A gramática do afeto

No fim, ninguém é amado por gramática impecável. Ama-se pela ferida, pela coragem de se mostrar
Imagem: Youtube

Esta crônica nasceu de cenas miúdas. Um cartaz amarelecido de uma repartição pública onde diz: “favor preencher em letra de forma”, a caneta presa por um barbante, o carimbo com tinta falha, a voz chamando a senha B 43. No balcão, quem atende fala em “conformidade”, “protocolo”, “exigência”. Quem escuta, por vezes, apenas concorda com a cabeça, sem alcançar o “miolo” do recado. A palavra, que deveria abrir portas, às vezes se comporta como trinco.

Penso também no começo de tudo. A nossa língua chegou pelo mar, principalmente pela Bahia. Trouxe rezas, leis, cadernos, a gramática do império e a gramática do convívio. Vinha com a ordem e trazia também a conversa de feira, o pregão, a reza baixa. Entre imposição e mistura, o idioma foi se ajeitando nas mãos do povo.

Para falar desse atrito sem levantar a voz, escolhi a alegoria. A Gramática aparece como Princesa, impecável, com postura e luvas. O Matuto entra com o falar marcado de roça e de ofício, um dizer que sabe do tempo da chuva e do preço do feijão. Não se trata de opor “certo” e “errado”, mas de examinar quando a correção, convertida em dogma, silencia quem mais precisa ser ouvido. A forma existe para sustentar o sentido. A vírgula, quando chega, devolve o fôlego da conversa.

Os personagens são de fantasia, porém o conflito é vivo. Se a história, de algum modo, lhe parecer familiar, tome como mera coincidência. O desejo é simples: que o vernáculo, estrangeiro de outrora tornado casa nossa, continue servindo de ponte. Nunca de muro.

A Princesa e o Matuto

(sobre vírgulas, morros e encontros)

O que pesa mais: a casca ou a semente? A moldura ou o calor que escapa da tela? A gente se apega ao brilho da forma e, sem perceber, deixa o coração mudo. E se a vida, a vida de verdade, insistir em nascer no avesso, na fratura, no tropeço?

Pense na Bahia por dentro, não a do cartão-postal. Tempos de Império. É ali que desembarca a dona da ordem: a Princesa Gramática. Bela, cintilante, impecável, cercada de certezas. Com ela vêm a aia-mor Dona Concordância, severa; a aia Dona Ortografia, que não perdoa um detalhe e a aia Dona Acentuação, precisa; e os Senhores da Pontuação, sempre alertas. No meio deles, guardada como segredo, a filha miúda: a vírgula, criatura que pede ar antes de continuar.

Do outro lado, um homem que o povo chama de Matuto. Simples no nome, fundo no que carrega. Traz no corpo marcas abertas, cicatrizes de algumas chagas que o tempo foi incapaz de esconder. Não tem a perfeição da Princesa, mas tem algo que ela talvez deseje: lembrança de sentimento que não precisa de regra para existir.

Ele a observa subindo o morro para suas rezas oficiais. Sobe o mesmo morro para falar com seu santo protetor, São Paulo, e se pergunta: o que busca no céu alguém que parece já não pisar no chão dos imperfeitos? Vê o incômodo dela quando uma palavra áspera corta o ar. E, sabendo-se “erro” ambulante, pensa: como chegar perto?

Até que entende o óbvio, o de Nelson, o ululante: a perfeição entedia. A rainha da forma tem fome do que pulsa no erro. Então ele faz o gesto de quem já não tem o que perder: não vai falar com a Princesa; vai se oferecer inteiro. Rasga o silêncio diante de todos e, do peito, puxa a reza que tem:

Vosmecê me perdoe a ousadia, Princesa de nome bonito. Mas as palavra que tenho pra lhe dá num veste roupa engomada, não. Elas nasce é do peito, ó… nasce pelada que nem os índio da minha terra anda…

E segue. Cada “desvio” é um jorro de verdade, um corte de ar no salão dos bem-falados — … E se pra falar certo o coração tiver que ficar mudo, é melhor eu só lhe olhar. Porque meus olho, Princesa… ah, meus olho sim, eles faz a concordância certinha com a lindeza sua.

O esperado era castigo. Exílio. Mas acontece o que só acontece quando a vida entra sem pedir: a estrutura racha. A Princesa não chora nem grita. Ri. Não um riso de festa, mas de alívio e de quem vê o cárcere abrir a porta. Naquele instante, o Matuto, com sua gramática de chão de terra firme, é mais nobre que toda a realeza.

Ela o chama, não para corrigi-lo, mas para reaprender a canção que desaprendera: a da humanidade.

E nós? Quantas vezes, no nosso Morro de São Paulo particular, subimos para agradar ao Deus da Opinião Alheia e estrangulamos o que é verdadeiro só para não errar? Talvez a vida sem verniz do Matuto não seja caricatura de ignorância, mas o retrato de uma sabedoria antiga: afeto não precisa de adjetivo. Um “eu te amo”, dito torto, salva mais do que um tratado dito certo.

No fim, ninguém é amado por gramática impecável. Ama-se pela ferida, pela coragem de se mostrar. E, quase sempre, tudo o que a conversa precisa é de uma pausa, um respiro, uma vírgula. Como a filha pequena da Princesa, lembrando que, entre a dureza da regra e a beleza do que vive, sempre cabe um espaço para ser feliz.

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