Os 6 ‘reféns’ libertados por uma operação policial

Governadores estiveram no RJ para prestar apoio ao homólogo Cláudio Castro. Foto: Governo do RJ/Divulgação

É cruel fazer cálculo político em cima de uma operação que terminou em mortos. Mesmo a leitura mais otimista exige lamentar tanto as quatro mortes de policiais em combate, como as demais vidas perdidas. Não é este o texto para discutir o mérito moral da ação. Aqui se pretende discutir sobre a reorganização estrutural que emergiu naquele exato instante. A megaoperação no Rio empurrou a segurança pública para o centro do debate nacional e, quando isso acontece, quem naturalmente ganha palco são os governadores. Segurança é atribuição deles, eles têm polícia, orçamento, cadeia de comando, indicadores para exibir e cobranças para enfrentar.

Os seis governadores que se reuniram presencialmente no Rio de Janeiro, além da vice-governadora do DF e o governador de São Paulo, dizem ter ido para dar suporte a Cláudio Castro, o colega fluminense. Um grupo de governadores já vinha operando como um fórum informal da direita, tentando viabilizar um nome competitivo contra Lula. Até aqui, orbitavam o bolsonarismo, pedindo anistia, testando limites institucionais e esperando sinais vindos de fora da política formal, ou até mesmo de fora do país. O episódio em que Carlos Bolsonaro os comparou a ratos foi emblemático, não somente pelo insulto em si, mas pela coreografia humilhante que se seguiu. Líderes experientes, com longa trajetória política e conquistas pessoais bem resolvidas, aceitando a bronca, como quem pede licença para fazer política, de um vereador com vida política medíocre, cuja única característica que o distingue é ser filho do ex-presidente. Depois da reunião de Lula e Trump, que já parece ter enfraquecido a esperança de quem acreditava na intervenção americana, a operação do Rio consolidou a mudança de chave. De uma pauta tutelada por influenciadores do clã, este grupo de governadores-presidenciáveis de direita ganhou um assunto que é seu por definição, com ação, número, meta, erro e acerto medidos em boletins e não em threads.

Daí o efeito imediato. Ao batizarem um consórcio entre estados, esses governadores deixaram de ser reféns da agenda dos Bolsonaro e passaram a disputar algo concreto entre si. Instala-se uma espécie de “prévia” não declarada da direita brasileira cujo tema é segurança pública. Esses governadores têm, portanto, uma pauta que é legitimamente deles para discutir e podem fazer disso um palanque eleitoral baseado em algo muito concreto. Diferente das pautas abstratas que dependiam de Bolsonaro, eles têm um assunto que efetivamente impacta toda a população.

Como se observa em prévias formais, como na Argentina e nos Estados Unidos, em que primeiro se tem a disputa intrapartidária, a disputa começa voltada para quem já é desse grupo político. Na “prévia” velada que se estabeleceu nesse grupo de presidenciáveis, cada um dos quais já têm sua própria polícia, cada governador vai escolher um caminho. Alguns vão dobrar a aposta no confronto, operações de alto impacto, narrativa de guerra ao crime para energizar a base. Outros vão preferir falar de gestão, inteligência, cooperação entre forças, índices que caem trimestre a trimestre, uma história mais silenciosa.

Ao vencedor dessa espécie de prévia, que deve em tese ungir o candidato favorito para liderar a direita nacional, espera-se como prêmio a candidatura presidencial. Ainda que essa não seja uma prévia partidária formalmente estabelecida, a literatura apresenta, entre os países que têm tal prática como algo recorrente, um ponto em que a estratégia vira armadilha com facilidade. O “eleitorado” da “prévia” é o público que já é daquele campo e tem interesse especial em política. Assim, o que pode render aplauso na “prévia” interna também pode cobrar pedágio na eleição geral. O eleitorado inteiro é diferente da plateia da prévia. O candidato que sair vencedor desse bloco terá de conversar com o Brasil que teme a violência e ao mesmo tempo teme o abuso, que aceita o uso da força e rejeita o atalho ilegal, que quer polícia eficiente e não espetáculo de brutalidade. Do outro lado, Lula, já na defensiva, terá de impedir que a agenda da segurança corroa sua imagem, um terreno em que o PT tradicionalmente patina. Ele já deu sinais que sentiu o recado. Não bastará ao governo dizer que segurança é tema complexo, é preciso mostrar comando, coordenação e resultados, sob pena de entregar à oposição o assunto que mais mexe com a vida do cidadão comum.

O que vale a pena observar agora é o reposicionamento. A operação no Rio, com toda a sua dor, funcionou como chave de cadeia política. Seis reféns foram libertados de serem companheiros virtuais da prisão domiciliar de Bolsonaro. Eles agora têm uma pauta que não depende de curadoria familiar, têm como se diferenciar, têm como errar em público e como acertar de forma mensurável. A competição começou. Teremos o vencedor da “prévia” em que se escolherá o líder da direita. Depois, externamente, é o eleitorado brasileiro que estará em jogo. Após conquistar a direita, faltará conquistar quem está no caminho do meio: o tal eleitor pêndulo que pode votar em qualquer um dos polos. Esse eleitor-pêndulo, suponho, pelo menos nessa pauta, escolherá quem provar que consegue reduzir crime sem produzir um passivo moral e jurídico que o inviabilize quando se estabelecer a campanha propriamente dita, 45 dias antes das eleições de 2026. Nesse caso específico, leva vantagem quem entender que segurança é política pública antes de ser slogan. E perde quem confundir barulho com autoridade. Porque, ao fim da prévia, a porta que se abre não dá para um comício, dá para o país inteiro.

PS: Escrevo isso após ter realizado nosso evento de lançamento do livro Cabeça de Candidato no Rio de Janeiro. Apesar do evento ter sido um sucesso, foi profundamente desconfortável que a pauta das entrevistas que seriam sobre o lançamento tenha virado “marqueteiro comenta tragédia”. Fiz o que o ofício exige: analisei o fato, pesei implicações, calculei danos, mas saí com a sensação de ter perdido alguma coisa no caminho. No final do livro, inclusive, há um capítulo chamado “O Niilismo do Marqueteiro: Um Exercício de Resiliência”, sobre a necessidade de se distanciar estrategicamente do objeto de trabalho e das paixões pessoais, para não enlouquecer neste ofício. Fiquei pensando em como essa habilidade me ajuda a não sucumbir ao peso do momento. No fim, é isso: é trabalho, é política, é comunicação. Mas também é alma. E, às vezes, o trabalho consome mais dela do que deveria.

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