Para onde vamos? O dever da palavra contra o consenso do silêncio

Que esta crônica seja mais que um texto; que seja um convite e um compromisso
Setembro amarelo é o mês de prevenção ao suicídio.
Setembro amarelo é o mês de prevenção ao suicídio. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Há notícias que não apenas chegam. Elas nos atravessam. Escrevo, portanto, em primeira pessoa, pois já não me é possível observar este tema à distância. Nos últimos dois meses, perdi quatro pessoas conhecidas para o suicídio. Os números que vemos nos jornais deixaram de ser estatísticas e se converteram em vidas interrompidas, em famílias atordoadas, na face de uma cidade que, na pressa, deixamos de ver.

Diante do irremediável, proponho um diálogo, ao mesmo tempo simples e corajoso. O que verdadeiramente se passa com nossos jovens? O que nós, adultos, falhamos em enxergar? Que sinais deixamos de ler e que portas, sem notar, fechamos? Que silêncios legitimamos por medo, pudor ou simples ignorância?

As grandes perguntas que os mestres nos ensinaram permanecem atuais, quase intocadas pelo tempo: Quem és tu? De onde vens? O que fazes aqui? E, finalmente, para onde vais? Podem soar como antiguidades, mas constituem o próprio alicerce da existência. A esfinge não desapareceu; apenas mudou de endereço e sua sentença continua a mesma: “Decifra-me ou te devoro”. Sua imagem é um espelho que não envelhece.

Silêncios ruidosos

A cabeça feminina nos conclama à intuição para acolher o sofrimento da psique, pois a razão, embora necessária, não basta para sondar o mistério do viver. O corpo de leão exige a coragem de perguntar, de ouvir, de procurar cuidado profissional e de nomear aquilo que nos consome por dentro. Suas asas de águia apontam para o alto que de fato importa: o alto do sentido, dos bons vínculos e da sabedoria. É disso que o coração humano precisa para suportar o peso dos dias.

E o que nos devora hoje? O silêncio que cobre a dor com um véu de vergonha. A tirania do desempenho que confunde valor com performance. O culto ao sucesso que exila cruelmente quem tropeça. A solidão que habita quartos repletos de telas. A violência que se disfarça em risos, curtidas e ofensas virtuais. A precariedade que assombra a mesa e a mente. Tudo isso compõe a grande fome do nosso tempo.

Para começar a aplacá-la, são necessários dois passos fundamentais. Primeiro, falar com absoluta responsabilidade. A palavra pública salva quando abre portas para o cuidado e aponta caminhos de ajuda. Segundo, transformar os números em compromisso cívico.

Números da tragédia

Encaremos, então, o retrato direto e sem adornos. No mundo, mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio anualmente. Na faixa etária entre 15 e 29 anos, esta é a terceira principal causa de morte, com a maioria dos óbitos ocorrendo em países de baixa e média renda. 

No Brasil, os dados de 2021 registraram 15.507 mortes, das quais quase 80% eram homens. Entre jovens de 15 a 19 anos, foi a terceira causa de morte; entre 20 e 29 anos, a quarta. As taxas nacionais subiram consistentemente de 2010 a 2021. Este é um alerta que exige ação, não medo.

Retorno ao método socrático, à arte de perguntar. Quando foi a última vez que você perguntou a um jovem como ele realmente estava e permaneceu em silêncio, presente, o tempo suficiente para ouvir a resposta inteira? Que nome você dá às suas próprias tristezas? O que você esconde por trás do seu “está tudo bem”? E se uma pessoa querida lhe dissesse, hoje, “eu não aguento mais”, o que você faria?

Redes solidárias

E que me perdoe a ousadia, mas recorro a uma pitada rodriguiana para subverter as certezas cômodas: “Toda unanimidade é burra”. Talvez o consenso mais perigoso e ignorante de nossa era seja precisamente o consenso do silêncio. Fingimos que falar sobre o assunto aumenta o risco, quando o que verdadeiramente o eleva é não falar com responsabilidade. Fingimos ser um tema restrito a consultórios, quando é uma questão de toda a cidade. Fingimos que não acontece em nossa família, quando pode estar batendo à nossa porta.

O que fazer, então, agora mesmo? Nos lares, que a pergunta honesta substitua o julgamento e que se aprenda a pedir ajuda. Nas escolas, que se ensine linguagem emocional e competências para a vida. Na imprensa, que a cobertura seja de serviço, nunca de espetáculo, sempre indicando onde buscar apoio. Nas comunidades de fé e nos coletivos, que se abram espaços seguros para a dor que não grita. Nas plataformas digitais, que se protejam os adolescentes de ataques e armadilhas que os empurram para o abismo. No sistema de saúde, que se garanta atendimento oportuno e contínuo. E na política, que se priorizem as evidências: limitar o acesso a meios letais, orientar a mídia, desenvolver habilidades sociais e emocionais entre os jovens e acompanhar de perto quem está em risco.

Se você, ou alguém próximo, precisar de ajuda, procure um serviço de saúde e ligue para o CVV (Centro de Valorização da Vida) no número 188. O atendimento é gratuito e funciona 24 horas por dia, por telefone ou chat. Falar pode mudar destinos. Escutar salva vidas.

Que esta crônica seja mais que um texto; que seja um convite e um compromisso. Convido você a levar este diálogo para a sua família, para a sala de aula, para a reunião de pauta ou para o café de domingo. De minha parte, comprometo-me a voltar ao tema. A vida como ela é, afinal, exige coragem e cuidado. E nesta jornada, ninguém precisa caminhar sozinho.

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