson Barbosa, que já foi ministro da Fazenda, sinalizou que processos de avaliação de empresas, considerando o expediente adotado no Programa Nacional de Desestatização (PND), costumam demorar até um ano. 

Diante da informação de Barbosa, Simões passou a projetar que os laudos a respeito das estatais mineiras poderiam ficar prontos apenas em meados de 2026. Por isso, a ideia de avaliações externas passou a ganhar corpo.

Tempos depois, o próprio BNDES passou a defender a proposta. A sugestão foi encaminhada pelo banco ao governo do estado e à Secretaria do Tesouro Nacional (STN), que representa o Ministério da Fazenda nas conversas ligadas ao Propag.

“O Banco sugeriu, para avaliação do Ministério da Fazenda, da Secretaria do Tesouro Nacional (STN) e do governo do Estado de Minas Gerais, um conjunto de alterações no normativo do Propag. O objetivo é comportar o adequado processo para a avaliação dos ativos em negociação de forma que o enquadramento no Propag seja motivado pelo Estado interessado, que apresentaria sua proposta de ativos a serem federalizados conjuntamente com uma avaliação própria de valor. A partir do enquadramento junto ao governo Federal, o BNDES realizaria os laudos de avaliação dos ativos oferecidos conforme as determinações técnicas. Com os laudos adequadamente realizados, a União poderia concluir o processo de negociação com o Estado no tocante às suas dívidas”, explicou o BNDES, à ocasião.

A hipótese levantada pelo BNDES sobre a apresentação de ofertas de federalização com laudos elaborados pelos próprios estados poderia, em tese, acelerar as conversas a respeito da transferência da Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig).

Apesar da necessidade legal de tomar a opinião do banco quanto ao valor de mercado da estatal, a cúpula da empresa contratou a multinacional norte-americana Goldman Sachs para obter um laudo próprio de avaliação

Datas do Propag

Originalmente, as ofertas de federalização de ativos precisam ser encaminhadas à União até 30 de outubro deste ano. A data-limite para adesão ao Propag, por seu turno, é 31 de dezembro.

Nesta semana, Zema sancionou as leis que autorizam o repasse, ao governo federal, da Codemig e de sua controladora, a Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge). 

A dação de ativos à União no âmbito do Propag está amparada por regra que permite o desconto de 20% do saldo devedor dos estados por meio das federalizações.

Uma projeção da equipe econômica de Romeu Zema mostra que Minas pode terminar o ano devendo R$ 177,5 bilhões

Portanto, se os trâmites para a adesão ao Propag só forem concretizados no último dia de 2025, seria preciso reunir R$ 35,5 bilhões em ativos para obter o desconto de 20%.

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