‘Quem cuida de quem cuida?’: o Brasil que ainda finge não ver suas mulheres negras

Mulher negra aparece em foto sombreada
Não estamos falando de vitimismo, estamos falando de justiça. O Brasil deve a essas mulheres respeito, reconhecimento e reparação histórica. E precisa se comprometer com isso. Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Dia 25 de julho. Para muita gente, é só mais uma sexta-feira no calendário. Para mim — homem negro, servidor público, ativista e alguém que caminha lado a lado com mulheres negras todos os dias — é um marco. Um grito coletivo. Um dia para que o Brasil nos ouça, nem que seja por um instante.

Celebramos o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela, uma data de luta, memória e reafirmação. Mas como homenagear essas mulheres sem denunciar o Brasil que continua permitindo sua dor?

Nesta quinta-feira (24), o Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgou o Anuário da Violência de 2024. Os dados são alarmantes — mas, infelizmente, nada surpreendentes. Em 2023, mulheres negras representaram 66,6% de todas as vítimas de feminicídio no país. E 74% das mulheres vítimas de agressão física nas delegacias eram negras. Isso não é acaso, é estrutura. É projeto. É o reflexo de um país que desumaniza justamente aquelas que mais sustentam sua base.

Como não se indignar? Como naturalizar esses corpos tombando sem que o Estado ou a sociedade reajam? Como seguir calado quando tantas mulheres quilombolas, como Mãe Bernadete, seguem ameaçadas e executadas por protegerem suas terras e seu povo? Mulheres que transformam a dor em luta, o silêncio em denúncia, a ancestralidade em legado.

Mesmo diante de tanto descaso, a mulher negra permanece sendo o alicerce invisível e insubstituível deste país. É ela quem acorda antes do sol, prepara o café, cuida da casa dos outros, da sua, dos filhos e do mundo. É ela quem ensina, lidera, empreende, canta, denuncia, cura, dança e propõe.

A mulher negra é potência. É beleza que desafia os padrões. É sabedoria ancestral que resiste ao tempo. É coragem. É afeto. É força. É fé. É revolução em carne viva.

Não estamos falando de vitimismo, estamos falando de justiça. O Brasil deve a essas mulheres respeito, reconhecimento e reparação histórica. E precisa se comprometer com isso. Não basta comemorar em um dia — é preciso transformar todos os dias do ano em palco de valorização, proteção e promoção da vida dessas mulheres.

Hoje também me permito fazer uma homenagem pessoal. Neste dia, penso com gratidão e orgulho na minha mãe, Geralda Gomes Araújo, aposentada, mulher negra guerreira, que criou a mim e ao meu irmão Jucélio Araújo com trabalho digno, mãos calejadas e um coração gigante. Tudo o que sou devo ao amor e à firmeza dessa mulher que, com pouco, fez muito — e sempre com dignidade. Ela é minha primeira referência de resistência, de sabedoria e de grandeza. Mãe, sua existência é força, é farol, é lição de humanidade.

Mas minha mãe não está sozinha. O Brasil está repleto de mulheres negras que merecem nossa homenagem. Nas quebradas, nas aldeias urbanas, nas universidades, nas casas de família, nos campos e nas florestas, em gabinetes ou em banquinhas de feira — em todo canto há uma mulher negra garantindo que o Brasil funcione.

Penso também em tantas outras mulheres que, cada uma a seu modo, têm reescrito a história do Brasil com garra, ousadia e esperança. Elas abriram caminhos, mesmo quando o mundo se fechava.

Tereza de Benguela, mulher do século XVIII, já entendia o que o Brasil ainda hoje se recusa a aceitar: que mulheres negras não vieram ao mundo para servir ou sofrer, mas para comandar, liderar, transformar. Tereza chefiava o Quilombo do Quariterê, onde negros e indígenas resistiam juntos à escravidão. Era estrategista, rainha, líder. Era respeitada como chefe de Estado. Uma mulher negra livre, altiva, decidindo seu próprio destino. Seu nome foi empurrado para a margem da história, mas hoje ecoa como símbolo de força e dignidade.

Ela vive em cada mulher negra que ousa dizer “não” ao silêncio. Em cada mulher negra que levanta da cama antes do sol nascer, encara dois ônibus, um patrão e ainda sorri ao chegar em casa. Que enfrenta o racismo nas filas, nos hospitais, nas escolas, nas empresas. Que luta para não ser estatística. Que luta para viver.

Minha homenagem a todas as mulheres negras do Brasil

Neste 25 de julho, minha homenagem vai para todas vocês, mulheres negras brasileiras, com amor, com respeito e, sobretudo, com compromisso. Que este não seja um dia de flores vazias ou discursos formais, mas de reconhecimento real. Que estejamos ao lado de vocês não apenas hoje, mas em todos os dias do ano, com atitudes, políticas públicas, respeito, escuta verdadeira e decisões concretas.

Vocês não são invisíveis. Vocês são o Brasil que pulsa, que constrói, que educa e que transforma.

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