Em meio a um ambiente político febril, onde o debate público é frequentemente atropelado por uma minoria barulhenta e hiperengajada, a pesquisa coordenada por Pablo Ortellado e repercutida pelo “O Globo” na última semana, surge como um balde de água fria na realidade nacional. O dado de que 54% do eleitorado se sente à margem da polarização não é um mero achado estatístico; é uma radiografia contundente da alma de um Brasil exausto e um veredito sobre o fracasso da nossa classe política e do ecossistema de comunicação que a sustenta. A tese que defendo é que não estamos diante de uma “maioria silenciosa” passiva, à espera de um salvador. Estamos, na verdade, diante de uma “maioria silenciada”, um contingente que foi ativamente expulso do debate por uma cacofonia irrelevante, travada por uma elite política que insiste em digladiar-se em arenas bem distantes da vida real da população.
Do ponto de vista da comunicação política, o fenômeno dos “invisíveis” expõe uma falência estratégica. A obsessão pela métrica do engajamento digital, pela viralização a qualquer custo e pela micro-segmentação de mensagens para nichos radicalizados, criou um perigoso diálogo de surdos. Políticos e seus marqueteiros caíram na armadilha de confundir a intensidade de suas bolhas com a opinião pública, acreditando que o termômetro do país se resume aos trending topics do X ou à fúria dos grupos de WhatsApp. O que a pesquisa revela é o abismo entre essa percepção e a realidade. Os “desengajados” e os “cautelosos” desenvolveram uma espécie de imunidade a esse espetáculo da indignação (na maioria das vezes, seletiva). Eles não estão na arena virtual performando sua cidadania; estão enfrentando a inflação no supermercado, a insegurança nas ruas, no transporte público e a incerteza sobre o futuro. A comunicação política hegemônica tornou-se autorreferente e viciada em si mesma: celebra o próprio barulho, enquanto a maioria do país, em um ato de autopreservação, simplesmente mudou de canal.
Politicamente, o erro capital tem sido a tentativa de enquadrar o eleitorado brasileiro em molduras ideológicas importadas, que não condizem com a nossa formação sociológica e muito menos com a nossa realidade. A “guerra cultural”, como conhecemos no eixo anglo-saxão, não encontra correspondência direta aqui. O eleitor médio brasileiro é um ser fundamentalmente híbrido: moralmente conservador e economicamente desenvolvimentista. Ele não vê contradição em defender os valores da família tradicional e, ao mesmo tempo, ser um beneficiário e defensor ferrenho de programas de transferência de renda ou do Sistema Único de Saúde. Forçar este cidadão a uma escolha de pacote fechado ou o progressismo liberal que ele sente que ameaça seus valores, ou o liberalismo econômico que atenta contra sua segurança material, é a receita exata para a alienação que testemunhamos.
O desafio dos “silenciosos”, como mostra a matéria, é justamente personificar a complexidade dessa realidade. Eles flutuam entre os espectros, pinçando de cada lado aquilo que faz sentido para sua realidade concreta. Não se trata de indecisão, mas de pragmatismo. Essa tem sido, historicamente, a tônica do eleitor brasileiro, e os líderes que obtiveram sucesso no passado foram justamente aqueles que compreenderam essa síntese intuitivamente. A dificuldade atual reside em uma nova safra de lideranças, mais preocupadas com a pureza ideológica e a aclamação de seu “exército” do que em construir pontes para essa maioria complexa.
Advirto contra a leitura preguiçosa de que bastará um candidato de “centro” com um discurso moderado para arrebatar esse contingente. A desconfiança é profunda e a descrença, generalizada. O desejo por “ordem”, tão presente nesses grupos, não pode ser confundido com um anseio por autoritarismo; trata-se de um clamor por previsibilidade, funcionalidade e paz social. Da mesma forma, o apoio a um Estado de bem-estar social não deriva de uma adesão à doutrina socialista, mas de uma compreensão pragmática de que, em um país de desigualdades abissais, o Estado é um ator indispensável na garantia da dignidade mínima.
O cenário para 2026 é, portanto, um campo aberto e de alto risco. O vácuo de representação de 54% é, sem dúvida, uma oportunidade para uma renovação de discursos e práticas políticas. Contudo, é também um convite perigoso ao surgimento de um populismo que, mais astuto e competente que os anteriores, consiga manipular essa insatisfação latente. Se as forças políticas tradicionais não forem capazes de decodificar a mensagem urgente dos “invisíveis”, continuarão falando sozinhas enquanto a maioria busca, em seu silêncio, uma alternativa fora do sistema.
O desafio que se impõe é gigantesco. Exige a formulação de uma nova linguagem política, mais empática, menos focada em dogmas e mais em soluções. Espero que o vencedor de 2026 não seja aquele que gritar mais alto para sua claque, mas que seja quem souber sussurrar uma mensagem de esperança e estabilidade no ouvido da maioria silenciada. Em última análise, a próxima eleição presidencial será menos uma disputa entre esquerda e direita e mais um referendo sobre a relevância do próprio sistema político. O fracasso em se reconectar com os “invisíveis” não levará apenas à derrota de um candidato ou partido; poderá significar a aceleração do divórcio entre a nação e sua democracia, um desfecho em que todos, sem exceção, perderemos. A questão não é se os “invisíveis” decidirão a eleição, mas se a classe política brasileira finalmente decidirá ouvi-los.