É curioso pensar que meu avô, Hélio Garcia, já previa — de forma quase premonitória — esse cenário que vivemos hoje. Em 09 de setembro de 2001, ao anunciar sua saída definitiva da vida pública, ele declarou estar cansado de ver “político mordendo a orelha do outro para aparecer em capa de jornal”.
Passadas mais de duas décadas, trocamos as capas de jornal pelas redes sociais e telas dos celulares, e os políticos pelos influenciadores de palco — mas o enredo continua o mesmo. Talvez até mais ruidoso.
A política brasileira entrou num estágio em que a busca por curtidas, engajamento e exposição parece se sobrepor ao compromisso com propostas reais. Vivemos tempos em que muitos dos nossos representantes não estão preocupados em transformar, mas sim em cortes e em lacrar. Em vez de articuladores da mudança, vemos protagonistas de espetáculo. A política, que deveria ser o espaço do diálogo e da construção coletiva, se transforma em ringue, onde vence quem grita mais alto ou viraliza primeiro.
Nas últimas eleições, de 2022 e 2024, esse fenômeno atingiu seu ápice. Os embates se reduziram a ataques pessoais, memes e polarizações vazias, com pouco ou nenhum espaço para planos de governo concretos ou soluções factíveis para o país. O voto se tornou uma escolha de rejeição, mais contra alguém do que a favor de um projeto. E esse padrão se espalhou para outras esferas: no Legislativo, parlamentares priorizam polêmicas para gerar engajamento; o Judiciário, por vezes, é arrastado para o centro da arena política; e o Executivo, com frequência, se envolve em disputas que priorizam a visibilidade em detrimento da construção de consensos.
É urgente que a sociedade volte a valorizar o conteúdo, e não qualquer conteúdo, mas aquele capaz de transformar a realidade de forma concreta. O algoritmo das redes sociais é feito para nos surpreender, nos prender em bolhas, mas é o projeto político sério, pensado e fundamentado que transforma. Não basta ser barulhento. É preciso ser consequente.
Por isso, é hora de refletir: o político em quem confiamos faz mais barulho do que traz transformação? Ele atua em torno de temas com real poder de impacto, ou apenas grita para permanecer relevante? Está nos representando de fato ou apenas gerando engajamento para monetizar sua presença digital? Ele tem alguma solução para os nossos problemas?
Fazer barulho sem capacidade de execução é quase um estelionato eleitoral. Prometer sem entregar, inflamar sem fundamentar, gritar sem construir — tudo isso mina a democracia e engana o eleitor, que acredita estar votando em um transformador, quando na verdade está escolhendo um influencer político.
Esse descolamento entre forma e substância corrói a confiança pública e fragiliza o vínculo entre representado e representante.
É tempo de devolver profundidade à política, e isso vai muito além de retórica. O Brasil clama por projetos sérios, por reformas estruturantes urgentemente necessárias, por soluções que enfrentem os problemas reais do país com técnica, responsabilidade e visão de futuro. E esse processo começa com a responsabilidade de quem vota, de quem cobra e de quem se permite representar. Que o passado nos sirva de lição, não como saudosismo, mas como alerta.
Como já ensinava Marco Aurélio, o imperador-filósofo: “Que as palavras sejam como as ações: úteis, justas, e não apenas barulhentas.”